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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 2/18

Fui ponta-esquerda do Sírio Libanês

Daniel Almeida – Lindomar, antes de seguir a carreira artística, qual era seu sonho?
Lindomar – Um sonho a ser alcançado? Ser médico.
Almeida – Era isso que seu pai queria?
Lindomar – Não, o meu pai queria que a gente estudasse. Ele trabalhava para nos sustentar. Depois que faleceu, as coisas dificultaram muito, embora todos nós trabalhássemos desde criança. Todo mundo tinha que trabalhar, fazia parte da vida de toda família. O meu sonho era ser médico, mas não pude realizá-lo. Depois passei a estudar Advocacia, mas também não terminei. Caramba, hein?! [risos]
Monteiro – E a história do futebol?
Lindomar – Futebol! Pois é! Joguei futebol quando eu era criança, como qualquer outra. O primeiro rádio de Santa Helena era um baita de um aparelho desse tamanho, com uma pilha maior ainda. [risos] Era nosso esse rádio. Ouvíamos as emissoras do Rio e algumas de São Paulo e juntava gente no alpendre de casa, um alpendre alto. Era um negócio maravilhoso ver aquela caixinha falando. Naquela época as emissoras já estavam começando a irradiar o futebol de São Paulo e do Rio. Então jogo futebol desde criança. Quero dizer, joguei! Hoje não jogo mais, não, calma lá! Fomos para o internato do colégio e fazia parte do currículo uma série de esportes. Pratiquei vários deles, mas o que eu gostava mesmo era o futebol. Sou um santa-helenense de Rio Verde – quando nasci em Santa Helena era tudo Rio Verde [n.e. Município goiano fundado em 1854, hoje com mais de 100 mil habitantes] –, que ofereceu ao Brasil, entre outros craques, Goiano (Washington), centro-médio do Corinthians e da seleção brasileira. Um baita de um jogador! Era amigo da família e quando ia passar as férias em Goiás jogávamos juntos. Numa dessas surgiu o papo de levar tanto eu como o Coelho – um primo dele, da mesma família, evidentemente, por ser primo é uma redundância doida! [risos] – para fazermos um teste no Coringão. Se isso tivesse acontecido – infelizmente não aconteceu – eu não seria o palmeirense que sou hoje! [risos] O Corinthians é uma doença! Depois do internato fomos a Goiânia dar seguimento aos nossos estudos. Terminado o Ginasial, passamos para o Científico, quando poderia me preparar para as profissões mais exigentes, como Medicina, Engenharia e Advocacia. E sempre jogando futebol, claro! Estive em vários times da várzea, no Atlético Goianiense e em um chamado Sírio Libanês, que pertencia à Primeira Divisão do semiprofissionalismo goiano. O Sírio Libanês depois se juntou a outros times da mesma categoria e formou o Vila Nova, hoje um time até muito bom, ao lado do Goiás. Cheguei a jogar contra Os Milionários do Rio, uma partida memorável! Rapaz, não era brincadeira! Didi, Garrincha, foi um negócio de maluco para quem teve essa oportunidade de estar lá dentro do campo.
Almeida – Vocês conseguiram jogar?
Lindomar – Pois é! [risos] Era um combinado do Goiânia com o Sírio contra os Milionários. Coube ao Saci – que era o nosso lateral-esquerdo, também de Rio Verde mas que jogava no Goiânia – marcar o Garrincha. [risos]
Max Eluard – Ele virou saci antes ou depois do jogo? [risos]
Lindomar – Morávamos na mesma pensão. Quando saímos para o jogo, ele falou: “Bom, aquele cara não vai passar pela minha esquerda! Ele terá o resto do campo para passar, mas pela minha esquerda, não vai!” O Garrincha driblava somente pela esquerda do adversário, pela direita dele, Garrincha. Disse que se plantaria em cima da linha! [risos] Saci, um crioulo claro, alto e forte, jogava bonito, era um tremendo marcador. Mas ele não sabia o que acontecia: o Garrincha o tirava da linha e passava! [risos] Eu vi! Eu era ponta-esquerda, já estava quase saindo do time. Joguei muito pouco.
Tacioli – Quando foi isso?
Lindomar – 60, 61.
Tacioli – Pouco antes de gravar o primeiro disco.
Lindomar – Eu gravei o LP em seguida.
Almeida – Existiu o dilema “jogar bola ou vir para São Paulo?”
Lindomar – Não, eu gostava mais de cantar. Fazia serenata dia e noite. Estudava e trabalhava! Daí saí do Vila, que havia se formado, era um time mais exigente. Havia horários de treino, segunda, quarta e sexta. [risos]
Max Eluard – Não dava para conciliar com a serenata.
Lindomar – Não dava, bicho! Não era brincadeira! Serenata era toda noite. Não era mole!

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