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Entrevistas de música brasileira

Lindomar Castilho

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Lindomar Castilho

parte 10/18

Antes de rifar o meu coração, rifei o violão da serenata

Monteiro – Seus maiores sucessos, principalmente da fase 70, são composições suas. Quando você começou a compor?
Lindomar – Composições minhas e de um parceiro, que está novamente na ativa, o Ronaldo Adriano. Ele esteve um pouquinho fora com o ocorrido comigo em 81. O baque foi muito grande para ele também. Ele foi embora para Uberlândia, passou para uma religião que o proibiu de compor música popular como daquelas que compúnhamos. Ele também ficou um tempão afastado. Bom, comecei a compor ainda na Continental, uma música mais ou menos sacra, que é a “Aleluia ao amor”, que depois a gravei na RCA e para fora do Brasil. Fiz algumas músicas sozinho e só depois firmei essa união com o Ronaldo Adriano.

O cantor e compositor mineiro de Capinópolis Ronaldo Adriano. Foto: Reprodução

O cantor e compositor mineiro de Capinópolis Ronaldo Adriano. Foto: Reprodução

Tacioli – Que outros sucessos você compôs com o Ronaldo?
Lindomar – Nosso maior sucesso foi “Eu vou rifar meu coração”.
Max Eluard – De que ano, Lindomar?
Lindomar – Em 78, 79. Esse negócio de época sou meio… Acho que foi na década de 70, quando as gravadoras começaram a colocar no LP “Produção 1971”, sabe? Antes não punham, não! Guardo à toa uma coletânea para a minha filha, porque o negócio dela é música clássica. [risos] Mas estou guardando.
Cirino – E como era seu processo de composição?
Lindomar – Às vezes estávamos batendo um papo e pintava uma idéia. Anotávamos aquilo. Ou da conversa com o Ronaldo saía um tema. Como o Lupicínio Rodrigues, o Ronaldo também é crioulo e só gostava de loura. [risos] Tínhamos que guardar seu dinheiro para ele não torrar tudo. [risos] A loura!! Uma loura dessa, namorada dele, tinha um ciúme doido, e uma vez tentou contra sua vida. Jogou álcool no corpo e botou fogo. O negócio foi feio, mas um lençol na hora abafou o fogo. “Essa mulher é doida demais!” E saiu a música. Quer dizer, não descrevemos o fato real, mas sim a causa. Ela pegava no pé do crioulo, não era mole!
Tacioli – E como foi composta “Eu vou rifar meu coração”?
Lindomar – Antes nós não estávamos rifando coração nenhum. Estávamos rifando um violão da serenata. [risos] “Pô, bicho, se a gente rifasse o coração?” [risos] Aí mudamos a temática da música. E “Camas separadas” é uma música muito séria, que versa sobre um casal com filhos que se desentende. A música diz que esse casal deve continuar junto em função direta de seus filhos. [recita] “Até que os nossos filhos cresçam e possam seguir suas estradas”, e por aí afora. Diz respeito a conviver na mesma casa, ainda que em camas separadas. Naquela época não existia essas camas separadas que existem hoje. Cama de casal era cama de casal, mesmo!
Monteiro – Essa é aquela [canta] “Na frente deles vou te chamar de querida, e você vai me chamar de meu amor”?
Lindomar – Na frente deles, é na frente dos filhos. “Eu amo a sua mãe” “Não, a minha, não!” “Não cara, a gente está falando com o filho da gente. Ó meu filho, ó minha filha, eu amo a sua mãe! Não é a mãe de ninguém, não!” [risos] “Eu amo a minha esposa, que é a sua mãe, que me deu você!” E turma na época, “Mas esse título?”…

Monteiro – Mas as pessoas entenderam de outra forma?
Lindomar – Com certeza. “Nós somos dois sem-vergonhas” é interessante. [recita] “Nós somos dois sem-vergonhas / Em matéria de amar / Você porque vai e volta / Eu por lhe deixar ficar”. Isso acontece até hoje e vai acontecer direto. Parece que essa música anda por aí porque a dupla Rick & Renner regravou. Foi um outro estouraço! No programa dominical do Silvio Santos tinha o horário dos calouros. O Silvio também levava cantor profissional para lançar suas músicas. E tinha o corpo de jurados, composto, dentre outros, pela nossa maravilhosa Aracy de Almeida, que era autêntica em tudo, no cantar, no compor, no falar, no proceder, no dar uma nota. Seriíssima. Ela era linda interiormente, linda artista. Agora, em termos físicos, ela não era bonita! [risos] E um jornalista metido a músico, que falavam que era maestro, mas não era nada, somente pianista, o Zé Fernandes, que fazia o tipo mau. Tinha a Aracy que dava a nota, que era dela mesma, nota séria, na concepção dela. Tinha também a mocinha que só dava 10 e o Zé Fernandes que só dava zero e brincava e brigava demais com a Aracy. A Aracy ficava com raiva e saía de cena. E o Silvio precisava ir lá, “Não, calma!”. “Aquele sem-vergonha”, a Aracy xingava o Zé Fernandes no ar. [risos] E aquilo era o maior sucesso da parada! E o Zé Fernandes, sabedor disso, pegou o ponto. Então imaginamos um idílio entre o Zé Fernandes e a Aracy [risos], vocês estão entendendo?! Todo domingo eles saíam brigados, mas no outro eles estavam de volta. “Você vai e volta / e eu por lhe deixar ficar”. E aí nós gravamos a música na RCA. A gravadora levou o Silvio no estúdio para ouvir a música. Falávamos que era o idílio, que eles namoravam. Claro que o Silvio sabia que tudo isso era brincadeira. O Zé Fernandes achou bom pra caramba. “Nessa nós arrebentamos!” E não falaram nada para a Aracy, não! Bom, chego lá e canto um sucesso. “Agora é um lançamento da RCA. Essa música foi composta por mim e pelo Ronaldo, e foi baseada na vida de dois participantes do corpo de jurados”. O Silvio adora isso. “É fulano?!” “Nãoooo!” “É sicrano?!” “Nãoooo!” [risos] Rapaz, quando sobraram somente o Zé Fernandes e a Aracy de Almeida… “Eu sabia! Isso é para eu ir embora!” Aí a cercaram. E o Silvio, “Mas qual é o nome da música?” “Nós somos dois sem-vergonhas” [risos] Ela virou bicho! Foi um sarro! Seguraram a Aracy na marra. Eu tinha que ir lá e cantar para ela. Tenho um respeito pela Aracy! Mas tinha que ir, porque fazia parte do lançamento. Esse negócio foi um “tirombaço” nesse Brasil afora. Nasceu estourado. “Pooooom!” Segunda-feira, a música estava em primeiro lugar. Já se fazia promoção. Segunda-feira todas as rádios meteram a música em um horário só.

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