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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 1/18

Eu era frentista de posto e cantava em lupanar

Lola – [distribuindo as bebidas] Sem gelo! Gelada! Vocês querem refrigerante? Coca-Cola? Querem um vinho?!
Lindomar Castilho – [afinando o violão com o diapasão] Gravei um tempão com o Noite Ilustrada na Continental. Bom, com essa viola vai ser meio embananado. [risos] Faz um favorzinho.
Ricardo Tacioli – Claro.
Lindomar Castilho – Com uma folha dessa coloque o nome de cada um para que eu possa ler. [Volta a afinar o violão] O Noite Ilustrada toca um violão sarado! Sempre foi o dono da noite de São Paulo. Lembro-me de um de seus primeiros sucessos, “Toalha de mesa” [n.e. Composição de Dora Lopes, Carminha Mascarenhas e Chumbo]. [Canta o título da música] Ele deve ter cantado a vocês um pedaço dessa música. Conheci o Noite num bar perto de onde estávamos [n.e. Viaduto Nove de Julho, Bela Vista]. Depois tive o prazer de tê-lo no mesmo cast, primeiro na Continental, depois na RCA. Um cara bacana!
Tacioli – Faz tempo que você não fala com ele?
Lindomar – Vige, rapaz, um tempão! Ô Lo, você me arranja um copo de água, por favor?!
Max Eluard – Lindomar, como é que foi sua educação musical, como você tomou gosto pela música?
Lindomar – Bom, gosto pela música eu tenho desde criança. É de berço. Venho de uma família de músicos natos, mesmo de lá dos confins de Goiás. Os meus avós foram músicos do interior, lá de Santa Helena [n.e. Pequeno município goiano fundada em 1948; possui hoje cerca de 30 mil habitantes], cidade que fundaram com meus pais. A vó Dica – não confundam com vodka [risos] – foi uma grande violeira. Ela dançava catira, cantava e fazia qualquer vocal. Uma musicista! Isso da parte da minha mãe. Do lado do meu pai, também tem muitos músicos, todos natos. E tive a alegria de ter a orientação, já que desde criança tive tendência musical. Tocava flautim, aquelas flautinhas, hoje não mais existe, acredito. Toquei gaita-de-boca e, posteriormente, pé-de-bode, que é a sanfoninha, atualmente muito em voga. E estudando num colégio interno, o Arquidiocesano Anchieta, tive uma maior orientação musical, pois a música fazia parte do currículo escolar ginasial, bem como latim, que hoje não existe mais. Tive um bom professor de música chamado padre Jair Silva, que me ensinou muito em termos vocais, como usar o diafragma. Por aí comecei a ter uma noção do cantar, sem pensar que seria profissional. Gosto musical, portanto, tenho desde criança. Depois do acordeão, passei a estudar num piano muito velho que tinha no Ginásio Arquidiocesano Anchieta. Tinham também as peças teatrais, as festas do ginásio e as serenatas que já fazíamos em nossa cidade natal, Santa Helena de Goiás.
Flávio Monteiro – Quando caiu a ficha “Tenho talento para a música”?
Lindomar – Bom, Flávio, não levou muito tempo, não! Estudando com os padres salesianos observei que eu tinha possibilidade de vir a cantar. Eu fazia serenata em Goiânia e numa dessas serenatas fui descoberto. E quando eu menos esperava, como seresteiro, somente, fui convidado a vir a São Paulo gravar o primeiro disco. O disco estéreo começava a chegar ao Brasil, ou seja, o de 33 rotações, o famoso LP, feito com vinil [n.e. O long play (LP) chega ao Brasil em 1951, três anos depois de ter sido lançado nos EUA. Carnaval em long-playing (Capitol/Sinter), com Oscarito, Irmãs Meireles, Heleninha Costa, Neusa Maria, Geraldo Pereira, Marion, César de Alencar e Os Cariocas, foi o primeiro LP produzido no país].
Max Eluard – Isso foi em que ano?
Lindomar – Em 61. Antes tive uma outra oportunidade que não abracei porque eu não acreditei. Por volta de 1960, o meu padrinho artístico, o Bariani Ortêncio – um paulista, hoje goiano, grande escritor, compositor, homem apaixonado por música e então dono do maior bazar de discos do Centro-Oeste, o Bazar Paulistinha – me convidou para gravar na Columbia, que veio a ser a CBS, hoje Sony. Meu pai ainda era vivo e não queria que eu fizesse carreira artística, porque representava uma carreira de pessoas não tão dignas. Como ele não permitiu e eu não acreditava que aquilo pudesse ser um convite sério para se fazer um primeiro disco, então 78 rotações, não apareci. Veio a segunda oportunidade em 61. Meu pai, infelizmente, havia falecido, e nesse caso, felizmente, eu fui lá. São duas situações incrivelmente distintas: infelizmente, ao perder meu pai, e felizmente, já que tive a possibilidade de vir a São Paulo, um sonho “possivelmente impossível” de ser realizado naquela época por mim, um estudante e trabalhador. Eu era frentista de posto de gasolina e pagava o meu estudo. Em 61 eu já cantava num lupanar. Vocês conhecem bem o que vem a ser um lupanar, não? Naquela época já se usava uma luz vermelha à porta para a identificação devida. [risos] Tratava-se de um cabaré! E ali o meu padrinho artístico – muito sério, não freqüentador do lupanar – levava alguns vendedores de discos de São Paulo para se divertirem, e eu cantava lá. Ele me ouviu novamente. “Mas rapaz, você não apareceu!” E marcou para que eu fosse ao seu bazar um outro dia. Ele iria me apresentar ao então diretor da Continental, Diogo Mulero, o Palmeira, da dupla Palmeira & Biá, criadores de “Boneca cobiçada” [n.e. Bolero sertanejo composto por Sebastião Alves da Cunha, o Biá, e Bolinha, lançado em janeiro de 1957], uma música imortal. “Bom, nessa eu vou! No mínimo fico conhecendo o Palmeira, meu Deus do céu!” Ele fazia um sucesso louco. A priori, está resolvida a sua pergunta?

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