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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 8/18

Eu e o Altemar Dutra viemos da escola do Lucho Gatica

Tacioli – Lindomar, depois que você gravou seu segundo disco, teve algo que lhe mostrou que você estava para se tornar um artista de grandes vendagens?
Lindomar – No primeiro disco gravei somente Vicente Celestino, portanto, regravações. Vicente Celestino estava vivo e eu o conheci. Era uma pessoa muito exigente. Na época tive que fazer uma “amostragenzinha” para ele, caso contrário, não autorizaria as gravações. Era muito sério! Certa feita, dizem, ele não deixou o irmão Pedro Celestino, que cantava igual ou melhor que ele regravar, suas músicas. Um homem exigente como hoje é o Roberto Carlos. Esse primeiro disco teve sua aceitação a ponto de eu vir a gravar um segundo. Aliás, esse primeiro álbum, tempos atrás… Quem comprou a Continental?
Monteiro – A Warner.
Lindomar – A Warner relançou esse disco em CD, foi legal. Puxa, como é que se ganha dinheiro, porque esse disco se pagou na época, tanto que fiz um segundo (compacto simples), com “Margarida”, uma música do Lupicínio Rodrigues, que certamente vocês já ouviram falar, um crioulinho lá de Porto Alegre, que, por incrível que pareça, escrevia para as louras. Lupicínio foi uma maravilha da nossa música. Gravei “Margarida”, em que ele versa sobre uma namorada dele, uma loura. Uma toada-baião que foi um sucesso! Em seguida fiz o terceiro disco, Alma, coração e vida. A música-título foi regravada uns tempos atrás pela Joanna [n.e. Música de A. Flores e Wilson Brasil, registrada em 1993 em disco homônimo da cantora] e pelo Trio Irakitan. E uma outra música, “Somente uma flor”, uma rancheira com timbres de mariaches.
Tacioli – Foi a partir desse momento que você começou a se utilizar de elementos da música mexicana?
Lindomar – Eu diria que sim, porque o outro bolero não era tão mexicano, era mais para o lado da Espanha, do tango argentino. Menos metais, mais cordas, e cordas de todas as espécies, violão, violinos, etc. Era mais harmonioso, o outro era mais agressivo, mais simples, mais popular, voltado para o povão. Em “Somente uma flor” o meu formato começou a ser desenhado. Depois, o meu grande sucesso nacional e internacional veio com o “Ébrio de amor”, que é bem mexicano. Quer dizer, mexicano com o nosso balangandã. Tanto é que o disco que entrava lá não podia ser igual ao deles, “Porque se for igual, já temos o nosso, pô!” Seria a mesma coisa do americano tentar fazer samba. Se ele fizesse igual ao nosso ia sair pior, na minha forma de ver. “Martinho da Vila é melhor, peraí!”
Monteiro – Aí é que você enxerga essa transição? Porque na casa da luz vermelha, você tocava…
Lindomar – Ah, rapaz, a casa era do Edil. Até hoje não se pode falar em Edil para vereador nenhum [risos], entendeu?! Tem essa marca in-de-lé-vel! Se falar para o Bariani que ele me descobriu no Edil, “Que é isso, rapaz?! Larguei os vendedores e fui embora!” [risos] “Não, ninguém está falando que você dormiu lá, não!” Ele fica louco, é muito sério!
Monteiro – Mas nesses lugares você cantava Vicente Celestino e músicos da época.
Lindomar – Orlando Silva. Aí logo começou a aparecer o Miguel Aceves Mejia e Lucho Gatica, no bolero romântico, que veio este a ser a escola para mim e para um grande amigo que tive, o Altemar Dutra. Ele, o Carlos Alberto, do Rio, e eu viemos da escola do Lucho Gatica, Pedro Vargas, lá do México, e dos cantores românticos do Brasil.

Monteiro – Aí você citou bem, românticos. Você consegue dizer em que momento houve essa divisão na música que deixou de ser popularesca, mas que vendia bem, e virou o que o pessoal chama hoje de música brega?
Lindomar – Que veio a ser música brega hoje. Esse negócio de brega é uma coisa séria. Se você chamasse determinada música de brega, nego virava a cara, “Vai ser besta!” Nunca me importei, não! Porque sempre fui cantor de brega. Brega é exatamente o lupanar [risos], que tudo mundo sabe que é putaria. [risos] Esse negócio de música brega apareceu quando as FMs estavam começando por aqui, e naturalmente, tocando outro tipo de música que não o nosso, 90% importado. Um exagero! 90% de música importada e o resto era de música de cabaré, de brega! O negócio era pejorativo, só que a voz do povo, como já dizem, é a voz de Deus, ela é mais forte. E brega já está no dicionário, já é papo de qualquer roda, e brega hoje é chique. Veja só que volta que o mundo dá! E nossa música era assim consumida nos lupanares e nas feiras, pelo caminhoneiro, pelo homem da fazenda, do sítio, pelos taxistas, pelos bares como o Estadão – embora o pessoal do jornal O Estadão freqüentasse o bar, mas havia a Avenida 9 de Julho. Aquilo ali era entupido dia e noite, 24h.

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