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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 10/23

Os pais do samba-rock? Prefiro deixar para os bisavós

Monteiro – Tentando fazer um exercício de futurologia, se esse disco que o produtor perdeu tivesse saído, esse não poderia ter sido o disco – você comentou que ele estava bem pensado – que iria levar a sua carreira para um outro lado?
Luis Vagner – Naquele momento a gente ia trazer uma fusão do samba-rock, e logo depois eu dei continuidade a essa linha de trabalho, que o Franco pegou como caminho, e que fez algum sucesso. Se tivéssemos dado um paulada com os Brasas, a gente… não sei o que aconteceria, mas eu penso que logo a gente diria “Vou ter que trilhar pra cá, você vai para lá”, porque tínhamos visões diferentes da vida. Era isso.
Monteiro – E o samba-rock, como é que se chegou a essa fusão?
Luis Vagner – Desde a primeira vez que eu toquei…
Monteiro – Quem é o pai da criança? [risos]
Luis Vagner – O pai da criança! Eu prefiro deixar para os avós! [risos] Bisavós. Entregar ao Jackson do Pandeiro, Bola Sete. A verdade é o seguinte: o samba-rock é um nome dado pelas pessoas da periferia de São Paulo, que vem da música “Samba-rock, meu irmão”, do Gordurinha, e que o Jackson do Pandeiro gravou. Essa é a real. Agora, o tipo de ritmo que pegou foram as batidas do Jorge Ben, do sambalanço, do Luis Vagner, do Rio Grande do Sul, que são batidas e sotaques diferentes. Eu tocava guitarra, o Jorge tocava mais violão, e esse trabalho da gente vem desde lá. Como começamos a fazer esse disco, o Tim Maia gravou [canta] “Gostava tanto de você”, que tem um balanço samba-rock, que é de um pianista gaúcho, o Cidinho, esse que eu mostrei para vocês, que toca nos Estados Unidos. Ele também tem essa expressão do samba fundido. Então, esses dois pontos foram muito bem assimilados pelo pessoal de São Paulo.
Luiz Paulo Lima – Que dançava.
Luis Vagner – O pessoal da dança, 70. Na seqüência já pintou o Bebeto, que depois estourou no Rio de Janeiro, Trio Mocotó. Antes tinha o Lafayatte fazendo uns balanços diferentes, havia um que fazia samba-jazz, o Meirelles, Copa 7. Também o Orlandivo, que fazia um outro tipo de trabalho. Era um Brasil pop, entendeu? Posso estar esquecendo de alguém… O Erasmo também trilhou muito por esse caminho. O Miguel de Deus. Também tinha um pessoal que misturava com a soul music. Já em 70 fui conviver com o Tim, Cassiano, Hyldon, com a rapaziada que fazia essa coisa à Motown americana, com influência dali.
Monteiro – Então, na época não existiu um movimento do samba-rock com músicas e lançamento de discos, uma coisa fundamentada?
Luis Vagner – Não era assim.
Sampaio – Depois é que se organizou.
Luis Vagner – É, não era bem assim. Era uma falange que fazia uma MPB de um outro jeito.
Luiz Paulo Lima – E não se conheciam.
Luis Vagner – A gente se conhecia pelo convívio. Eu já convivia com Jorge, que havia tocado comigo. Tanto é que depois ele fez a música “Luis Vagner Guitarreiro” em minha homenagem. Bebeto, Luis Carlos de Paula, Marquinho, Branca di Neve, Marku [Ribas], que eu conhecia desde 66 também. Então, são pessoas com as quais sempre convivi. Tínhamos uma afinidade, ou seja, o modo como absorvíamos a música internacional, planetária, mundial, e como expressávamos suas raízes dentro daquilo.
Luiz Paulo Lima – Em Porto Alegre se chamava suingue.
Luis Vagner – Aí é que está: no Rio de Janeiro chamava-se sambalanço. Em Porto Alegre, suingue. E samba-rock em São Paulo, porque veio do pessoal dos bailes. E agora é uma grande alegria você conceber esse momento novo daquilo que você viveu lá atrás. Fiz um disco. Eu ia fazer o quê? Rock and roll? Bom, rock and roll já está incluso em meus discos. Reggae music? A reggae music está inclusa em meus discos. Todos os meus discos tem essa coisa. Digo isso porque quando toquei com os Waillers, com o Aston Barrett, que eu considero um dos grandes pioneiros da estrutura bass line da reggae music – o Carlton já tinha falecido -, ele ouviu e disse que era um reggae brasileiro. “Esse é um reggae brasileiro. Não é um reggae cópia da Jamaica, de timbres, de pegada, não! Tem uma coisa da reggae music, mas é Brasil. A gente não sabe tocar isso aí desse jeito, mas a gente sabe que é reggae. Mas tem uma outra pegada.” Sempre trabalhei a influência dessa maneira. A influência filtrada e preestabelecida. Filtrar essas influências e passar com a gama de coisas que você traz como artista. Esse é ponto. Tive uma oportunidade de gravar – não vou citar nomes – “Tá demais, tá demais, mas tem que ser mais George Michael!”. Não deu certo! Para George Michael eu tenho alguma diferença![risos] Outra vez foi um outro grande produtor, jornalista famoso, livros, “Eu quero mais still!”. Na quarta vez que ele pediu “mais still”, eu guardei a minha guitarra e falei “Chama o still!”. Não dá para ser o still, dá para ser o que você realmente é. Para essas coisas que abrangem o mercado, o cara fala “Quero mais assim ou assado”. E você responde “Meu, não dá!”. É um princípio, e o princípio está errado, mas é isso que domina o mercado. Nos meus shows, felizmente, as pessoas vão para ouvir música, para dançar, para compreender o momento em que estão vivendo, sem essa violência. Esse momento está conduzindo para um lado em que as pessoas vão se maltratando, dando porrada umas nas outras, umas coisas que não fazem sentido para ser “humano”, né? Esse é um ponto pelo qual eu sempre luto, que a gente consiga transformar, e que existam artistas que tenham essa finalidade, de fazer música para todo mundo evoluir.

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