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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 17/23

O Bob Marley falava em "roots rock reggae". Eu falo em "samba-rock reggae"

Tacioli – Luis, como pintou o reggae em sua carreira?
Luis Vagner – O reggae surgiu quando eu era dos Brasas, dos Jetsons. Pintou na minha vida pela primeira vez quando ouvi “My boy lollipop”, em uma versão gravada no Brasil pela Wanderléa, vocês lembram? [n.e. Música de M. Levy e J. Roberts, gravada pela Ternurinha como “Meu bem lollipop” em Quero você, CBS, 1964] Foi a primeira vez que ouvi uma música do Caribe. Eu gostava muito das coisas que vinham daquele lado. Já curtia o Harry Belafonte, calipso [vocaliza] “ô, day-o, day-o”. Sempre gostei do canto gutural [canta novamente a famosa introdução de “The banana boat song”, sucesso de Belafonte no final dos anos 50], tipo aboio. E mesmo com os Beatles, com o-bla-dis, o-bla-das, que eram influências da Jamaica, da colônia. Quando vi o Marley, o Peter Tosh e toda aquela rapaziada senti que tinha uma ligação com que os “negos véio” faziam lá com aquilo, só que o reggae permitia falar mais sobre as coisas. Por exemplo, fazer um balanço Brasil-samba-rock. Mas aí o público começou a se distanciar, porque a capacidade das letras já não era forte, falar mais socialmente das coisas contundentes, de tudo o que se vive, com uma visão sua em relação à sua própria terra. Mesmo em meus discos de samba-rock havia músicas que falavam dessas coisas, sempre com letras sociais, como “Corcoveia” e “Fusão das raças”. Mas no samba-rock o pessoal não aceitava muito esse tipo de letra. Enfim, o reggae me proporcionou escrever mais coisas diferentes. Esse é um lado da filosofia da reggae music. A fusão do som roots, da raízes. O Bob Marley falava em “roots rock reggae”. Eu falo em “samba-rock reggae”. [ri] Faço essa ligação com as raízes da gente, e o samba está incluso. Então, o samba, o rock e o reggae são coisas que eu sempre fiz.
Tacioli – Você comentou que o público do samba-rock não digeria a temática social e que seu contato com o reggae foi na época dos Brasas, em meados dos 60. Você chegou a flertar com a música de protesto?
Luis Vagner – Gravei uma música chamada “Patrulhas”, com o Julinho Trindade. [toca a introdução] Deixe-me ver se eu lembro. [canta] “São essas patrulhas / Que fincam agulhas / Espalham medo / Que andam em bando e vivem matando / Sem nenhum segredo…”. Não vou lembrar dessa letra agora. Perdoem-me. “Sem tais inimigos que plantam semente de dor e maldade / Covardes sem luta / São filhos daquela maldita colméia / Que mata os homem, mas não as idéias”, ou alguma coisa assim. “Patrulhas” gravei no final dos anos 70. Não aconteceu nada. Fiz um programa de televisão da Lilian Gonçalves. Não sei como é que pude fazer. “Alô, minha amiga Lilian, você é demais, hein?!” [risos] E da gravadora, que era a RCA, nunca mais falei com ninguém. Foi um compacto que lancei.
Luiz Paulo Lima – A música é bem interessante.
Luis Vagner – A letra é minha e do Julinho Trindade, baterista.

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