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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 12/18

O movimento feminista precisava se escorar em pessoas públicas

Max Eluard – E o tempo que você passou no cárcere mudou sua vida? O que você repensou?
Lindomar – Como acontece até hoje, nossa Legislação Penal favorece, na minha forma de ver mui sabiamente, aquele cara que é primário, ou seja, não é bandido! Se acontece uma situação em que é pré-observado por quem é de direito, ou seja, pelos senhores juizes, magistrados de um modo geral, essa pessoa pode responder o processo em liberdade. Acho isso muito certo, porque até que seja provado legalmente, toda pessoa tem que ser considerada inocente. Do momento em que ela é legalmente considerada culpada, ela é culpada. Perfeito? Então, essa faculdade da pessoa responder em liberdade, aquela pessoa que tem uma família, aquela pessoa que tem coisas que garantam que ela não vá desaparecer, fugir aos ditames da própria lei. Isso aí eu acho certo, e eu passei por aí. Fui preso em flagrante e esse flagrante foi relaxado daí uns tempos, três ou quatro meses, coisa assim, e respondi o restante em liberdade até sair minha condenação. E tem cada passagem incrível! Quando fui colocado em liberdade, não tive como ficar em São Paulo, tal era o assédio da imprensa brasileira, que também precisava mandar esse negócio para fora.
Max Eluard – O furor em cima do fato também foi em função das questões feministas da época.
Lindomar –
 Na época o movimento estava nascendo e ele precisava se escorar, precisava de pessoas públicas… Acho um movimento muito certo e sério, mas que não, necessariamente, precisava se escorar em fatos lamentáveis. Elas não precisariam… Hoje já é um movimento sagrado e consagrado. Todos nós, com certeza, sempre fomos feministas, pois entendemos que somos iguais, que somos regidos pela nossa cabeça, pela nossa inteligência, pelo nosso formato de trabalhar. Em cabeça nenhuma passou que a mulher não deveria fazer isso ou aquilo. É certo que ela vem de uma luta, que nós não temos nada com essa luta, porque não fomos nós que impusemos que elas não deveriam votar. Não foi da nossa época. Mas a luta delas vem desde então, como outras tantas, trabalhistas e de cidadania. Mas tenho certeza absoluta de que, principalmente pela cabeça dos artistas, do pessoal de imprensa, que são pessoas sensíveis, são artistas da notícia, nunca passou que mulher não deveria votar, ser isso ou aquilo, que eu nem sei o que bem que proibiam que elas fossem. Sinceramente, eu nunca havia pensado nisso! Até por ignorância, por falta de cultura, eu nem sabia que elas não podiam votar! Vim a saber através do movimento delas. “Poxa, fomos votar só não-sei-quando! Temos que ganhar igual”. Sempre achei que uma pessoa pensando igual à outra tem que ganhar igual, seja homem ou mulher ou transexual. Mas movimento é movimento. É um movimento consagrado, e mais do que nunca continuamos feministas, pois entendemos que somos iguais. Mas cada um com seu formato dado pelo Criador, o homem e a mulher, cada um com suas obrigações. Então, foi realmente muito violento, muito forte.
Max Eluard – Mas o que passou pela sua cabeça na época?
Lindomar – Isso passou. Já era, não importa se sofri ou deixei de sofrer, porque se sofri, já sofri. E hoje isso não mudou a minha cabeça, continuo o mesmo feminista de antes, quando não sabia que existia o feminismo, e ele já existia na França. Eu não sabia por ignorância cultural, por falta de aprendizagem.

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