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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 19/23

Não podemos vivenciar uma cultura que não é a nossa

Tacioli – Então, quais são suas inspirações atuais?
Luis Vagner – Vou contar para vocês. Eu me apaixonei por uma mulher dona de um estúdio [risos], e ela por mim. Aí teve uma briga no meio do caminho, que não tinha nada a ver com isso, nem com aquilo, e eu fiquei falando sobre as armadilhas da nossa mente. “Se na nossa mente existem armadilhas para nós mesmos, o que dirá das pessoas sem amor”. Falando sobre esse tipo de tema. No Swingante tem uma música chamada “Esse papo é com você”, que é o consciente e o subconsciente. [ri] As idéias! [ri] Termino a música falando “Bah, baby, já falei demais!” [ri] Aquelas coisas. Em uma outra chamada “Pedra que não lasca”, uma composição minha com Cacau Guamb, escrevi “Quem recebe o dom de tocar na alma do povo / Sabe que o velho existe para ser a raiz do novo”, esse tipo de papo. Vou falando sobre o momento. Por exemplo, “Galera” tem uma outra conotação, do pessoal escravo. Nessa música falo sobre isso e sobre o remar, temos que remar mesmo! Não consigo falar “Aí galera!”, nunca consegui falar isso. Olhem o meu bloqueio! Falo “meus irmãos”, “meu querido”, mas não consigo falar “e aí, galera?”, sei lá, talvez por ser descendente, devo ter algum grilo. [ri] O que acham engraçado nos meus shows é que começo a improvisar no ato, não tem jeito. Conforme o envolvimento, vou longe improvisando.
Almeida – Na letra, também?
Luis Vagner – Na letra também. É algo que me seduz, excita, começo a falar sobre a pessoa, sempre com ritmos. Sempre fiz isso.
Monteiro – Você estava falando que o seu filho é MC e vemos em São Paulo um pessoal do rap que tudo o que eles cantam tem a ver com a realidade deles. Você acha que esse lance de se manifestar, focando o momento em que você está inserido, é mais uma necessidade ou mais uma responsabilidade do artista?
Luis Vagner – Se ele tem esse grau de efervescência, de energia consciente e evoluída, ele tem uma chance de fazer com que a comunicação nesse momento se torne superior. Isso faz com que se evolua de uma condição momentânea. Acho importante toda essa coisa que vem acontecendo com os meninos do rap. Só não gosto quando eles imitam até a cara dos americanos. Aí eu me grilo um pouco. Existe uma coisa da gente, do brasileiro, temos uma cara diferente, cá pra nós, dessas descendências.
Monteiro – Todos nós somos brasileiros.
Luis Vagner – Não é isso? De repente, tem um sorriso no meio. É impossível não ter. “Não tem porque…” Peraí, temos algo que é diferente de todos os povos, que é a alegria. Isso é da nossa composição. E isso a gente não pode perder. Sempre falo isso para os meninos. Tudo bem, sei que a gente vive um momento assim, mas somos umas pessoas que temos isso, e é fundamental que tenhamos cuidado para não ficar… Ou, então, quando começamos a falar do que os outros têm. É uma comissão de inveja que não é legal! “Por que o fulano tem aquilo”. Tem porque teve boa sorte, trabalhou, estudou, sei lá. A gente é que tem que estudar, trabalhar, evoluir e fazer as coisas certas. Precisamos ter a dignidade, a convicção de sermos fortes, precisos e corretos. Enfim, não podemos misturar a vivência e atitudes de outros e ficar vivenciando uma cultura que não é a nossa.

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