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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 18/23

"Não negai'' está errado!" Pois é, nóis fumo e não encontremo ninguém

Monteiro – Luis, a música que você tocou anteriormente tem um apelo atual e tem tudo a ver com uma banda que a Universal lançou despretensiosamente, a Planta & Raiz. O disco dela está vendendo muito, não sei se você já ouviu. E a música que você cantou é a cara deles. Viraria um hit, tranqüilamente. Quem é que faria essa ponte entre a sua obra e outros artistas? A editora?
Luis Vagner – Tenho muitas coisas. Vocês conhecem o disco O som da negadinha, que tem o “Homem rasta”, “Mamãe África”, “Calypso, colapso”, “Conscientização”? Tenho discos falando sobre a responsabilidade de se fazer uma música voltada para a evolução das pessoas e com umas palavras que tenham a profundidade de tocar, de calar, de falar do ser humano, mesmo aquelas que, às vezes, parecem um pouco pesadas. Vou dar um exemplo de uma música que fiz assim, chama-se “Conscientização” [toca a introdução]. É um reggae com tango. [toca e canta] “Conscientização / Não é brincadeira / Não foi e nunca será / Não é que eu não queira / Mas como explicar / Visão verdadeira / O novo alcançará / E a mentira fraternal / da igualdade social / Povo falso é povo mal / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” [tocando] Aí eu falo sobre raízes negreiras, nação brasileira [canta] “De sangue e raça e cor / Raízes negreiras / Zumbi é líder lutador / Da longa canseira / Mas brotará a flor / E a germinação terá energia para lutar / E a consciência há de ensinar / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” / (…) / Os índios guerreiros / Extermínio cultural / Vivência selvagem / Filosofia original / E a mentira fraternal / Da igualdade social / Um povo falso é um povo mal / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente / Criança é cultura da gente / Raiz, terra, planta e semente” [finaliza com um solo de “As rosas não falam”, de Cartola] [risos]
Tacioli – Luis, você vê alguma identidade entre o seu trabalho regueiro com o de bandas como Natiruts, Cidade Negra, o pessoal do Maranhão? Você consegue ver um ponto comum, uma linha?
Luis Vagner – Olha, vou falar com toda a sinceridade: nunca toquei com essa rapaziada, nunca os vi. Só estive mais próximo do Fauzi [Beydoun], da Tribo de Jah. Penso que o meu reggae é bem mais roots mesmo, bem vivenciado, com toda a falange que simboliza esse envolvimento com o crescimento das pessoas. Gostaria muito de poder tocar o mesmo lance com essa rapaziada, só pra ver se fecha a tampa de uma vez, numa boa, mas nunca tive oportunidade de convívio. Então, são movimentos que a gente vê que rola mas não há um elo de comprometimento. Muita coisa é mistificada como a maconha, a cannabis sativa, a transação do mundo reggae, o rastafarianismo, que é religioso. Busquei esse caminho e caminhei por ele, mas não encontrei as respostas aos meus porquês, e fiquei muito preocupado quando os profetas do trabalho iam falecendo de uma maneira violenta. Porém, eu gostava muito do princípio do rastafarianismo de “I and I”, do “Eu e Eu”, como o crescimento de uma visão religiosa. E a música que eles escolheram para falar sobre isso, sobre a proteção e tal, era legal, mas penso que tenham confundido o uso do fumo. Essas coisas são complicadas. Quando se fala religiosamente, a sensibilidade é sensibilidade, mas quando o externo faz um efeito em você é outra coisa. Então, houve muito essa confusão. E quem assimilou esse trabalho no Brasil, na maioria dos casos, parece que foi mais dessa forma. Gostavam do trabalho e começaram a fazer aquilo, mas não propriamente vivendo aquilo. Começaram a utilizar o ritmo, a usar aquele novo conhecimento em seus trabalhos, porém o envolvimento com a essência disso é que me preocupa. Tem que se ter uma ligação bem maior. Nesse ponto parece-me que a reggae music no Brasil ficou um pouco perdida, apesar do pessoal gostar. Para vocês terem uma idéia, eu mesmo fui para o Rio Grande do Sul fazer um show, e fiquei com medo. Quando fui passar o som à tarde, eu convidava as pessoas que cruzava na rua para ver o show. Eu não sabia. “Vá para o show! Vou tocar hoje aqui. Sou fulano!”. Uma coisa “meu jeito de vida”. Quando cheguei à noite tinham 5 mil pessoas. Tive que cantar esse repertório, “Mamãe África”, “Homem rasta”, e o público cantava todas. O som da negadinha é um disco meu de muito sucesso. Tem o “Não negai”, música que participei do Festival dos Festivais [n.e. Festival organizado pela TV Globo em 1985].
Luiz Paulo Lima – O hip hop é que usa hoje esse disco.
Luis Vagner – Isso. O Rappin Hood usou agora… Sampleia, né? A Ultramen. Participei do Festival dos Festivais, em que a Tetê Espíndola ganhou. Eu e o Martinho da Vila fomos desclassificados na semifinal, mas nem sei qual foi o motivo pelo qual fui desclassificado. Não foi por causa da música, foi uma outra coisa que aconteceu, uma confusão no ar. Quando fui cantar a música eu sabia que não estava mais. Daí cantei uns nove, dez, onze minutos [risos]. Fiquei cantando para a rapaziada. [canta] “Fé na nossa crença / O crime não compensa”. E o cara disse “Não negai não existe, está errado!”. “Pois é, nóis fumo e não encontremo ninguém!” [risos] Pelo menos isso eu queria dizer. Depois participei de um outro festival da Record, em que fui 3º colocado com uma música chamada “Oh, raios”. Foi legal! Terceiro colocado. Daí coloquei um tipo de dialeto [imita sotaque português] “Ói o que queu já sei do meu trabalho / Com homem de valor / Não importa que daqui não saio / Meu jardim tem muita flor / Ó flor / Hoje em dia o chefe de família / Está na vida marginal / Trabalhando feito burro para poder se sustentar / E assim vai ficando muito estranho / Como pegar gato para dar banho / Oh, raios” [risos] É uma letra assim. Foi bacana, foi um momento interessante, porque fui lá tocar. O que foi legal é que fui para esse festival com o meu filho, o Flecha do Arco-Íris, que nessa época já estava com 7, 8 anos. Ele simplesmente entrou no palco enquanto eu estava tocando, dançando pra caramba. Quebrou tudo. E o Solano Ribeiro, o produtor, falou “De quem é esse guri? Quero ele no show!”. Sabe aqueles papos? “É mesmo? Nem vi, eu estava tocando.” Olhei. Era o meu filho, o Flecha. “Como é que faz?” “Você quer contratá-lo? Fale com ele. Ele já está no palco.” À noite ele arrebentou. O Flecha agora mora e estuda em Buenos Aires, está com 17, 18 anos. “Vem cá, filho, qual é o seu negócio?” “Papai, sou MC”. [risos] “MC? É uma, né? Mestre de cerimônias? Tá bom!” É a natureza do cara é aquela ali, palco, mexe em tudo, fica amigo de todo mundo. A característica dele é essa. E vou aprender com o meu filho o que é isso, já que ele diz que é MC. E é mesmo.
Monteiro – Ele vai aproveitar todos os seus discos para samplear. [risos]
Luis Vagner – Ele fala que é MC e eu vou aprender o que é isso. Desde de pequeno ele tem isso aí. Tem todo tipo de artista aí, cara. Hoje em dia está tudo assim, tem uns negócios que você nem sabe mais o que é mais. Esses dias fiquei vendo uns artistas na televisão. “Vem cá, o que ele faz?” Eu não sabia o que ninguém fazia. Ninguém fazia. Não entendi aquilo. Um programa em que vi muita mulher bonita e todas eram artistas, mas eu não sabia o que elas faziam.
Tacioli – A Casa dos Artistas. [risos]
Luis Vagner – Mas não tem umas coisas assim acontecendo. “Tá difícil de segurar!” Só futrico, só futrico. Tá cheio desses programas. E os caras que falam no ponto, agora, não tem isso? Como é que chama isso? Telepronto?
Sampaio – Telepronter?
Luis Vagner – Não é isso, a onda? [faz voz pausada e grossa] “Ricardo está sentando no chão”. É um momento que eu nunca vi. E agora, o que vai acontecer? [altera a voz novamente] “Atenção, atenção! [pausa] Espera um pouquinho!” [risos] É o negócio do IBOPE. O sujeito está fazendo o programa e, de repente, fica com a cara meio feia. “Caiu no IBOPE!”. Esse aí caiu! [risos] Que barbaridade, tchê! São essas coisas que dão vontade de compor uma música falando sobre isso.

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