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Entrevistas de música brasileira

Los Hermanos

Los Hermanos. Foto: Henrique Parra/Gafieiras

Los Hermanos

parte 6/18

Fomos catapultados de aluno de faculdade para a Xuxa

Max Eluard – Mas nesses quatro discos vocês perceberam alguma mudança no público, nos fãs?
Amarante – No primeiro não era ainda um público do Los Hermanos. Era um público da música, um público de ocasião… Antes do primeiro disco havia o público dounderground que ia a um certo circuito de shows, porque, de outra forma, não havia como nos conhecer. Depois virou tudo… Televisão, tocava em todo lugar… A partir do segundo disco foi que um outro público, vindo dessa massa gigante, surgiu. No terceiro começou a consolidar… A gente ouviu muito nessa época que “Ah, eu tinha preconceito, mas hoje eu gosto”… Quer dizer, odiavam a gente por causa de “Anna Júlia” e tudo aquilo. Isso começou a acontecer com o Bloco, mas teve mais com o Ventura.
Barba – Também porque o Ventura teve mais espaço que o Bloco.
Almeida – No Ventura vocês já tinham conseguido furar o bloqueio…
Medina – Mas é que o Bloco foi catimbado pra caramba lá dentro da Abril. [n.e. Gravadora do Grupo Abril que funcionou de 1999 até 2003 com um elenco de artistas totalmente nacional e que lançou os dois primeiros discos do grupo, além de trabalhos de artistas como Ira!, Gal Costa, Titãs, Mundo Livre, Marina Lima, Capital Inicial, Frank Aguiar, CPM 22 e Maurício Manieri]
Almeida – Como foi isso? Foi complicado mesmo?
Bruno – Foi complicado, sim. A descoberta sobre tudo isso foi no final da turnê do primeiro disco e de uma forma muito agressiva. Porque mesmo uma banda que faz sucesso com a primeira música de trabalho não faz sucesso como a gente fez sucesso. Foi muito pesado em cima da gente. A solicitação vinha por todos os lados… A gente praticamente foi catapultada de aluno de faculdade para a Xuxa. Eu me lembro bem de um negócio ilustrador dessa época. A gente tava fazendo um programa de TV chamado A Cara do Rio… numa Bandeirantes local, super troncho… e duas semanas depois estávamos na Xuxa. Então, não deu tempo de pensar e aí os caras já vão indo, vão programando… Quando você vê já tem uma agenda…
Amarante – Nessa época o empresário era junto da gravadora num esquema… Era um empresário indicado pelo cara que, na época, era diretor artístico da gravadora… Era um cara honesto e tal, mas…
Bruno – Ele torcia pra tudo dar certo.
Almeida – Queria que fosse todo mundo feliz…
Amarante – Ele falava que a gente tinha que fazer tal programa, a gente não gostava e ele começava com “Essa é sua chance! Essa é sua chance!”… Esse era o fantasma… “Tem que ser agora porque não vai aparecer outra chance dessa”… Chegou uma hora que gente bancou. Vamos ver se acaba mesmo!
Bruno – O pensamento foi esse mesmo. A grande virada de mesa foi num programa que era volta do Gugu das férias. [risos] A gente tava no camarim com um cara que pilotava jet-ski e que havia posado nu na G Magazine… [risos]
Amarante – Eram camarins divididos!
Bruno – Já era uma fase braba e a gente não queria ter ido ao Gugu de jeito nenhum. Foi uma puta negociata mafiosa. Quando começou o programa, o Gugu tava de braço quebrado, entrou atrasado, jogaram a gente no palco, soltaram o playback e falaram “Vai! Vai!”.
Amarante – O Marcelo tinha guitarra, mas eu não tinha. O Bruno também não tinha teclado e nem o Barba bateria. A gente ficou de braço cruzado, abraçado, sei lá…
Almeida – Isso sem cantar nem nada?
Camelo – Eu fui tentar conquistar o Brasil! [risos]
Amarante – Mas é porque ele não tava se sentindo mal. Ele cantava a música, tava com a guitarra na mão, mas a gente… E não foi que a gente decidiu cruzar os braços?! Não havia o que fazer… O que a gente ia fazer naquela situação? Dançar?
Camelo – O melhor foi o recado da mãe do Bruno no celular… “Que absurdo!” [risos]
Bruno – “Que palhaçada é essa? Tá maluco?” [risos]… “Porra, mãe!”…
Amarante – Acho que o Bruno falou “Foda-se!” pra câmera… [risos]
Bruno – Não sei… Fiquei muito puto com aquilo. Foi tudo muito absurdo! E o sentimento foi o de “Se é assim acho que não quero”.
Amarante – Foi nesse dia que havia uma mulher pelada num chuveiro?
Bruno – Devia ser.
Camelo – Mas isso era o de menos… Como se as pessoas cheirosinhas, intelectuais, fossem melhor que o cara que posa na G Magazine…
Bruno – Mas o lance não é esse… Aquilo tudo mostrava que tipo de entretenimento tava ali pra ser causado… O cara tá ali pra falar da piroca dele e a gente pra fazer um playback!
Camelo – E o ruim disso também é o tipo de exposição que a gente ganha… Chegar lá e tocar uma música dublada e ficar desconfortável com isso…

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