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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 12/23

Eu queria ser Presidente da República!

Sampaio – Você não parou de compor em nenhum desses momentos?
Luis Vagner – Jamais.
Sampaio – Mas as suas primeiras composições foram gravadas por outros?
Luis Vagner – Sempre fui gravado por outros, até agora. Componho muito, sempre compus os temas. De vez em quando faço as melodias, as letras, mas sempre compondo. Cheguei a gravar cem músicas na Jovem Guarda em parcerias com Tom Gomes, que era muito dinâmico, trabalhador. Eu era um pouco mais devagar.
Almeida – Gravar cem músicas em um ano dava grana, dava para comprar casa, esse tipo de coisa?
Luis Vagner – Não, não, não. Não dava para comprar casa, não! Mas conseguia segurar a família. É o que me salva até hoje.
Luiz Paulo Lima – Uma grande família!
Luis Vagner – Uma boa, uma grande família! Uns 12, 13, vamos lá. Mulheres, filhos. A música sempre me proporcionou viver dignamente, com um esforço que requer qualquer trabalhador.
Monteiro – Isso piorou ou melhorou nos últimos anos?
Luis Vagner – Eu penso que…
Monteiro – Essa coisa do direito.
Luis Vagner – Ah! Melhorou por um aspecto. O sistema que formata as coisas do direito possibilita a quem tem uma oportunidade de sucesso hoje ganhar mais dinheiro agora do que antes. Antigamente era mais igualitário. Agora não, é aquele que está tocando no momento. Coca-cola: neguinho abre, toma, bebe [assovia], e pede outra. “Agora, light!” “Agora, hard!” Mas vai tudo indo, cara! Então, ficou assim o direito, ficou esquisito. Fui me filiar na França para ver os meus direitos no exterior, algumas coisas minhas, entendeu? É um disparate, não tem como você conseguir compreender como funciona o direito no Brasil. É algo que o governo brasileiro tem que prestar atenção. Os Beatles simbolizaram quase 80% da renda do país deles. O cinema francês chegou a representar 40% numa época. Mas no Brasil é traço. Por favor, não combina com a razão. É preciso muito mais seriedade dos homens do governo e do não-governo, para que a gente possa ter um momento de reconhecer se tem capacidade de fazer com que uma classe que mexe com muito dinheiro tenha um respaldo mais digno. Tem uns compositores que você sabe que tem valor, que forneceram trabalho ao país e que não são tratados realmente com a dignidade necessária.
Cirino – Enquanto você falava eu estava me lembrando da relação do músico-compositor com a classe profissional. Como você vê a atuação do sindicato, da Ordem dos Músicos, do ECAD, que teoricamente estariam aí para fazer determinados serviços, mas não se sabe exatamente o que acontece?
Luis Vagner – Existe uma vontade de um esforço, mas fica só na vontade. O esforço é pequenino. Você vê coisas absurdas acontecerem, de dinheiro que fica preso, de dinheiro que não acha, sabe, parece aquele dinheiro da candidata à Presidente que ninguém sabia. “Não sei o que é isso! Um milhão? Caiu aqui?!” [risos] Tem umas coisas assim. É um absurdo, é algo que não combina com a razão. Se a gente conseguisse uma união maior… É triste você ver muitos compositores que são dignos de respeito em estado lamentável de vida. Respeito não existe!
Monteiro – Mas isso também acontece com o futebol. Você fala em união, mas 1% dos jogadores ganham muito dinheiro, o restante não ganha porra nenhuma e os antigos não são respeitados. Quem está nesse 1% não está preocupado.
Luis Vagner – Aí vem o lado do egoísmo humano, mesmo! É uma luta muito grande até conseguirmos um número de homens capazes, mas isso é possível, eu tenho certeza disso. Um, dois, três, dez, cem, mil. Estamos vendo em nosso país que existe dificuldade em tudo, a classe dos professores, enfim, em todas as classes. Há algo que precisa ser visto com maior profundidade. Os jovens são uma grande força para isso, mas jovens realmente ligados nessas coisas. Esses, sim, têm uma possibilidade de ajudar, de transformar essa realidade. Nós precisamos! Somos um país maravilhoso.
Luiz Paulo Lima – Vai se candidatar!
Luis Vagner – Aliás, eu queria ser Presidente da República! [risos] Vamos ver, cinco ponto quatro, se vacilar… [risos] Os caras vão dizer que eu sou um “-rista” desses aí, comunista, crentista, guitarrista [risos]. Sou guitarreiro, hein, rapaziada!
Tacioli – Apesar de tudo, você é um otimista.
Luis Vagner – Total, sou brasileiro. E além de tudo, sou budista. Sou um otimista porque acredito na gente. Eu me acho lutando com toda a força, entendeu? O meu tempo é agora! E tudo o que pensei lá trás continua do mesmo jeito. Vejo vocês, a união, os jovens, eu sinto isso assim! Não dá para se abalar por um processo negativo, não! A realidade é que temos que ter muita força para realizar o que tem que ser feito. E nós temos que fazer, de qualquer maneira. Essa união é difícil, porque uns já chegaram e não vão se incomodar com isso, mas estão errados. Tem que se chegar bem perto da rapaziada do sofrimento, com menos grana, e ensinar a possibilidade de evolução, porque é só assim que se aprende. Então, vai onde se tem que buscar o que falta, né, véio? Só assim. Acredito muito nisso. Por exemplo, vocês, jovens, fazendo uma entrevista comigo. Fico muito lisonjeado e orgulhoso, e ao mesmo tempo, digo “Vou dizer tudo o que eu posso do fundo do meu coração porque é isso o que realmente precisa”. Em todo esse tempo fui um cara muito feliz na minha caminhada, porque sempre saí tocando, sempre liguei a minha guitarra e toquei, tive público. E quando tinha pouco, eu tocava do mesmo jeito. E fazendo amigos, coletando coisas. Acredito que se eu puder vazar, uma revolução se dará. É isso que eu acredito, no meu país!

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