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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 5/18

Gravei meu primeiro LP com o maestro Élcio Alvarez

Monteiro – E em São Paulo…
Lindomar – Daí uns tempos chegou outro telegrama: “Venha, estúdio marcado”. Era o estúdio da Bandeirantes, que já estava mudando da Paula Souza, do outro lado do rio Tietê, de frente ao Mercado Municipal, quando este ainda era uma atração turística. Acabamos indo para lá porque os dois ou três estúdios estéreos de São Paulo estavam sendo usados pelo Vicente Celestino, pela Ângela Maria, pelo Cauby Peixoto, enfim, pelas estrelas da época. “Grava o goiano lá!” E fui direto, cara! Tudo junto, tudo de uma vez, orquestra… Eu nunca tinha visto uma orquestra.
Monteiro – Era uma orquestra completa?
Lindomar – Grande orquestra! Seis violinos, três cellos, três violas, trompa, por aí. E tocava tudo de uma vez. E tinha também o coral da Eloá, amante do Élcio Alvarez, uma baita de uma musicista e cantora extraordinária. “Chamem o cantor!” Eu estava num canto do estúdio. Entrei e o maestro disse “Veja se está bom!”. Na verdade, ele queria saber se o andamento da música estava bom, mas eu lá sabia que porra era essa! [risos] Rapaz, quando ele contou 1, 2, 3 e 4, baixou a mão, que entrou aquela massa de violino, o Poly [n.e. Músico paulista, multi-instrumentista das cordas, virtuoso em guitarra havaiana] tocando violão, e o Mário Casali no piano, que depois veio a ser meu amigo, fiquei impressionado! Olha, uma das coisas mais bonitas que pode acontecer na vida de uma pessoa! Eu nunca havia ouvido aqueles acordes ao vivo.
Monteiro – Nessa época o Poly já tinha disco gravado ou era somente um instrumentista de estúdio?
Lindomar – Não, o Poly já mandava disco para o Japão, para tudo quanto é banda do mundo. Quando ele não estava fazendo nada, ele ia tocar no estúdio, fazer um solo. Como a gravação era direta, tinha-se os melhores músicos, que era para não errar. Se um errasse, meu Deus! Eu estava morrendo de tanto tremer, Nossa Senhora!, e ele me perguntando se estava bom. [risos] “Tá maravilhoso, maestro!”. Eu não sabia que ele me perguntava sobre o andamento, mas conhecia os originais. São coisas que acontecem na vida da pessoa que são “incrivelmente indescritíveis”! Ouvi a orquestra pela primeira vez quando eu estava na sala da técnica, mas tudo estava convertido para mono, já que o estúdio era mono. Mas quando entrei, com um monte de instrumento que eu nunca tinha visto, foi um negócio incrível. E para pegar a embocadura, fui até o carro do Bariani e tomei uma lapada de uma pinga que ele tinha [risos], senão eu não gravava. Não dava conta! Em síntese, voltei ao estúdio e gravamos dez músicas. E já no final da décima – “Não vou dar conta de gravar as doze músicas!” – os músicos já não agüentavam mais. Eu pensava que se gravava tudo de uma vez. [risos] Já estava rouco, tanto que a décima música não valeu. Ficaram nove boas. No outro dia gravamos as três que faltaram para finalizar o LP.
Almeida – E quando você caiu em si de que havia gravado o primeiro disco?
Lindomar – Rapaz, um monte de “nuvem de sonhos” passou pela minha cabeça. Voltei para Goiás e levou quase um ano para esse disco ser lançado. E os meus amigos, “Como é que é?” [risos] “Você gravou ou não gravou?!” Eu cheguei a pensar que aquilo tudo havia sido grupo! [risos] Eu era da Segurança Pública, então andava desconfiado de tudo e de todos.

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