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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 22/23

Gastamos 20 reais para fazer o LP do Zé Keti

Tacioli – Eu estava assistindo ao seu Ensaio [n.e. Programa da TV Cultura dirigido por Fernando Faro], e ali percebi que você prima pela divisão rítmica. Jackson do Pandeiro e Jorge Veiga são exemplos de artistas com ótima divisão rítmica.
Luis Vagner – Jorge Veiga também. Jorge Veiga, olha aí! Alguém muito forte, Nossa Senhora!
Tacioli – De que forma essas pessoas estiveram presentes em sua vida? Você ouvia as músicas deles?
Luis Vagner – Muito, muito. Foi bom você falar nesse homem também. Nossa, Jorge Veiga! Agora você me fez viajar. Sempre gostei do Caco Velho; Germano Mathias é meu ídolo. Tive o prazer de tê-lo em uma gravação do Ensaio, que não foi ao ar. Vou falar com o Faro! [ri] Pô, o meu ídolo, por quê? [canta batucando no violão e depois palmeando] “Situação / O Escurinho … / o Zé Pretinho disse que quer saber / da mulher que ele carregou / meu Deus, que horror / e aquela baiana / e ele virou o tabuleiro dela / foi no cemitério acender uma vela / o escurinho não sabe o que ele arranjou / morou, morou / e aquele bamba / é que ele bateu no Morro do Macaco / esperar encontrar com ele vai ser um buraco / bamba espera chegar a sua vez / Lá no Morro do Pinto / a moçada faz samba o mês inteirinho / esperando neguinho Escurinho / ir lá novamente fazer o que fez / vejam vocês.” [e termina imitando um trombone] Esse é Germano Mathias, grande mestre! Tive o prazer de fazer show com ele.
Tacioli – E você já gravou com ele?
Luis Vagner – Nunca gravei. Eu gostaria tanto, tanto, tanto. Consegui gravar com o Zé Keti. Produzi um disco do Zé Keti, meus amigos! Coisa mais maluca que poderia acontecer em minha vida.
Tacioli – E como é que pintou essa oportunidade?
Luis Vagner – Quero dizer só o valor da produção para vocês prestarem bem a atenção sobre o que é música no Brasil. Gastamos vinte reais para fazer o LP do Zé Keti. Foi uma produção que eu me orgulho profundamente por ter feito. O disco está guardado com o filho dele, que eu gostaria de ter para eu poder mostrar. “Alô, filho do Zé Keti, ó, tá com você! Tem que estar com o filho mesmo, mas apareça e traga para a gente mostrar para o pessoal, levar para o ar!”.
Tacioli – Vinte reais?
Luis Vagner – Vinte reais, duas notinhas de dez. Foi o que se pagou pela… Nem me lembro se foi pela fita.
Tacioli – Que disco é esse?
Luis Vagner – É um disco que está com o filho dele.

O sambista carioca Zé Keti (1921-1999) em dois momentos discográficos: do show Opinião (1965), com Nara Leão e João do Vale, e de 1970, homônimo. Fotos: reprodução

Tacioli – Na gaveta?
Luis Vagner – Está na gaveta. É um disco em que toco com o Zé Keti. Ele cantando uma fusão de reggae music comigo, como ele queria. [tenta imitar o Zé Keti] “Vamos gravar. Eu quero que você fale assim: Amor / Sempre amor”. E eu falo assim “Love / Everyday / Love”, ele dá uma gargalhada e começa a cantar uma música sobre o Presidente da República e sua turma [ri], do Collor, PC [Farias]. Depois entra uma história de uma menina que ele se apaixonou, dá uma caminhada, vem uma saudade muito grande do Bob Marley, do Peter Tosh. Depois tem a música “Ponte de safena”, tem também aquele primeiro samba que ele escreveu [canta “Jaqueira da Portela”] “Quem é que não se lembra da jaqueira / Da jaqueira da Portela”. É um primor! É algo que todos tem que ter. Cheguei no estúdio e ele falou “Que bom que você veio me ajudar!”. Lá estava tocando uma vitrola, tinha um microfone. Nunca vi nada mais punk na minha vida! Ele falou para mim “Você veio me ajudar!”. Me deixou assim, deu uma sentadinha e tirou um cochilo. Ficou na minha mão. Aí, o que eu poderia fazer? “Alô, fulano? Alô, beltrano? Alô, sicrano?” Pessoas maravilhosas me ajudaram a fazer esse disco que está com o filho dele. É um primor!
Tacioli – Quem participou desse disco?
Luis Vagner – Luis Carlos de Paula (percussão), Perinho Santana (baixo), Rudy Germano (piano), participam Vange Milliet, Simone, pessoas que me ajudaram a fazer esse disco com ele. Não vou esquecer de ninguém aqui. E um menino que tocava com ele, o Luizinho. Quando cheguei no estúdio havia somente uma bateria e um violão.
Tacioli – Quando foi gravado?
Luis Vagner – Já faz alguns anos. Esse disco está pronto há uns 9, 10 anos. Zé Keti, como eu poderia me comportar de outra maneira, cara! O véio deu uma cochiladinha e passou a bola para mim. “Que orgulho, que prazer poder fazer alguma coisa junto com ele”. E aí trabalhamos e fizemos esse disco.

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Samba-rock
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