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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 9/23

Fiz meu primeiro LP com o Ismael Corrêa, o lançador de João Gilberto

Almeida – Já foi oferecida a você uma chance para torná-lo um sucesso nacional? Luis Vagner – Dentro desse meio?
Almeida – De alguém te bancar como bancaram outros, “Isso aqui vai ser sucesso”, sei lá, talvez mais recentemente.
Luis Vagner – Não, não! Eu não vivi isso, não! Jamais. Sempre foi com muito esforço, e a ajuda dos músicos, das pessoas. Meus trabalhos sempre foram assim.
Tacioli – E você lamenta esse tipo…
Luis Vagner – Não, absolutamente!
Tacioli – Não?
Luis Vagner – Quer queiram ou não queiram. [ri]
Tacioli – Você acha que essa sua filosofia artística nasceu por não ter tido uma oportunidade de se tornar, como o Daniel falou, um sucesso nacional? Se você estivesse lá em cima você teria essa mesma filosofia?
Luis Vagner – Eu penso que sim, pelo menos eu me preparo para que seja assim, entendeste? Eu tive oportunidade de conviver desde 1966 com os grandes ídolos. Depois, com aquele coisa do rock nos anos 80 – até eu vi o Herbert Vianna falar que foram eles que trouxeram o business para o mercado do rock. Enfim, é verdade, as coisas tomaram uma proporção grandiosa. Mas isso nunca me pegou forte porque, como eu já falei para vocês, acredito no ser humano. É importante a gente ter uma grande boa sorte para passar por essa aí, cumprir a missão, fazer com que sua música seja conhecida pelas pessoas, e ter consciência de que você não vai durar para sempre, mas que neste momento em que você está passando por aqui você seja valioso como artista. O meu ponto é o seguinte: estar preparado para chegar às pessoas, dizer o que eu desejo, com a profundidade com que desejo, fazendo uma música que toque e que os amigos gostem de tocar. Honestidade. Esse é o meu ponto maior! O resto… acho que é isso mesmo.
Tacioli – Por que Os Brasas acabaram?
Luis Vagner – Eram quatro cabeças, cada uma pensando de uma maneira. O Anyres Marcos Rodrigues, o Edson da Rosa, Franco Scornavacca e Luis Vagner Lopes, cada um tinha, realmente, uma coisa. Em 69, estávamos em um momento já meio difícil para a gente, não estávamos mais entendendo aquele primeiro sucesso. Queríamos transformar isso, então, as pessoas começaram a aparecer. E quando fizemos esse trabalho, com essas músicas que o produtor perdeu a fita, algo aconteceu. “Não vai dar mais para continuar!” O Franco seguiu carreira solo, o Edson e o Anyres se tornaram músicos de estúdio, e nós acabamos o grupo em 69. Depois fui para o Rio de Janeiro, onde comecei minha carreira de produtor de discos trabalhando para a Continental e a RCA Victor. Em 70 fiz meu primeiro disco-solo com o mesmo lançador do João Gilberto e do Trio Esperança, que se chamava Ismael Corrêa, um senhor de olhos azuis claros, meio parecidos com os olhos de papai. Ele via algo do João Gilberto em mim! “Ê, deve ser maluco!” [risos] “É diferente!” Ele falava isso. “É mesmo?!” Então, graças a ele tive a oportunidade de estar junto ao Dilermando Reis, ao Cyro Monteiro, uns “nego véio” mesmo, uma falange muito forte, mas com um conteúdo humano profundo e com uma visão artística marcante. Codó, Dilermando Reis, violões mais altos. Não dava nem para pegar o violão perto dos velhinhos. “Toca aí do seu jeito!” [sonoriza] Nheco, nheco, nheco, nheco. [risos] Ao mesmo tempo que eles tiravam algum melindre, algum problema que você tinha de inibição, muito rapidamente eles faziam você não pensar nas coisas. Eu me lembro desses homens assim.

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