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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

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Camisa 10 interplanetário

O morro não é alto e nem grande, mas é familiar, quente. Cravado no outro lado do Rio Pinheiros e vizinho ao câmpus da USP, zona oeste de São Paulo, o Morro do Querosene reúne movimentos variados em sua pequena extensão. Bem no centro do morro surge imponente a Igreja Racional, aquela que fez Tim Maia suingar como nunca nos LPs Racional (1975) e Racional Vol. 2 (1976), mas o grande referencial do local é a comunidade maranhense que organiza as festas de nascimento, dramas, aventuras e morte do boi. Foi em uma de suas ruas sinuosas que encontramos o gaúcho Luis Vagner.

O guitarreiro, autor de clássicos do samba-rock como “Segura a nêga”, estava no Macan Studios, propriedade de Márcia Casanova, cantora e sua atual companheira. Com dois andares, o pequeno prédio curiosamente consegue se fundir com a paisagem residencial do bairro, deixando Luis Vagner tranquilo com seus dreads de quase 25 anos e sua guitarra balançante. Assim o encontramos, sorridente e relaxado, em um dos estúdios de ensaio, onde jaziam pedestais vazios e uma bateria desmontada.

De conversa fácil e raciocínio aparentemente desconexo, Luis Vagner foi desfiando sua memória em gauchismos, golpes e giros no violão, Jovem Guarda, saudade, suingue, futebol (foi centroavante de time francês), análises pré-Copa do Mundo, o cosmos e um CD inédito de Zé Keti feito sob sua produção. O seu otimismo sem limites, fruto de ensinamentos budistas, só pareceu ter sido abalado pela morte, no final da década de 80, de um grande amigo, o cantor, percussionista e compositor paulistano Branca Di Neve.

A dor o fez sair do país e tentar a sorte na Europa, mas seu auto-exílio não durou muito. Sua “música planetária” é brasileira, familiar, quente, como nos versos de “Oi” (gravada por Branca Di Neve em Branca mete bronca! Vol. 2, 1989, seu segundo e último álbum): “Pra penetrar nos teus sonhos lindos / vou embelezar a minha voz / com chá e mel / coisas caseiras”. E é assim, entre o familiar e o cósmico, que o gaúcho guitarreiro segue evoluindo, perdido entre as coisas lindas.

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Samba-rock
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