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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 14/18

Dei aulas de canto e violão na penitenciária

Max Eluard – Você pensou em abandonar a carreira quando cumpria a pena? Ou você esperar cumprir a pena e voltar em seguida à carreira?
Lindomar – Não, não pensei, não! Eu abandonei.
Max Eluard – Mas não pensava que poderia voltar?
Lindomar – Não. Eu tô careca assim porque a minha família tem tendência, tem careca pra daná, mas até há pouco eu estava com bastante cabelo ainda. Nessa época de cumprir a sentença, eu pegava no meu cabelo, puxava e saía tudo na minha mão. Existe um negócio chamado “cabeça quente”. A cabeça pega fogo, o cabelo cai tudo, e se você arrancar, sai tudo! Tanto é que os médicos “Você vai ficar careca! Depois nasce, mas para quê ficar com essas peladonas na cabeça?” Eu tinha uma rodelas, assim. Então, cabeça quente existe, porque fica fervendo. Não há como estar pensando em disco, não tem jeito, não! Ali com um ano de cumprimento, pedi para trabalhar, para ocupar a vida, senão o cara morre! E a lei de cumprimento de sentença, a lei de execução penal, muito sabiamente, favorece ao sentenciado que trabalha. Se ele trabalha três dias, ganha um como redução de pena. É muito sábio. Por que? Aquela pessoa que trabalha desde criança, como era o meu caso, por exemplo, se de repente parar de trabalhar, o cara endoida, enforca, mata, morre. E essa não é a finalidade da lei. A finalidade é educar. E tem aquele monte de irmãos que não estudaram e que são, em sua maioria, negras, e estão cumprindo sentença. Então, se eles trabalharem, coisa que eles nunca tiveram oportunidade, porque não tiveram família, não tiveram nada, eles não sabem nem como trabalhar, não! Para eles é uma novidade doida! Então, se você trabalhar três dias, você ganha um, cai fora mais rápido. É contado só os dias úteis, mas, poxa, já é uma baita ajuda. E comecei a dar aula de violão e canto. Escola Canto e Violão do Lindomar Castilho, do “Ébrio de Amor”, “Doida demais”. E a “Santa Maria” era o maior sucesso da época, e eu, preso. Poxa, os outros pavilhões exigiram que a escola fosse para lá também. Fiquei conhecendo todos os pavilhões. Existia, não sei se ainda existe, o pavilhão 4 que era dos chamados ocasionais. Foi lá que cumpri parte da minha pena. Existiam outros, bem diferente dos residentes. Residentes, meu Deus, o cara apenado a 100, 200 anos! Com essa escola tive que delegar poderes aos outros e eles não quiseram esse negócio. Foi um problema lá dentro, mas um problema sadio, porque nós levamos teatro para a penitenciária. O Raul Gil ajudava muito até ser assaltado umas quinhentas vezes. Aí parece que ele parou de ajudar os sentenciados. Ele ia à cadeia antes de eu ir preso. Estive com ele umas duas vezes cantando. E quando estive preso ele foi lá. Ajudou muito os colegas cantores. A Gianinni e a Di Giorgio mandaram um monte de violão, violões com probleminhas. Com um mundo de violões fizemos duplas, trios, peças, corais. Fui transferido, minha mãe não dava conta de vir até aqui. Então, pelo menos ali eu estava mais perto. Mas o regime continuou o mesmo. E o diretor da penitenciária: “Nós conhecemos sua escola. Vamos formá-la aqui!” E isso foi feito. Existem três pessoas, e que não digo os nomes, não interessa dizer, que vivem com que aprenderam comigo. Hoje tem sua escolinha, faz sua musiquinha no barzinho, na seresta, seja lá onde for.
Tacioli – Lindomar, nesse período em que você esteve preso, quem do meio artístico te visitava?
Lindomar – O Raul Gil.
Tacioli – Quem mais?
Lindomar – Sérgio Reis me visitava sempre, um cara batuta, né?! O Nelson Ned e nosso saudoso Nelson Gonçalves, que passei a ser colega de gravadora. Compus uma música pra ele chamada “Milésima seresta”, quando o Ayrton e a Lolita Rodrigues fizeram, junto com a RCA, um movimento para a gravação da “Milésima seresta” pelo Nelson Gonçalves. Ele gravou. Também gravei, como outros. Ele me deu muito apoio. O mineiro de Ituiutaba, que não é o Moacyr, somos grandes amigos. Ele é um cara espetacular, autor de “Receba as flores que lhe dou”?
Monteiro – Nilton Cesar! [n.e. Cantor e compositor mineiro projetado nacionalmente em 1970 com a autoral “Férias na Índia”]
Lindomar – Nilton Cesar [risos], a minha comadre Carmen Silva e tantas outras. Essa grande nordestina, autora de um dos grandes sucessos do Jair Rodrigues, era cantora da noite em São Paulo…
Monteiro – Roberta Miranda!
Lindomar – Um dia a Roberta Miranda, a Aida e seu marido, o Zeca Diabo, que começou comigo, foram lá me visitar. Aí ela me mostrou, “Nós vamos gravar essa música, Lindomar! O que você acha?!” E cantou o “Sabiá”. “Mas rapaz, que música bonita!” “Com o Jair Rodrigues!” “Com o Jair? Vige!” [risos] “Sem erro, o Cachorrão véio! Espetacular!” Então muitos artistas me deram muita cobertura, como o pessoal das rádios AM. Já o pessoal das FMs era um pouco afastado do nosso gênero, nos apelidavam. [risos] Tive a sorte de contar com esses apoios! A Giannini e da Di Giorgio, como eu disse, mandavam violões para nós.

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