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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 4/23

É importante o Sul reconhecer as tribos como a sua essência carnavalesca

Sampaio – Você chegou em Porto Alegre com uns 12 anos, então?
Luis Vagner – Isso, com uns 12 anos.
Sampaio – Com a família toda?
Luis Vagner – Com a família toda. Papai foi transferido para lá em 61, 62.
Sampaio – Aí Porto Alegre, guitarra…
Luis Vagner – Porto Alegre, guitarra, Jetsons.
Tacioli – Como o grupo se formou?
Luis Vagner – Fui morar no Partenon, alto de um morro, muito bonito, Igreja de São Antônio, aquelas coisas. Porto Alegre já me envolvia. Eu só tinha passado por Porto Alegre uma vez, quando uma tia minha foi se casar e fui ser aio, aquele que leva aliança. E quando estive por lá nessa ocasião, o Carnaval estava perto e eu fiquei. E com 10 anos de idade, eu fugi de casa para assistir ao Carnaval. A raiz carnavalesca do Rio Grande do Sul são as tribos. Hoje, já não está assim, e sim aquela cópia descarada do Carnaval do Rio de Janeiro, de escola de samba. Nesse último Carnaval deu a maior confusão. Acho horrível para a formação da gurizada, para a cultura da terra, sabe? Fica meio sem alicerce, sem uma base cultural importante. E está acontecendo isso. É importante o Sul do Brasil reconhecer as tribos como a sua essência carnavalesca maior, da festa do povo.
Almeida – Luis, como era esse Carnaval?
Luis Vagner – Esse carnaval era muito bonito. As batidas, os sons dos negros daquela região são diferentes. O samba no sul é diferente. Ele é tocado a três, e não a dois. [sonoriza o compasso] Tudo quebrado.
Cirino – Seis por oito.
Luis Vagner – Tudo no seis por oito. Tudo pensado em três, sabe? Só que um toca em três, o outro em três e meio, três e um quarto. [sonoriza] É diferente. É lindo! E isso jamais vazou! Nesse disco Brasil afro-sulrealista eu tinha uma vontade infinda de realizar esse trabalho, como um débito de gratidão e um exemplo para a rapaziada prestar atenção mesmo na sua essência, ou seja, uma evolução interior honesta, de coisas vividas, sentidas, para que se tenha uma comunicação correta com o seu povo. Esse é o artista!
Monteiro – E a forma de tocar esse samba tem a ver com influência da região?
Luis Vagner – Sim, tem. Totalmente. Se você pegar a música regional, que faz a fusão mesmo no sul do Brasil, você tem uma influência cisplatina. Já corre isso. Porque esse lado da América do Sul é o elo: cisplatina, andina, tem essa ligação, e os negros dali desenvolveram um modo de tocar. Por exemplo: quando se toca um xote, um vanerão, uma rancheira no sul do Brasil, percebe-se que é muito parecido com a reggae music. Mistura que funde a milonga, os tipos de baixaria [sonoriza] [risos] E os “negão” tocando. Tem muito tambor, tem que fazer o “plim plim / plim plim pó”, aí tem essa característica. Quando o reggae pintou, parecia que eu já conhecia aquilo ali. É parecido! Não sei se é essa coisa da falange africana, com negros aqui e outros lá. Ninguém ficou sabendo de onde eram. Essa estrutura cultural do sul do Brasil nunca vazou dentro do próprio país. É a soma que precisa, da alegria, da safadeza. Existe também um lado mais tenso, dos negros que lutaram, que usaram lanças para se defenderem.
Luiz Paulo Lima – O povo de fronteira.
Luis Vagner – O povo de fronteira. Tem uma coisa da natureza… é muito importante. Sempre me preocupei com esse lado, porque eu vim para cá [São Paulo] muito cedo e eu não me encaixava em grupo nenhum. Eu não era baiano, não era nordestino, não era de um grupinho, mas eu tinha uma visão. E na minha terra não havia um grupinho que viesse para entrar nesse sistema, era uma outra visão. Então, às vezes, eu me sentia deslocado, mesmo ali na Jovem Guarda, no Tropicalismo, quando começou a ter uma separação, um tipo de separatismo, uma diferença de estrutura ou intelectual, ou cultural, ou espiritual, ou ainda de sabedoria humana, mesmo, porque vivíamos quase todos juntos, mas não dava, não se tinha diálogo, não se podia chegar, era diferente. Não estava preparado, era alienado. Havia mil choques. Eu enfrentei. Pelo menos enxerguei dessa maneira. Tudo o que aconteceu nessa música que hoje, para mim, é a música planetária brasileira, foi isso aí. Depois começou a evoluir…
Cirino – Você acha que parte dessa diferença era por causa de sua raiz musical?
Luis Vagner – Olha, não era só por isso. Fiz parte do primeiro movimento da Jovem Guarda. Era pureza, não havia um esclarecimento de atitude política. Não era essa a proposta, mas sim mais a musical. Quando pintaram grupos com outras mentes, era perfeito, era uma soma, ou seja, havia a possibilidade de um contato, e através desse contato, uma evolução. Esse era o ponto. Mas esse contato se dava com muito atrito, com a briga do iê-iê-iê com a bossa nova, o jazz. E ao mesmo tempo, era tudo uma bobagem, já que existia um conceito de alienação tanto do lado de cá, quanto do lado de lá, porque se fechava a possibilidade de união, de uma fusão. Isso me fez pensar muito sobre o significado de ser artista, ou músico, ou alguém que tem uma responsabilidade no momento em que passa a se dirigir às pessoas, à multidão. Tudo certo, porém o ponto mais importante é a possibilidade de evoluirmos como ser humano.

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