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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 13/23

Fui para a França com 50 dólares e 20 francos

Tacioli – Luis, você vê a classe artística esvaziada politicamente? Pensando na musical, ela me parece tão fragmentada. Enquanto você vê alguns que estão vendendo aparecerem na TV contra a pirataria, outros que não estão na vez dessas mesmas gravadoras saúdam a pirataria como forma de não caírem no esquecimento. Você não acha que existe uma falta de consciência política da classe artística hoje em dia?
Luis Vagner – Sim. Porque aí vem o papo que eu vislumbro que é uma visão da ideologia, uma ideologia humana, uma coisa que faça com que as pessoas se unam, compreendam que exista uma mesmo lado, que os dois lados são o mesmo, tanto da vida, quanto da morte. Porque em vida você é isso, mas morto você poderá ser isso ou muito mais. Tem umas coisas assim na vida, né? Falo isso, logicamente pensando em Beethoven, Mozart, Lizt, de homens que deixaram grandes obras. De um Tom Jobim, Ary Barroso. Então, politicamente o pessoal deveria compreender que todos vivem, no caso do artista, da música. Todos. E que, se eles conseguirem elaborar uma estrutura forte entre si, isso será um dom, uma dádiva protegida. É assim que eu enxergo, entendeste? O que eu quero dizer com isso: se a gravadora não visse somente aquele negócio de vender um milhão e dar apenas oito por cento para o cantor… Os diretores de gravadoras são quem determina o sucesso e faze com que exista esse caminho. É algo que vai muito mais além. Quando cobram 30 paus, 25 paus, os piratas têm que existir; são pontos criados por eles mesmos. Politicamente, penso que se todos englobassem uma visão de respeito à música, profundamente, esses problemas não existiriam.
Almeida – Pelo menos poderia haver um poder de negociação bem maior.
Luis Vagner – Bem superior, em todos os aspectos, né? E em todas as outras coisas. É um grande problema desse sistema. A gente vive isso. Você pode ver, a maioria das gravadoras está toda perdida! Qual é o novo passo agora? Qual é a música que vem? É a sertaneja? É o samba-rock? É o axé? O cara que é o diretor desse tipo de companhia já está aqui, ó, porque se não apresentar o resultado logo, pim! É aí que pinta um Reginaldo Rossi, que é sucesso popular, do povão. Pinta um! Não é que pinta, vaza um! Tortamente, mas vaza!
Tacioli – Mas é engraçado que vários presidentes de gravadoras foram músicos e seus contemporâneos.
Luis Vagner – Sim! E com quem acho que trabalhei! [risos] É, mas cai ali. Cai bem ali! E vive em uma companhia. Depois ele cai daquela, vai para a outra, depois cai daquela, vai para outra, porque está dentro desse sistema. Mas existe uma hora em que eles têm que procurar alguns artistas que estão distantes porque os resultados não estão acontecendo. Então, é aí que vaza um. E aparece um, que vai lá e também fala tudo que tem direito. Uma Elis Regina, por exemplo. Um Tim Maia, bem gordão, negão, louco, maconheiro, o diabo a quatro, mas um artista, um cantor que o povo ama. E não só aquele momento, mas o tempo todo da vida. Ele é uma atitude real e se comporta, às vezes, sem o devido preparo, porque durante muito tempo foi barrado, pisoteado, torna-se alguém revoltado, confunde momentos, mas a essência do que eu quero dizer é isso. Às vezes vaza um. “Agora, o cara só pode ser bonitinho, dos olhinhos cor de …”, mas aí pinta um Tim Maia e vaza. É gordo, preto, feio, é outro lance, mas quando abre a boca, canta. Esse é o ponto. E os diretores de gravadoras… um desrespeito à pessoa, ao ser humano, às entidades que eles ocupam. E, às vezes, esse poder é efêmero, frágil, o cara consegue chegar nessa condição, mas se ele não consegue acertar, “Boa noite, amor!”. [Prende o nariz com a mão e diz] “Quanto vendeu fulano? Não vendeu? Never!” [risos] “Próximo! Mais um! Quem está entrando agora no mercado?” [risos] Mas, normalmente, a rapaziada tem ficado rica antes! [ri] Os caras trabalham, mas quando você fala de arte, aí é “barra na tijuca”. Barra na Tijuca, né! As gravadoras estão todas lá! [risos] Mas essa brincadeira não é uma brincadeira, é uma verdade, é um ponto muito interessante porque a gente que fica andando pra lá e pra cá, vê gente talentosa de tudo quanto é jeito, mas não há gravadora que absorva esse monte de artista. É difícil! Não sou um negociante, sempre fui um artista. Gostaria de estar dentro, mas gostaria de ver uma gravadora que realmente tivesse uma frente de músicos, talvez, malditos ou marginais, não sei que nome se dá a isso, que existe de montão, e de jovens, porque também existem jovem à margem de montão, né? E que fosse permitido a esse pessoal trabalhar. Aí, vem o sistema de rádio, que muita gente já sabe qual é. É marketing o nome dado. É grana. E isso é assustador.
Almeida – Pelo que você está falando, você sempre teve muito trânsito entre universos distintos de músicos, né?
Luis Vagner – Sim.
Almeida – Mas me parece que você nunca teve a sua turma.
Luis Vagner – Não.
Almeida – Você já pensou em ir embora do Brasil?
Luis Vagner – Quando o meu compadre Branca Di Neve faleceu em 89, fui embora. Fui para a França com 50 dólares e 20 francos.
Almeida – Para não voltar?
Luis Vagner – Foi. Peguei meu oratório, Gohonzon, porque sou um praticante budista há 14 anos, peguei minhas guitarras, meus cadernos de música e fui embora para a França. Em 45 dias consegui estrear no Festival de Jazz de Viena com sete músicos brasileiros, que eu levei daqui. No mesmo festival estavam B. B. King, Albert King, todos os kings da guitarra; e também Al Di Meola, Paco de Lucia, Herbie Hancock. E quando vejo na sexta-feira, “Luis Vagner e os Amigos Leais”. Era eu! “Ai, que bom!” [risos] Mas aqui eu me sentia bloqueado. Você quer gravar, mas o cara não quer gravar com você. “Mas não é possível!”, mas é possível, ele é o diretor.
Sampaio – A morte do Branca teve a ver?
Luis Vagner – Teve, teve. O Branca estava gravando uma música minha chamada “Oi”, e o Wando, uma chamada “Anjo”.
Almeida – Você não tocaria? Mas pode terminar de contar a história.
Luis Vagner – Deixe-me ver se consigo, ele gravou diferente. [toca a introdução] Nem afinei o violão para tocar para vocês. Isso é uma falta de respeito. [afina o violão, toca novamente a introdução e canta] “Vou vivendo essa beleza / De tocar o seu coração / Mesmo estranho e lindo o toque / Como varinha de condão / Eu sou feliz / tenho o seu amor / Sou feliz / tô em paz / vou musicando todos os momentos / e achando lindo / limpo / vou creditando em cada um seu amor à lira / e quem delira / delira / oi / oi, mano / oi / eu sinto forte a esperança / de acreditar no amor / alguns dizem que eu sou louco / mas eu sou seu cantor / e para penetrar em seus sonhos lindos / [cai o microfone da lapela] / pra penetrar nos teus sonhos lindos / vou embelezar a minha voz / com chá e mel / coisas caseiras / amado o céu / oi / oi / oi”.
Monteiro – Extremamente pop.
Sampaio – Lembrei agora da gravação do Branca.
Luis Vagner – Você lembrou da gravação do compadre? Então, ele gravou essa música e falou [imita a voz rouca do Branca] “Compadre, compadre, vai viajar? Compadre, compadre, vai embora?” Falo isso porque ele foi a minha casa ver o meu oratório, o saudou e faleceu naquele dia à noite. Para mim tem uma ligação totalmente profunda.
Monteiro – O que aconteceu exatamente com ele?
Luis Vagner – Deu um aneurisma. Ele estava gravando o disco em que saiu essa música. Morreu no dia 12 de maio de 89. Faz 13 anos. Meu querido amigo Nelson Fernandes Moraes, o Nelsinho. Aquilo me entristeceu. Ele era o símbolo do que eu estava falando para vocês, quando eu tinha 18 anos, meu amiguinho. O Jorge Ben e o Bebeto iam ali, o Branca Di Neve ia trabalhar comigo nos Brasas, carregar os instrumentos. Eu achava a voz dele bonita. “Você vai ser sucesso! Sua voz é linda! Você me lembra o Louis Armstrong! Eu boto fé no seu taco!” [imita novamente] “É mesmo, compadre?” Ele não tinha o dentinho. “É mesmo, compadre!”. Entendeu? Quando ele pá, faleceu, me deu um negócio, “Acho que vou ter que de dar um giro”, e sobre a música ele tinha dito, “Deixa comigo!”. Como Wando tinha gravado uma música minha chamada “Anjo”, peguei um dinheirinho, deixei tudo certinho com as comadres e me mandei. Eu queria gravar, mas não me deixavam. Como só tem três, quatro, oito ou dez diretores que mandam em tudo, vou ter dar um giro fora do Brasil para que eu consiga interpretar melhor a vida do meu país, para ver onde é que está o defeito, ou se está em mim mesmo. Mas se em 45 dias eu já estreei no meio desses caras todos, “Acho que não estou tão mal assim!” Aí fiz um disco lá, independente, Cilada, que falava da Amazônia. Gravei em um estúdio chamado John Lennon, em Aubervilliers, gostei, né, cara! “Eu, no estúdio John Lennon? Dá licença, né!” Aí foi maravilhoso, passei dois anos e meio, com uma vida digna, com banda, mas depois pinta aquela coisa, “Brasil, Brasil”. Também tive problema com editor. Consegui falar com o diretor-presidente da Pier Music, a maior editora mundial, em uma ilha. Peguei o cara! Estava eu e um amigo, o Maurinho. “Diz pra ele que estou na França e que as minhas obras pertencem à editora dele”. E o cara falou: “Peça para o editor do Brasil, Manuel Pinto, trazer o seu repertório para cá, pois haverá uma convenção mundial e aí a gente vê o que se pode fazer”. Corremos a falar com o Manuel Pinto. “Quem sabe vou ter um apoio de não-sei-quantos mil dólares”. E o Manuel Pinto levou o material para a Europa? Meu editor no Brasil, produtor, gente finíssima, mas profissionalmente, ele não teve responsabilidade nesse momento. O Luiz Paulo [Lima] está tendo a oportunidade de caminhar dentro da gravadora, e ele está vendo como é que é. Se a gente não realiza eu não sei como é que faz, a não ser que você seja daquela turminha, daqueles escolhidos para ser o artista cuidado. Essa é a verdade de um artista com carreira no Brasil.

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