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Entrevistas de música brasileira

Los Hermanos

Los Hermanos. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Los Hermanos

parte 8/18

“Vocês são banda nova e têm que aparecer na capa!”

Max Eluard – E em um mundo ideal como deveria ser a relação do artista com a gravadora? Sem pensar na relação que vocês têm com a gravadora ou no que ela não faz…
Amarante – A relação é conseqüência do contexto. Não sei como seria um mundo ideal. Não existe o ideal… O ideal é o agora. E agora as gravadoras têm menos dinheiro. O ideal é vender o disco e ganhar dinheiro. Ser justo pra quem fabrica e pra gente que grava. Agora, qual é a porcentagem justa? Qual a ação ideal? Tem muitos detalhes e é o contexto que diz.
Bruno – Acho que em termos de obrigações a gente tem uma relação muito boa já faz tempo, desde o Ventura. Não chega até a gente a sensação de obrigatoriedade de nada. Não foi falado em momento algum que a gente tinha que fazer um programa de muita audiência nesse disco. Se a gente quiser fazer eles correm atrás, mas se não falar nada… Pode até existir essa pressão, mas não chega até a gente, é filtrado. Hoje em dia estamos numa posição confortável.
Camelo – A gente é mais dono do nosso espaço agora. Antigamente as coisas eram impostas e hoje em dia são mais conversadas…
Bruno – Foi um espaço conquistado…
Barba – A gente foi juntando ao redor pessoas que gostamos. No começo não havia isso. Empresário, produtor, assessoria de imprensa… Elas é que não deixam chegar na gente essas pressões. Elas sabem o que pode, o que não pode.
Camelo – Mas isso foi conquistado por causa do êxito dos discos. No começo, quando você não tem nada a oferecer, existe pouco poder de barganha. Mas até que conseguimos alguma coisa…
Amarante – Uma das coisas que a gente conseguiu no primeiro disco foi não colocar foto nossa na capa… “Ah, vocês são banda nova e têm que aparecer na capa!”… A gente não via razão alguma pra aparecer na capa.
Camelo – Isso que o Barba falou da gente montar um time é coisa recente…
Amarante – E outra… O pessoal de gravadora também mudou muito nesses últimos cinco, seis anos… Não sei se pelo contexto ruim ou porque mudaram mesmo… Diretores artísticos mais novos, como é o caso do nosso [n.e. Bruno Batista, diretor artístico da Sony BMG]… Eles entendem que a gente sabe o que quer e sabe o que é bom pra gente. A gente não faz a música para o nosso público? Então a gente há de saber o que coloca no clipe, o lugar em que a gente quer tocar… É muito diferente do que era na época da Abril, que era uma gravadora…
Barba – Bem legal! [risos]
Camelo – Os outros diretores artísticos que a gente teve eram bem mais velhos e não entendiam… No nosso caso houve briga por causa do título da música… Havia um nível de intromissão que hoje é inaceitável pra gente… Mas isso era com todo mundo de lá [na Abril]…
Amarante – Lá era tudo errado. Tudo era pensado para o mês seguinte. Era tudo pensado a curtíssimo prazo. Tanto é que a gravadora surgiu, ocupou a maior fatia do mercado e depois faliu, em muito pouco tempo.

Almeida – O Bruno falou dessa pressão… mas vocês chegaram a entregar o disco, né?
Barba – O Bloco? A gente terminou, entregou… tudo certo.

Almeida – Mas se era uma marcação tão próxima como vocês conseguiram?
Barba – A gente enrolou eles.
Bruno – A gente foi pro sítio e disse que não queria ninguém lá. A gravadora era em São Paulo e o sítio em Piraí [n.e. Interior do Estado do Rio de Janeiro], então o cara tinha que pegar avião até o Rio e depois um carro até o sítio. Eles não queriam, mas como estavam também curiosos, deixaram. Depois a gente escolheu gravar no estúdio do Chico Neves que é mínimo, do tamanho de um quarto. É um estúdio que não comporta visitantes. Se for uma pessoa já fudeu! E tudo isso era uma escolha consciente… ou insconsciente. Então a gente foi protelando o máximo que podia. Quando mostramos a primeira coisa, eles não gostaram e aí começou o cabo de guerra. Foi foda!
Barba – Faltou uma malandragem… Se a gente tivesse mostrado de pouquinho em pouquinho… mas não dá pra saber…
Amarante – É… e o Chico [Neves] também já conhecia aquelas cobras todas… Ele ficou muito do nosso lado, chegou até a esconder o HD… [risos]
Camelo – Foi maneiro.
Amarante – Depois os caras [da gravadora] pegaram o HD, né? [risos]

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