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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 15/18

Pai, você deveria voltar a cantar, é a sua profissão!

Max Eluard – E quando você saiu da penitenciária, Lindomar, qual era a sua perspectiva de vida?
Lindomar – Rapaz, acalentar um pouquinho a minha mãe, que ainda era viva, e passar a olhar as minhas coisas que os meus irmãos estavam tomando conta, coisas que eu gostaria de segurar para minha filha que estava sendo criada pela família Grammont. E assim foi e está sendo feito até hoje.
Tacioli – Como ela se chama, Lindomar?
Lindomar – Liliane. Mas deixem ela para lá, tenham paciência. [risos] Se ela um dia procurá-los, eu lhes peço que a acolham bem, por favor. Ela merece! Mas não a procurem, não! Ela faz balé e estuda Psicologia a meu pedido.
Max Eluard – E como você voltou a se dedicar a carreira?
Lindomar – Tem a ver com a minha filha. Uma vez ela me ligou e sentiu vontade de conhecer o pai. Por que? Até os 18 anos quando então ela telefonou, ela teve namoradinhos da escola e normalmente os primos, os tios, os pais desses namorados tinham meus discos em casa. Os namorados dela, pelo menos os dessa época, eram pessoas da classe média. E como ela ia almoçar com o maestro Pepe Ávila, seu padrinho, ele dizia, “Filha, olha o disco que fizemos com o seu pai na RCA!” A música dela não é essa, de forma alguma, mas ela ouvia, e aquilo aguçou sua curiosidade. E ela ligou e disse sua intenção de me conhecer pessoalmente. Eu disse que isso poderia acontecer se ela fosse para Goiânia, mas não sem o consentimento da família dela. E isso graças a amigos da minha família que são da família Grammont. Assim, acabamos por organizar isso sem que eu falasse com a família. A gente tem que ter respeito, no mínimo, a essa família tão indultada. Em síntese, na véspera do meu aniversário – não sei se foi coincidência, ou se ela sabia e fez de propósito – ela quase matou o velho. [risos] O negócio foi sério! Fomos apanhá-la em caravana da família no aeroporto. Como todo mundo ficou encantando, ninguém se lembrou que eu não deveria guiar. E eu também não lembrei! “Entra aqui, filha!” Era um fusquinha. Era o que eu tinha, melhor que esse não existia. Foi uma das primeiras vezes que bati um carro. Guio há muito anos e não sou de bater carros. Mas foi no afastar que arregacei o de trás [risos], e eles “Ô, bateu!” “Peraí, você não deve guiar. Saia daí!” Saí, mas já havia estragado o carro do amigo. Fomos para a casa de um tio dela, e no outro dia eu fiz uma festa para ela e também por que era meu aniversário. Nunca fui de comemorar aniversário. [risos] Acho que é uma marca que anuncia o meu passamento. Vou no dos outros, gosto, bato palmas, canto, mas no meu, não! Mas nesse dia foi uma festa maravilhosa! E como permitiram, levei-a para a fazenda dela, em Santa Helena, Rio Verde. Fomos montar cavalo! E na fazendo do meu irmão, também em Santa Helena, fizeram uma pamonhada para ela. Colheram o milho na roça, tudo natural, ela nunca tinha visto aquilo e acho que nunca mais viu. Sei que num determinado momento me deu um negócio de chorar, e fui lá para o fundo do quintal. Fui chorar sozinho. E esse choro durou mais de duas horas. Não dava conta de parar. Descontrole emocional. Sei que o pessoal começou a me procurar, porque se passaram mais de duas horas. Hoje ela faz balé e faculdade, graças a Deus. Tivemos a oportunidade de mandá-la a uma das maiores escolas de balé do mundo, nos EUA. Ela ficou por dois anos.
Max Eluard – Mas faltou contar como ela te convenceu.
Lindomar – Ah! É! Numa dessas lá, a gente sozinho na fazenda, tinha um violão do agregado, “Ô pai, canta um negócio, o padrinho Pepe me falou…” “Estou parado, não mexo com isso mais, não!” E cantei alguma coisa para ela. Aí ela me contou esse negócio dos pais e tios dos namorados dela. “Você deveria voltar, é a sua profissão. Eu não deixo a minha profissão por nada. A minha profissão é dançarina”, e foi me contando. “Ah, é?!” “É” “Mas você tem que estudar, hein?!” Sempre participei muito de shows beneficentes – muito, não, nunca é muito – e enquanto eu estava recluso, vira e mexe, um juiz me cedia para cantar no Hospital do Câncer, em abrigos de velhos e de crianças. O cara que me levava, era o mesmo que me devolvia à penitenciária. Naquela época eu não havia deixado de fazer esse tipo de participação artística. Já que eu não podia me ajudar com dinheiro, eu ajudava com arroz, feijão, milho, que eu plantava na roça e levava. E a turma “Vamos cantar no dia tal” e a gente ia, não tinha outro jeito. Com o pedido dela, “Vou pensar”. Pensei e achei interessante tentar. E estamos aí.

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