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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 11/23

O presidente da RCA entrou e mudou tudo. Peguei o meu boné e fui embora

Almeida – Luis, dessa época em que você ficou esperando no aeroporto para agora, o que você viu acontecer no mercado fonográfico?
Luis Vagner – Olha, muitas coisas musicais bonitas…
Almeida – Mas como o mercado passou a interferir na produção…
Luis Vagner – O mercado está gastando muito. Hoje se gasta demais! [ri] Sabe o que eu quero dizer com isso? Hoje em dia inventam-se artistas. Algo que vai conduzir, cada vez mais, a uma liderança perdida de estrutura cultural, de uma formação de povo, porque aqueles que vem do povo, que são pessoas com trabalhos sinceros, têm uma dificuldade muito grande em realizar. A autenticidade não é respeitada. Não é respeitada uma série de coisas. Talento todo mundo tem, mas quando querem direcionar, como está acontecendo com o Brasil, “É isso” “É só isso”, “É aquilo”, “É só aquilo”, outras pessoas ficam à margem. E essa distância do povo é responsabilidade desse pessoal. Vejo em vocês, jovens jornalistas, um outro momento. Temos a possibilidade de conversar sobre coisas da experiência humana vivida por um artista, um artista que sempre caminhou nessa vontade de fazer com que se evolua em todos os sentidos. Fui produzir, dirigir discos dentro de gravadoras e não consegui passar mais de um ano e pouco. Produzi Rosinha de Valença, os Namorados do Caribe, os Diagonais, e para todo mundo eu sempre quis dar força. Quem entrasse no estúdio para gravar o que fosse, eu queria participar, dar a minha idéia, somar com outras pessoas. Depois ficou esse negócio de diretor, de produtor, e aí fica tudo em um grupinho aqui, um grupinho ali, um artista vai ter um investimento de tanto, o outro de tanto e o outro não vai ter nada. Automaticamente, aqueles que tem o poder ou que são amigos daquela turma vão por ali, o resto a gente não sabe. Isso me assombra, ao mesmo tempo em que você fala “Por favor, estou fora! Vou ligar minha guitarra na quebrada!” Esse é um ponto que para mim obstrui a oportunidade da nossa evolução. É só isso que eu posso dizer para vocês.
Monteiro – Durante sua carreira de produtor houve algum disco que você fez em que “Tenho que fazer isso porque aquele filho-da-mãe está me pedindo”? Ou os que você produziu conseguiram sair ilesos?
Luis Vagner – Ah, não, não… Teve um que fiz, da Orquestra Namorados do Caribe, de um maestro carioca, pai do Ivan Paulo, em que chegou um homem que era o presidente da RCA na época, entrou no estúdio e mudou tudo. Peguei o meu boné e fui embora. É um desrespeito total! Ele era presidente, mas quem estava produzindo era eu. Nesse momento, nesse disco, abandonei a carreira. Mas fiz discos que gostei de ter feito, como dos Diagonais, que era o grupo do Cassiano, que tinha saído; da Rosinha de Valença tocando com Wilson das Neves, com Luizão Maia, com o maestro Severino Araújo Filho, filho daquele que eu ouvia com oito anos. Então, tudo isso para mim era motivo de orgulho, motivo de evolução. Eu me sentia honrado de ser um menino e estar ali dirigindo, ou seja, contribuindo com os meus pensamentos mais úteis. Gostei de ter feito também a Rosemary com uma música do Taiguara. São pessoas que produzi. Nessa época, como compositor, comecei a estourar com Luiz Américo (“Camisa 10”), com Silvio Brito (“Espelho mágico), com a Cláudia, com a Eliana Pittman (“Vou pular neste carnaval”). Gravei também com Evinha, Golden Boys. Foi um momento em que eu tinha uma bagagem como compositor. Automaticamente, eu estava dentro do esquema, estava dentro da produção que começou a criar esse mistério, “Vamos fazer assim”, “Vamos fazer isso”, “Vamos fazer aquilo” e “Isso aqui eu não vou fazer! Vou sair daqui.” [ri] “Vou sair daqui porque já estou ficando assombrado antes do tempo!”

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