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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 3/18

O Vicente Celestino foi o maior tenor que o Brasil ofereceu ao mundo!

Monteiro – O que você cantava nessas serenatas, Lindomar?
Lindomar – Eu cantava música da época, que acabei gravando, e boleros. O espanhol entrava no Brasil com muita nuança. Acabei gravando uma porção de coisas em espanhol. Cantava serestas de Orlando Silva, e como minha voz era mais para fora, eu cantava muita música do Vicente Celestino. O negócio era brabo! É lá em cima! O Vicente Celestino [n.e. Compositor, cantor e ator carioca, 1894-1968, dono de sucessos dos anos 30 como “O ébrio”, “Coração materno” e “Patativa”] foi, talvez, o maior tenor que o Brasil ofereceu ao mundo, um tenor popular, um grande autor, ator e um intérprete sem tamanho.
Monteiro – O Vicente Celestino é sua maior influência musical?
Lindomar – É. Mas tinha um punhado de músicas estrangeiras. Como os jovens hoje seguem a turma de fora, eu também me dei muito bem com o bolero advindo da Espanha, e principalmente, do México, com seus trompetes. O bolero mexicano que entrou no Brasil superou o tango argentino, que era lindo, um sucesso extraordinário em todo o Brasil. Fui muito influenciado pelos nossos seresteiros.
Max Eluard – Como eram as serenatas em Santa Helena?
Lindomar – Hoje a gente fala “Vamos fazer uma serenata?”, que é se reunir com a turma ou com a família – que é muito saudável, muito bacana. Agora, serenata na época era a serenata propriamente dita, na janela da sua namorada ou do amigo, ou do namorado da amiga que estava ali, ou do esposo, da esposa, e por aí afora. À noite, num silêncio de uma cidade pacata como era Goiânia ou Santa Helena, acordar com uma serenata, com uma música ao vivo lá da rua, era maravilhoso. Em Goiânia, o pessoal chegava a colocar um piano em cima de um caminhão para fazer serenata [risos], mas era serenata para o vice-governador. [risos] E sempre aquela pessoa que ganhava a serenata, ou alguém de sua casa, ou saía com a turma engrossando o coro, ou pegava um litro de uísque, pinga ou vinho e ia carregando. “Não canto, mas carrego a garrafa!” [risos] A serenata terminava às 5, 6 horas da manhã. Um negócio muito bacana que hoje não existe mais! Eu me recordo bem quando saiu essa lei do silêncio, que faz com que os bares e as casas noturnas tenham seus sons medidos em decibéis. É um negócio muito certo, mas foi uma perda para a serenata. Os decibéis da serenata são comedidos, são bonitos, são harmoniosos. Não iria se fazer uma serenata com uma música funk, né?! [risos] De repente hoje, por que não?! [risos] O famoso bate-estaca! Certamente essa música não serviria para fazer uma serenata. Acho que foi a partir daí que surgiu essa tal lei do silêncio, que é uma necessidade, mas para a serenata da época não seria preciso.

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