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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 16/23

Em "Guitarreiro" eu roquei mais o samba

Luiz Paulo Lima – Posso fazer uma pergunta? Tenho observado uma coisa interessante: você compõe pra cacete e até brinca ao dizer do hotel em que você mora, “Hotel Marechal Deodoro, cela 301”. Sei um pouco das histórias, mas boa parte de sua inspiração tem muito a ver com mulheres, né?
Luis Vagner – Muito com mulheres.
Luiz Paulo Lima – E tem histórias interessantes e engraçadas, como uma do Chacrinha. Fale um pouco dessas composições.
Luis Vagner – É, a “Índia Poti”, a Glória Maria Aguiar [n.e. Foi uma das chacretes do programa Buzina do Chacrinha], nos apaixonamos uma época no Rio de Janeiro, e eu escrevi uma música para ela chamada “Como?”. É uma música que vendeu quase 5 milhões de exemplares, a salvação da lavoura [risos]. Vocês conhecem? Gravada pelo Paulo Diniz [n.e. Homônimo, Odeon, 1974], pelo Netinho [n.e. Registrada em Nada vai nos separar, Polygram, 1995]. [toca e canta] “Como vou deixar você? / Se eu te amo / Sei que minha vida anda errada / Que eu já dei mil furos, mil mancadas / Talvez esteja andando em linhas tortas / Mas por enquanto eu vou te amando / E é o que me importa / Mas você também não é rota principal / E toda estrada tem final / Que eu quero saber é: / Como vou deixar você? / Se eu te amo”. Essa música vendeu muito, gravada também pelo Sócrates, Franco, Nila Branco, Norton Nascimento. [toca e canta] “Espelho meu / espelho meu / Diga se no mundo / Existe alguém mais louco do que eu / Espelho meu / espelho meu / Diga se no mundo / Existe alguém mais louco do que eu / Mas que culpa tenho eu de ser assim tão desligado / se os problemas do meu tempo me deixaram pirado / se eu ando distraído devo estar perdido / Dentro dos meus sonhos procurando paz / Cuidado rapaz! / Salvem os loucos / Salvem os loucos / Nova dimensão para quem viu razão para ser normal”. Essa foi gravada pelo Silvio Brito e composta com o Tom Gomes. E teve essa outra. [toca e canta um trecho de “Camisa 10”] “Desculpe, seu Zagallo…”
Luiz Paulo Lima – Fugiu do assunto! [risos]
Luis Vagner – É?! Estou cantando para vocês verem por onde as composições vão, né? Uma loucura! Vai para o esporte… Agora, sobre o relacionamento com a mulher é muito importante de se escrever. E cada um tem um jeito de pensar e escrever a respeito desse assunto. Sempre gostei de escrever o que vivi, com todos os lances que vivi, com todas as mulheres que foram maravilhosas para mim, que me deram vida, que me deram vidas, que me deram filhos. Sempre me apaixonei profundamente e sempre escrevi sobre isso. E em meus discos também está a busca do homem pelas suas raízes, em que o espiritual se faz necessário para que haja uma visão de evolução nas pessoas. Fugi do assunto? Voltei ao assunto? Como é que estou no assunto? [risos] Sobre o “Guitarreiro” [toca e canta] “Naquele tempo que eu gostava dos Beatles / e dos negos véio eu gostava muito mais / sempre que eu podia ir ao campinho jogar o meu futebolzinho / aquelas coisas de rapaz / agora a turma grita, pesquisa e o mundo está em crise / Olhe o Prêmio Nobel / Sou guitarreiro brasileiro”. E vou contando a história do “Guitarreiro”. [ri] Essa eu fiz no dia do meu aniversário, 1974. Estava em um dia solitário e daí entrei em uma viagem pelo tempo, “O que sou na realidade?”, falando da admiração que eu tinha por esses caras. Enfim, juntando essa coisa do internacional com o caseiro, que é a definição do Guitarreiro. Foi um disco muito interessante que eu fiz [n.e. Homônimo, Copacabana, 1976]. Tem uma ligação de guitarras, mas é um disco em que o samba-rock é tocado de uma maneira guitarreira, na trilha guitarreira. Podia ser um rock, surdo, mas “roquei” mais o samba, acho que é isso. [ri] “Sambaram mais o rock”, mas eu “roquei mais o samba”. Então, as batidas das guitarras são bastante pessoais. Esse disco é um marco, porque ilustra bem a história do samba-rock. Falo do bairro Partenon [n.e. “Lá no Partenon”]. Esse disco foi muito legal! O primeiro que fiz foi o Luis Vagner Lopes – Simples, em que gravei grandes amigos, como o Chiquinho de Moraes. Depois fiz esse com “Guitarreiro”, seguido do Fusão das raças, do Pelo amor do povo novo, Som da negadinha, e Conscientização. Na Europa gravei o Cilada, e quando voltei fiz o Vai dizer que não me viu… [risos]. E agora lancei o Brasil afro sulrealista.
Sampaio – Vai dizer que não me viu… é de 95?
Luis Vagner – 94.
Sampaio – E de 94 para esses seus últimos discos, você…
Luis Vagner – Nesse tempo todo eu fiz um show no sul, fui encontrar com um batera e com uma rapaziada de outra geração que gostava do meu trabalho, que tinha um convívio com o meu pensar graças aos discos anteriores. E quis fazer o Brasil afro sulrealista. Nesse grupo tem o Luiz Américo Rodrigues, baterista de Santana do Livramento, o Ricky Vieira de Carvalho, de Porto Alegre, o Marcelo Salgueiro, guitarrista. Esses dois primeiros que eu falei são uma dupla de baixo e batera. Aí participou o Marco Aurélio Dias Farias, um arranjador formidável, que trabalhou no Swingante como arranjador de metais. O De Santana, percussionista. Ainda trabalhou o Paulinho Calazans, grande músico, filho de Jundiaí. Amigos fortificando o trabalho da gente, desse Brasil afro-sulrealista.
Luiz Paulo Lima – Você alugou uma casa… Luis Vagner – Aluguei uma casa em Atibaia e ficamos morando lá desde 94, 95. Fiz esse disco uma vez, mas não foi aceito. Fiz uma outra vez, e não foi aceito. Só na terceira vez a Paradoxx aceitou lançar o disco.
Monteiro – O que eles alegavam?
Tacioli – É, o que mudou da primeira para a terceira vez?
Luis Vagner – Só o tempo. [risos]
Tacioli – Só o tempo?
Luis Vagner – Só o tempo de espera! [risos] Você nunca sabe, mesmo. Daí pintou esse momento do samba-rock, e mesmo assim eu tinha a necessidade de lançar esse Brasil afro sulrealista, que é algo em que acredito, que é algo que em nossa cultura brasileira nunca foi exposto. Eu me senti na responsabilidade de assumir esse trabalho e de fazê-lo. Do sul do Brasil nunca verteu esse lado, do negro do Sul, como é o caso do Bedeu, do Caco Velho [n.e. Pseudônimo do cantor, compositor e instrumentista gaúcho Mateus Nunes, 1909-1971], que o pessoal não chegou a conhecer, porque morreu, foi embora muito cedo. Eu me preocupei em realizar esse trabalho, tinha essa necessidade, porque era um débito de gratidão. Mas a dificuldade existiu porque os caras achavam que a palavra “afro” chocava. Para mim, você nunca ter ouvido falar dos negros do Sul é um ponto falho na discografia, no mundo artístico brasileiro.
Tacioli – De negro do sul vem a imagem do Lupicínio.
Luis Vagner – E ficou por aí, né?
Sampaio – É, existe uma lacuna bem grande.
Luis Vagner – O Brasil tem que ligar que existem mensagens profundas sobre uma visão diferente, sobre um viver diferente, e que é muito importante para todo mundo.
Tacioli – Você havia falado do Carnaval do Sul, das tribos.
Luis Vagner – Isso, dos bororós, dos xavantes, de batidas completamente diferentes das de blocos. Em alguns momentos dos meus discos você consegue ouvir algumas coisas que têm esse tipo de pressão, que vem, mais ou menos, de uma chula, de um sambado diferente. Como tive a felicidade de conviver, de ser um desses, de ter recebido esse aprendizado, eu tinha uma vontade infinda de poder colocar esse trabalho no ar. E mostrar para a gurizada da minha terra, para as novas gerações, que existe essa força na nossa entidade humana que precisa ser bastante valorizada. E que não podemos ficar sendo dependentes de uma visão de mídia, de informações colocadas para dentro. Como é, “perda de valor”?
Sampaio – “Perca de valor”.
Luis Vagner – Somos tão envolvidos por essas coisas de fora que esquecemos de nossa essência. Sempre defendi esse ponto como algo que pode ser dialogado, debatido pela rapaziada. “Tenho que fazer, vou fazer. Tenho que fazer, vou fazer. Fui lá e mostrei”, “Não, não quero!”. “Não quer? Vou fazer! Não quer?”. Demorou para conseguir, mas consegui. Agora estamos fazendo esse trabalho, lutando e levando para as pessoas. Quanto mais pessoas puderem ouvir sobre isso, melhor. Se não vender um milhão!

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