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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 13/18

Peço perdão não só à família Grammont, mas a toda a sociedade

Dafne Sampaio – Então você não guarda nenhuma mágoa dessa condenação?
Lindomar – Não, não! Acho que todo o movimento é válido, mas que não precisa apelar para situações calamitosas, para situações “terrivelmente angustiantes” tanto para a família da vítima como para a família do acusado, para o acusado, para todo mundo. Quando é uma situação normal, não é só a família da vítima que sofre. Nós sabemos que todo mundo erra, todo mundo é passível de erros. O que não se pode é insistir no erro. Então qualquer um pode errar e um erro sempre prejudica todo mundo, não só uma família, mas toda a sociedade. Sempre que me é dada a oportunidade peço perdão não só à família Grammont, que é a família da vítima, da Eliane, mas a toda a sociedade. Não tem nada que justifique, nada! Não existe! Porém, existiu, aconteceu! Fui julgado pela nossa sociedade através da nossa Justiça. Nunca faltei a um compromisso com a Justiça, portanto, com a nossa sociedade. E o que me foi imposto foi cumprido porque eu queria cumprir. Eu estava superatordoado, com quatro dias e quatro noites em julgamento, Nossa Senhora, o cara sai do ar. Tem hora que você não vê nada, sinceramente! Não estou falando que isso acontece com todo mundo, mas o meu caso foi assim. Só posso falar do meu caso, do meu problema, do julgamento que me impuseram, muito natural e logicamente. Tanto é que quando minha condenação saiu, o doutor Valdir Troncoso Peres, meu maravilhoso defensor, uma pessoa íntegra, falou para meu irmão Osmar, “Já foi impetrado não-sei-o-quê, não-sei-quanto, e você pode levar o Lindomar para a casa. Amanhã nós conversamos”. Aquilo foi um negócio esquisito demais para mim, porque eu queria sair dali e começar a cumprir a pena. “Não, já estou cumprindo!” Assim eu estaria saindo daquele turbilhão, gente brigando lá fora, homem contra mulher, mulher contra homem, um negócio doido. E fomos para a minha casa. “Mas, gente, tenho que cumprir a pena, o que estou fazendo em casa?! Já fui condenado!” E lógico que não dormi nada. E eu caí fora! Todos os meus irmãos dormiram, já que estavam todos mortos de cansaço, depois de quatro dias e quatro noites sem dormir, sem comer, sem tomar banho. Para mim, não, eu tinha banho, tinha tudo organizado. Mas é muito pesado, para todo mundo, para as duas famílias, não é só para a família Grammont, não! Para todas as famílias! Cedinho caí fora de casa e fui bater à Casa de Detenção. Fui me apresentar, mas o diretor ainda não havia chegado. “O senhor espera aí!” Todo mundo me conhecia. Deram-me café. “Vocês estão sabendo, fui condenado!” “Você vai falar com o diretor, nós não podemos fazer nada. O senhor não passe da sala de visita!” Aí chega o diretor, que ligou para o doutor Valdir. “Olha, o seu cliente está aqui”. Nessa altura, o doutor Valdir já sabia que eu tinha sumido. Tinham pensado que eu havia fugido! “Seu cliente está aqui, está querendo que eu o prenda. Como é que eu faço, não posso?!” De lá da salinha ouvi o nego falar. “Não pode? Que história mais besta é essa?” Tudo quanto é trem do mundo dava a tal condenação. Todos os jornais em cima da mesa dele. “Doutor Luís, o senhor não está sabendo?” “Sei, mas já vem seu irmão e você vai voltar para casa”. Aí não agüentei! “Aqui não é a Casa de Detenção?” “É” “Pois estou me apresentando” “Mas ninguém pode te prender!” Não tinha uma tal carta de guia, e só depois eu me lembrei, “Puxa, é mesmo, não pode!” Essa tal carta levou uns quatro, cinco dias, moço! Nossa Senhora! Mas saiu. Fui ao Doutor Valdir e ficamos até a tarde, quando o doutor Neto me levou. Apresentei-me e comecei a cumprir a sentença.

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