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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 2/23

Com o Copacabana Serenaders conheci a Angela Maria, o Cauby e o Jamelão

Luiz Paulo Lima – Olhem a viagem. Tem um divulgador que foi no Jô Soares e vendeu o seguinte: “Fala para o Luis não comentar com ninguém que há 24 anos que ele não corta o cabelo.” E eu falei: “Caso você tenha esquecido, ele é compositor e cantor.” Uma curiosidade passou a ser o principal, e o principal passou a ser um detalhe. É uma inversão de valores! Você fica quebrando o pau o dia inteiro.
Luis Vagner – A vida inteira.
Monteiro – O Dafne tem uma definição boa para isso. “A perca de valor”!
Luis Vagner – É a perca, a perca, a perca! [risos]
Tacioli – Vamos começar?
Monteiro – Bom, vamos falar de música, do começo, da infância. Você falou que seu pai tinha banda. Quando você começou a se interessar por música?
Luis Vagner – Nasci na cidade de Bagé, fronteira com o Uruguai, e muito cedo, aos quatro anos, vi a separação dos meus pais. Papai foi viver em Santa Maria. Minto. Antes foi para Don Pedrito, e só depois, para Santa Maria. Aí cheguei em Santa Maria. Eu já gostava de ouvir música, mas não sabia nada ainda. Eu só me lembro vagamente de um grande tocador de bandoneon, um exilado político, que passou uma temporada com a gente em Bagé. Nunca vi olhos tão tristes de um homem, uma coisa melancólica. Aquele instrumento tinha um sentimento de aflição e, ao mesmo tempo, era espiritualmente evoluído, ou “evoluinte” – não sei se existe essa palavra. Desde muito cedo eu gostava de sentimentos que provocavam uns choques. Bom, logo que fui para Santa Maria, com seis, sete anos, papai começou a tocar em uma orquestra. Foi a primeira vez, então, que eu tive a oportunidade de ver música, de ver uma grande música, sabe? Metais, saxofones, clarinetes…
Giovani Cirino – Qual era a orquestra?
Luis Vagner – A Copacabana Serenaders. Eu me lembro de músicos como o Limão, baterista. Foi com ele que tomei, pela primeira vez, uma caninha com limão, de 7 para 8 anos. Foi ele quem me deu. Do lado da bateria tinha um copinho… Por que o apelido dele era Limão? [risos] Limão me aplicou e eu fiquei corajoso, queria tocar também. Depois que gravei o programa do Faro, Ensaio, eu tive notícias desses músicos que assistiram lá em Santa Maria, músicos como o Setembrino, que está na foto com papai, e alguns ainda daquela época. Eram saxofonistas, clarinetistas. Eu me lembro de Maria Bethânia no piano, tinha a família do Adão Pinheiro, o Paulo Pinheiro, pianistas que até hoje tocam pelo Brasil. Lembro-me do Pantera Trombone, Caçapa, músicos que eu cito o nome porque foram o meu primeiro contato profundo com a música, que era já o jazz, a música do Duke Ellington, do Benny Goodman, Art Shaw, Count Basie, da orquestra do Severino Araújo, com aqueles repertórios. E com 7, 8 anos, foi a primeira vez que entrei em um concurso de dança e ganhei. Rock and roll. Eu e meu irmão. [n.e. “Rock & Roll” no Clube União Familiar, em Santa Maria] E na sexta-feira, no SESC Pompéia, tive a honrada e orgulhosa presença do Jamelão, que já havia cantado nesse clube há muitos anos, um clube onde o Lupicínio Rodrigues começou sua carreira. Aí, através dessa orquestra e nesse clube, conheci a Angela Maria, o Cauby Peixoto, o Jamelão. Então, muito rapidamente eu comecei a viver uma cultura espiritual dentro daquele ambiente de músicos. E ali foi me despertando algo que eu nunca soube explicar, mas naquele momento parece que eu concebi a música minha. “Eu vim ao mundo para fazer isso que essa gente faz, do jeito que eles fazem, uma música fundamentada, que tem mil coisas, uma harmonia em que o respeito é importante”. Ali veio o meu despertar. Sempre vim da música. Foi o meu elo, o meu caminho. Tive também a oportunidade de ter um avô – Mário Lopes Brasil, seu criado – que era um negro de Rosário do Sul, muito forte e altruísta, um homem que se empenhou em fundar escola. Ele era fotógrafo, dançarino e declamador. Essa veia artística sempre existiu na minha família.
Almeida – A música não veio através do rádio, e sim da família.
Luis Vagner – Isso, ela veio de casa, com a oportunidade de ser educado, de ouvir esses grandes músicos. Ouvia Alberto Castilho, que eu não sabia se era o Don Antonio, se era um daqueles que estavam com o bandoneon lá em Bagé, aquelas coisas de fronteiras. Ouvia muito o canto Nat King Cole. Dos brasileiros, muito Jamelão, Dupla Ouro e Prata, Elza Soares e Miltinho.
Tacioli – Você ouvia muito rádio, Luis?
Luis Vagner – Rádio? Ouvia. Era assim: o avô, a avó, papai, a mana Cemiramar e eu. Já era independente, tinha o meu canto, o meu quarto, e eu roubava um radinho do pai quando ele não estava. Aí ficava procurando as rádios, freqüência modulada, não é isso? Rádio Nacional, Mayrink Veiga. Aqui de São Paulo pegava a Nove de Julho. E quando pintou o rock and roll com o Sergio Murilo [n.e. Cantor carioca, 1941-1992, intérprete de “Broto legal” e “Marcianita” e famoso por versões de rocks de Paul Anka e Neil Sedaka], Cely Campello [n.e. Cantora e representante dos primeiros momentos do rock and roll nacional. Nos anos 50 gravou “Estúpido cupido” e “Banho de lua”], Tony Campello [n.e. Cantor e produtor paulista nascido em 1936 e dono dos sucessos “Boogie do bebê” e “Pertinho do mar”] e Demétrius [n.e. Cantor e compositor, gravou “Ritmo da chuva”, versão de “Rhythm of the rain”, de John Gummoe, um de seus hits], que foi também o primeiro a gravar uma música minha. Era o meu ídolo. Mais tarde começou a pintar o Erasmo, o Roberto, a Wanderlea. Aí eu já tinha saído de Santa Maria e me mudado para Porto Alegre.
Sampaio – Então, na sua família, o que primeiro você ouviu foi jazz orquestral?
Luis Vagner – Sim. E chorinho, Pixinguinha.

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