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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 20/23

O iê-iê-iê brasileiro era diferente de qualquer outro rock

Tacioli – Luis, você fala muito em identidade brasileira, da música do Brasil, mas suas bases foram tanto o rock jovem-guardista como o reggae, estilos vindos de fora. Houve algum momento em sua carreira em que esse quadro foi estampado criticamente como uma possível incoerência?
Luis Vagner – Eu penso que não, pelo seguinte: a ligação que eu tenho com a reggae music é algo inerente à minha pessoa, e na região onde vivi, convivi, cresci, esse tipo de som existe, não é igual, mas tem essa falange. Não sei se esses negros que saíram da África e foram para lá [n.e. América Central] não foram alguns que aportaram aqui também. Existe essa identificação. É importante que se diga que o iê-iê-iê brasileiro, o rock brasileiro, era diferente de qualquer outro rock. Ele era tocado diferente. O suingue tocado pela rapaziada era diferente do gringo, não era aquela cópia do timbre, de tudo. É nesse ponto que eu pergunto: o que é o moderno? Para mim, moderno é o que é eterno, não consigo interpretar essa palavra a não ser com essa visão. Moderno é o eterno. É o que vem, fica e vai embora através dos tempos. Mesmo na Jovem Guarda, que foi um bom exemplo que você deu, ele era autêntico, existia um modo de tocar que em nenhum lugar do mundo havia. Depois é que veio aquela coisa de copiar, de você fazer igual, tirar o mesmo timbre de guitarra, o mesmo tipo de melodia. É um cover das coisas com letrinhas diferentes, entendeu? Gostei muito desse último dos Titãs. Como é? A última banda… O maior sucesso de música brasileira do rock estrangeiro?
Almeida – A melhor banda de todos os tempos da última semana.
Luis Vagner – Mas tem uma parte da letra que eles falam do “melhor conjunto brasileiro de música estrangeira”, de música americana. Achei muito bonito eles falarem isso ai. Bacana! Isso aí esclarece bastante o que estou tentando dizer.
Almeida – Sobre aquela pergunta que o Flávio fez, dos rappers como cronistas…
Luis Vagner – Do dia-a-dia?
Almeida – Filtrada pelo olhar de cada um, eles estão registrando a realidade em que vivem. Você reconhece isso? Você também tem essa preocupação de registrar o seu momento?
Luis Vagner – Ah, sim. Se você conhece o meu trabalho, você percebe que ele é isso o tempo inteiro. Só que com melodia, com harmonia, com frases que conotam line bass de linha brasileira, com todo um cuidado. Vem de Jackson do Pandeiro, Caco Velho, Gordurinha. Todo um cuidado de música, de elementos e sotaques brasileiros, de frases, de guitarras com batidas brasileiras, que vêm desde a Jovem Guarda. E um cuidado de revelar essa fotografia do momento, da passagem pela vida. Acho muito importante esse movimento – o rap – ter acontecido, mas tem os que retratam a realidade como se fosse um jornal, e tem aqueles que possuem essa visão e que vislumbram uma possibilidade de melhora. Isso aí é que eu acho importante no movimento. Tenho visto muito só falar, falar, falar, morreu fulano, o governo… Tudo bem, são declarações de um tempo, mas isso tem que ser filtrado de uma maneira. Tem muita bobagem, muito palavrão, muita agressão. Se não for cuidado, isso leva a uma condição de espírito muito baixa. O que não é bom para as gerações posteriores. É aí que eu dou um alô para a gurizada. Falo mesmo, porque essa responsabilidade a gente tem que ter. Agora, uma das coisas mais importantes do movimento foi abrir caminhos diferentes dos apresentados pela mídia. Eles vieram com outra coisa dentro do Brasil. Lá fora é money, business.
Tacioli – Tem algum nome do rap que você destacaria?
Luis Vagner – O Thaíde & DJ Hum, que tive o prazer de ter em meu disco; o pessoal dos Racionais MC”s pela rigorosidade, por um aspecto muito mais rítmico, brasileiro até. Gosto também do Gabriel, o Pensador, pela irreverência carioca, porque ele apresenta sua personalidade. E tem o MV Bill. No Sul tem o Da Guedes, que é muito bom. Lá no Sul tem o programa Hip Hop Sul, muito forte também. Lá foi que eu tive a oportunidade de fazer essa declaração, de dizer o que eu penso de todo o coração ao movimento que eles estão fazendo, e para eles terem cuidado, pois a música te dá e te cobra, porque para viver dela, tem que viver com ela e pra ela. [ri]

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