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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 8/16

Meus primeiros amigos foram Jorge Aragão, Zeca Pagodinho...

Tacioli – Lenine, em uma entrevista, você disse que depois de gostar do progressivo afirmou que ele era cafona demais, né?
Lenine – É verdade! [risos] Essa palavra “progre” ficou associada àqueles tecladozinhos, aquelas coisas meio…
Max Eluard – Rick Wakeman.

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Rick Wakeman era a coisa mais sensacional!

Palavra Cantada

Lenine – Caraca, talvez por isso, não sei se vocês perceberam, mas nunca toquei muito com tecladista.
Max Eluard – É verdade.
Tacioli – Nesse sentido: você já produziu algo que, anos depois, falou “Aquilo era cafona pra cacete!”?
Lenine – Pô, não quero nem levantar isso, lógico que sim, cara! E se eu puder você não descobre isso de jeito nenhum…
Tacioli – Fale duas…
Lenine – Eu não vou falar, não! [risos] Eu quero que esqueçam! Eu quero que esqueçam disso, cara! Agora a gente fazendo uma temporada no…
KK Mamoni – [interrompe a fala de Lenine e cantarola] “Não se reprima!”
Lenine – [risos] A gente está fazendo uma temporada e chega um cara todo dia no show no Sesc…
KK Mamoni – Todo dia o cara vai lá.
Lenine – Todo dia o cara vai lá com uma pérola dessa: Xarada, uma banda que eu…
KK Mamoni – Vou achar…
Lenine – Não faça isso! É, faça isso! [risos]
KK Mamoni – Eu vou achar… [risos] [procura no banco de imagens do celular] 
Lenine – Tem várias coisas no processo (que são cafonas), lógico que sim. Agora tenho certeza que qualquer criador é assim… [risos]
KK Mamoni – Lógico, demais! [mostra uma foto da banda Xarada, da qual Lenine foi um dos integrantes. Lançou em meados dos anos 1980 três compactos. Tinha a seguinte formação: Lenine, voz e guitarra, Caxa na guitarra e vocal, Fábio Girão no baixo e vocal, Duda, bateria e vocal, e Sartori, teclados e vocal. O quinteto protagonizou a banda Heavy Trap’s no filme Os Trapalhões no Reino da Fantasia, de 1985]
Lenine – Demais de ruim, né? [risos]
KK Mamoni – Menudo com…
Max Eluard – Pré-Menudo!
Natale – Genial! Gente, não tô achando Lenine aqui. Vige Maria, rapaz, charada com X! Nunca se sabe…

Capas do compacto do grupo Xarada e do LP Asas da América (1983), em que Lenine e Lula Queiroga interpretam "Grande Fla-Flu", de Carlos Fernando. Fotos: reprodução

Lenine – É! E a música [canta]: “Droga, droga, droga / Nós somos dependentes da droga”. [risos] Mas da droga do dinheiro que melhora tudo, da droga do relógio que controla a hora, da droga do cigarro que se joga fora. [risos] Não, não é legal, não, cara!
Max – Mas o que foi esse momento? Foi uma tentativa de estourar?
Lenine – Momento de tentativas, momento de tentativas. Na verdade, depois de muitos anos, eu assimilei o golpe e entendi o que se deu…
KK Mamoni – [Interrompe] Tem outra! Está ficando mais sério!
Tacioli – Pô, demais!
Natale – [risos] Deixa eu ver…
KK Mamoni – Aqui, ó, no cantinho. Tem Elba, Alceu, uma galera aí.
Lenine – É um disco de frevo.
Natale – Ah, tá.
Tacioli – Mas você não estava sozinho aí, né, Lenine? [risos]
Lenine – Tinha vários iguais a mim. Aí eu posso dividir… [risos]
Tacioli – Dividir o boleto.
Lenine – Depois eu tentei entender o que se deu. É um achismo: apesar de ser um lote de paraíba, porque a maioria (desse núcleo de pessoas) era nordestina, a gente só se entrincheirou porque se viu estrangeira no Rio. Era uma maneira de se fortalecer. O fato é que a gente nem fazia rock, nem fazia mpb, nem fazia samba. A gente fazia festa e gostava da história de misturar as coisas, de não se contentar em repetir fórmulas. Isso foi basicamente o que me empurrou. Passei a ouvir rádio de mpb dizer “Mas o som dos caras é meio rock and roll”; as rádios de rock and roll, “Isso é muito mpb!”. Aí no samba. 1981, Rio de Janeiro, caio de paraquedas no Cacique de Ramos antes de estourar, antes de Beth Carvalho. Então, meus primeiros amigos foram Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Sombrinha, essa moçada do Fundo de Quintal. Eu fui lá e dei uma de paraíba. Estava louco querendo voltar, porque eu não via a dificuldade da história… Teve muito isso, uma certa falta de diálogo pelo tipo de hibridagem que a gente fazia. Acho eu… E isso terminou sendo o plus da história. Hoje eu vejo a música intercambiando ideias por todo o canto.

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