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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 4/18

Eu estava pingão, o intestino embananou e usei a lista com as músicas do disco!

Monteiro – Mas volte à sua primeira gravação.
Lindomar – Pois é, veja bem! O Bariani Ortêncio estava no local de luz vermelha à porta e, naturalmente, ninguém poderia saber que ele estava ali. Ele falou: “Apareça amanhã, às sete horas da noite, no Bazar Paulistinha. Termine seu expediente e vá para lá!” Bom, às 6 horas terminou o meu expediente – eu trabalhava na Segurança Pública –, peguei meu lambretão velho e fui para lá. “No mínimo fico conhecendo o Palmeira!” E Goiânia, de uma ponta a outra, fazíamos em 15 minutos, no máximo. Cheguei antes do horário combinado, mas como eu conhecia todos os bares e cantava neles todos, fiquei no bar em frente ao Bazar Paulistinha fazendo uma horinha. Aliás, tem uma moda do Tião Carreiro que diz [canta ao violão] “O bazar do Waldomiro em Brasília o soberano” [n.e. “Pagode em Brasília”, composição de Teddy Vieira e Lourival dos Santos, sucesso de Tião Carreiro e Pardinho]. Então, o Bazar do Waldomiro é o Bazar Paulistinha, que é do Waldomiro Bariani Ortêncio [n.e. Escritor e contador de causos, autor de Cozinha goiana, em que esmiuça a culinária de Goiás]. Eles puxando o saco do maior revendedor de disco do Centro-Oeste brasileiro. [risos] Claro, ninguém é besta! E aquilo foi uma homenagem maravilhosa! Bom, no bar existia o violão dos seresteiros e um biombo separando o “Reservado” [risos], para quem quisesse tocar violão. Fui direto para lá. Tô lá cantando algumas músicas do Vicente Celestino [dedilha o violão] com um violão afinado [risos]. Tudo do Vicente Celestino foi sucesso, tipo Roberto Carlos. No momento em que eu estava cantando, a turma do Palmeira chegou ao Bazar Paulistinha. “Ô gente, vamos comprar um cigarro ali!”. E o Palmeira ouviu um cara cantando lá dentro. [Solta o vozeirão] “Acorda Patativa, vem cantar / Relembra as madrugadas que lá vão” [n.e. “Patativa”, clássico de Vicente Celestino, de 1937]. E em seguida “O ébrio”, e outras do Vicente Celestino. Ele falou para o João Leite – que era o diretor de vendas da Continental – “Você fica aí e leva esse cara para a nossa reunião com o Waldomiro. Vou mostrar como é que se descobre um talento nas barbas dele”. E fui junto com o João Leite. “Vamos ali, vamos ali!” “Ué, gozado, eu também tenho que ir para lá!” O Bariani havia marcado às sete e meia ou oito horas comigo. Ainda eram sete horas. “Bom, vou adiantado mesmo com esse cara!” E fomos. Logo que entrei, o Bariani disse, “Esse é o rapaz”. Aí o João Leite, “Esse era o rapaz que estava cantando!” “Você canta Vicente Celestino?”, perguntou o Palmeira. “Canto.” Todo mundo cantava. Cantei uma ou duas músicas e eles foram ao Bazar – estávamos na casa do Paulistinha, que era no fundo da loja. Canta uma, canta outra, tinha uma pinga boa lá, a festa estava legal, conheci o Biá, que era o parceiro do Palmeira, o João Leite, que era o diretor de vendas – não sabia o que vinha a ser um diretor de vendas de uma gravadora. De repente, eles voltaram com uma lista de 12 músicas do Vicente Celestino. “Você aprende e tira os tons. Waldomiro, você passa por telegrama, porque por telefone de Goiânia a São Paulo leva uns dois dias”. [risos] Fiquei com a lista e cantamos até quatro, cinco da manhã. Depois, o Palmeira foi embora com o João Leite, ficou o Biá e o Haroldo José, um cantor de tango da época, que era guarda civil em São Paulo. Mais tarde, tomei minha lambretona sem luz e fui embora. Tinha que levantar cedo para ir à aula. Mas aconteceu um negócio doido com essa lista, que só há uns dois anos contei ao Waldomiro Bariani, que é o meu padrinho artístico. Morávamos num setor em Goiânia que estava começando, e a nossa casa era praticamente dentro do mato. E como eu estava muito pingão, havia comido muito, o intestino embananou e eu usei a lista! [risos] “Esse povo tá tudo é doido, como é que vou gravar um LP? Não tenho nem eletrola que toca Long Play – a gente não falava direito Long Play –, tenho apenas a vitrola de 78 rotações. Esse povo está doido! Onde é que já se viu? Não sou de rádio, não sou de nada aqui. Como é que eu vou gravar lá um LP, pô?! Pela Continental? Com o Palmeira? Isso é besteira!” Usei a lista e pronto! [risos] Fui embora para a escola, para o meu serviço, sumi! Quinze, trinta dias passados, o Waldomiro aparece no meu serviço. “Bicho, olha aqui! Chegou o telegrama: ”Mande relação com as tonalidades das músicas. Traga cantor dia tal, estúdio marcado. Abraço, Palmeira””. “Mas isso é sério?!” “É, venha comigo, vamos tirar esses tons porque preciso passar o telegrama para São Paulo”.
Giovanni Cirino – Quer dizer, você precisava passar esses tons para os músicos de São Paulo.
Lindomar – Para as músicas serem orquestradas. Maestro e estúdio marcados. Era o Élcio Alvarez, o maior maestro da época. Fiquei apertado com esse negócio porque eu não tinha mais a lista. Fiz uma. Pegamos um acordeonista para afinar o meu violão na tonalidade, ou seja, no diapasão, tiramos os tons, e o Bariani mandou a relação para São Paulo.
Max Eluard – Que não era a mesma lista que eles haviam te dado?
Lindomar – Peguei as principais músicas do Vicente Celestino. Ninguém se lembrou, porque era tudo sucesso.

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