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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 7/16

Sempre persegui uma certa estranheza

Max Eluard – Essa coisa que você falou do mundo ter sorrido amarelo pra você, percebo um pouco isso na evolução da sua carreira, que você nunca teve um momento de estourar; a construção foi muito gradativa, pela insistência, né?
Lenine – Cabeça dura! Eu fui cabeça dura, todo mundo dizendo: “Não, não vai, não vai!” “Eu vou!” [ri]
Max Eluard – E mesmo com o mundo sorrindo amarelo.
Lenine – É, mas veja bem: sempre achei que o que eu faço é muito coletivo também, né? Eu não estava sozinho naquele momento quando cheguei no Rio. Tinha um núcleo de pessoas que, assim como eu, também estavam procurando se expressar. E que a gente conviveu esse tempo e talvez esse tempo tenha maturado um filtro.
Tacioli – Quem eram essas pessoas?
Lenine – O Bráulio Tavares, o Lula Queiroga, o Ivan Santos, o Dudu Falcão. Era muito mais gente. Teve um momento em que morávamos Alex Madureira, Júlio Ludermir. Era um núcleo, era quase uma Faixa de Gaza, sabe? [risos] Era um território ocupado de paraíba.
Max Eluard – De resistência…
Lenine – É! [risos] E aquele núcleo foi um exercício muito bacana: primeiro de coletividade e de criação, porque era um estímulo diário de um com o outro. Durante muito tempo, a gente se encontrava no final da tarde pra contar o que viveu em forma de verso, no improviso…
Natale – Que legal.
Lenine – E isso era diário, cara! Então, isso fez com que o sarrafo ficasse alto, sabe?! [risos] Até hoje, o que eu faço, faço tentando agradar essas pessoas, para que elas digam “É isso mesmo!”…
Max Eluard – Uma fidelidade…
Lenine – É quase canina. [risos] Mas é de uma turma…
Cirino – Uma matilha…
Lenine – É, que conviveu, que pensou muito aquilo que fazia, que não era somente intuição, não! Tinha muita conversa. Eram pessoas de nichos completamente diferentes se estimulando… Se (o cara era) estimulado, ele queria fazer aquela pra chegar no outro e dizer: “Ah, é?! Agora olha o que eu fiz aqui…”. “Pô, ah, é, então vê essa que eu fiz.” Então, não por acaso, esses caras continuam sendo meus parceiros mais assíduos.
Max Eluard – E nessa época, pra viver, tinha que pagar as contas, o aluguel. Como era essa batalha?
Lenine – Era difícil, amigo! Até vender livro eu tentei. Você lembra do Círculo do Livro?
Natale  É?
Lenine – Olha que roubada, bicho! No primeiro mês, descobri que estava devendo, porque a primeira coisa que eu fiz foi pegar duas enciclopédias que eu queria, inclusive uma de Química! [risos] Já comecei devendo! Aí, a Aninha, minha mulher, disse: “Bicho, isso não vai dar certo, não!” [risos]
Tacioli – Mas, com você batalhando a música, teve um momento que deu aquela “Será que é isso mesmo?”?
Lenine – Dá até hoje, cara! O “será?”?
Tacioli – É?!
Lenine – Eu não tenho essa certeza toda. Eu tenho certeza de algumas coisas, mas quando você tá frágil… O ser humano é o ser humano, velho! Quando você acorda com ovo esquerdo, porra, desculpa! [dirigindo a palavra à Manoela Ziggiatti] Mas quando você…
Tacioli – Acorda com o ovo esquerdo… [risos]
Lenine – O ser humano tem essas coisas, tem um relevo, a vida tem um relevo, você tem o dia em que está frágil, e quando você tá frágil, você tá frágil, bicho! Você não acredita em nada, você duvida de tudo. No outro dia você é o tampa. [ri] É assim, cara, é assim! Eu continuo tendo certeza de que minha opção foi certa, tendo certeza de que o que faço realmente, quando eu faço, eu me entrego nesse fazer. É muito coerente o que eu faço, tem uma utilidade além de entreter. Isso também com certeza. Então, eu sei dos desdobramentos. Hoje eu posso mensurar isso… E me orgulhar…

Meu Beatles é uma mistura de Zeppelin, Police, Zappa…

Tacioli – Quais são os desdobramentos?
Lenine – Me orgulho, por exemplo, de a cada mês ter um livro didático me pedindo uma autorização para imprimir uma música minha, uma letra… Ô, cara, isso é o melhor!
Natale – Engraçado, pessoalmente, eu te encontro muito pouco…
Lenine – Ahã.
Natale – Acompanho sua carreira à distância, mas eu me lembro de uma vez, na gravação do (disco) Aos vivos, do Chico César, em que emprestei meu violão pra ele. Foi quando eu te conheci. Depois a gente foi de carona, todo mundo para casa do Chico ali na Apinajés…
Lenine – Isso…
Natale – Eu estava tirando seu violão do carro, quando te perguntei: “Pô, Lenine, você vai ficar um tempo aí?” “Não, eu vou embora amanhã cedo”. Já era madrugada… “Tenho que fazer isso e aquilo!” A gente tinha conversado um pouco, mas você me pareceu muito determinado. Achei que era uma pessoa que estava realmente querendo e construindo alguma coisa.
Lenine – Ah, que bom!
Natale – E eu nunca esqueci disso: dessa sua…
Lenine – (…) Determinação!
Natale – Convicção!
Lenine – É, é…
Natale – Você estava construindo algo, você não tinha chegado…
Lenine – Não sabia, nem sabia.
Natale – De uma certa maneira, tinha uma fragilidade…
Lenine – Total!
Natale – Mas tinha uma disciplina, né?
Lenine – Tinha uma disciplina e tinha, sim, esse objetivo de querer levar além. Não me contentava fazer aquilo; eu sempre persegui uma certa estranheza, cara! Eu não gostava da posição muito cômoda.
Cirino – De se encaixar numa gaveta…
Lenine – De se encaixar numa gavetinha. Sempre isso me incomodava. Então, das músicas, parei processos infinitas vezes porque aquilo me remetia a alguma coisa. Sabe uma coisa de perseguir outra beleza? Não sei se eu tô falando alguma… [risos]
Max Eluard – Não, faz sentido.
Lenine – Mas tinha uma coisa de perseguir uma certa estranheza no fazer, na associação de palavras e de sons, na criação de uma melodia, de uma ponte harmônica ou de um riff.
Max Eluard – Isso é claro nas suas músicas, mas, ao mesmo tempo que tem uma busca pela estranheza, tem um diálogo com o pop muito forte, né?
Lenine – Ah, sim! Aí é Zeppelin na cabeça, né, velho? Eu sou Zeppelin, Zappa: o Z & Z…
Max Eluard – É o rock! Tem que ir pra galera, tem que dar mosh, tem que pular e tem que ter gente embaixo.
Lenine – É essa coisa de entrega mesmo, de uma atitude! Essa coisa de voz e violão é sem banquinho comigo, entende? Não tem banquinho, velho!
Tacioli – E em casa, você ouvia o Zeppelin e o Zappa e seu pai ali?
Lenine – Lógico, cara! Meu Beatles é uma mistura de Zeppelin, Police, Zeppelin, Police. Tem momentos em que é mais difícil de você digerir Zappa, né? Não é o caso do Zeppelin, que a discografia é toda muito boa. O caso do Police…
Max Eluard – Só tem lado A.
Lenine  Só tem lado A! O Zappa foi muito transgressor, tinha umas coisas que ele não queria (fazer), queria só encher o saco de todo mundo. Era meio chato, né? Não sei, pra mim era chato ali, naquele momento adolescente.

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