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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 6/16

Durante muito tempo o mundo sorriu amarelo pra mim

Tacioli – Lenine, você falou que está com 53 anos. Falamos sobre a infância, adolescência… Como é a sua relação com o tempo, com o envelhecimento?
Lenine – Um pouco frustrado, porque eu queria ter uma cabeça assim, grisalha, mostrando os cabelos (brancos)… [risos] [n.e. Referência à cabeça prateada do entrevistador] Eu tô dizendo sinceramente. Tem (amigos que dizem): “Cara, tá pintando o cabelo?”. “Não, meu irmão, tenho pelinhos brancos aqui (no rosto)…”
Max Eluard – Mas não aparece…
Lenine – Eu tenho esse problema também: imberbe. Não tenho barba e o meu desejo de adolescente era ter uma barba fechada. [risos]
Tacioli – Karl Marx.
Lenine – É, não era nem pelo Marx, mas sei lá, tem um sentindo de virilidade…
Tacioli – Uma barba vistosa…
Lenine – Eu nunca tive, cara, nunca tive. Eu tô brincando. Eu só comecei a fazer conta depois do nascimento do primeiro neto. Te digo de coração: nunca tinha parado pra fazer conta assim, mas quando vi meu filho sair com o filho, eu fiz conta. Desejei ficar o máximo de tempo! [risos] Eu não fazia esse tipo de conta, não!
Tacioli – Mas tem algum tema interior, algum mistério que te aflige?
Lenine – Que me aflige? [silencia] Não, o mistério não me aflige não, cara! Eu sou louco pelo mistério, adoro o mistério. Isso não é uma coisa que me causa aflição. Aliás, eu sou aquele cara que adora desmistificar, mas sou louco pra essa minha desmistificação ir por terra. Eu fico procurando o tempo todo, mas tô sempre questionando. Então, o mistério é uma coisa fundamental. Pra mim, até hoje é um mistério como ainda eu me divirto fazendo o que eu faço há tanto tempo. É um mistério isso de eu estar com pessoas há tanto tempo; casamento é difícil, imagina. E você conviver trabalhando com uma pessoa há mais de 20 anos e isso ser celebrado a cada dia que se encontra é um mistério! A música é um grande mistério. Tem uma corda interna que eu vivo procurando tocá-la e eu não sei como. Eu sei quando ela ressoa, quando você acha a canção, faz aquele show, ela toca internamente. Você sente que tocou! Mas você não sabe qual a mecânica…
Max Eluard – O que disparou…
Lenine – O que disparou! E você passa a vida toda tentando tocar essa corda. [risos]
Max Eluard – Acertar de novo…
Lenine – É isso.
Tacioli – Então vou mudar (a pergunta): você tem algum medo?
Lenine – Medo? [silencia] Medo, medo eu tenho. Em pequenas dosagens é um companheiro bacana. Você também não pode ser tão louco de se atirar nas coisas sem ter um pouco de receio, um pouco de medo, né?
Natale – E você teve muito receio quando saiu de Recife? Afinal, já era para mergulhar na música, não?
Lenine – Era mais ou menos pra isso. Não, aí eu não tinha medo, não, não tinha receio, não. Essa confiança foi o que me trouxe aqui, porque durante muito tempo o mundo sorriu amarelo pra mim. Como outros parceiros e outros amigos, eu poderia ter facilmente optado por outro caminho. Eu não sabia onde eu chegaria com isso, mas eu tinha certeza da qualidade do que fazia, cara! Eu tive um laboratório pra fazer isso, eu mensurava, eu tinha um berço. Eu tinha informação suficiente para fazer analogias, equiparar as coisas. E aí muito cedo eu também disse assim: “Ah, eu tenho que fazer. Foda-se o resto!” Eu tenho é que continuar fazendo o meu (som), sendo honesto com esse ímpeto, que é o desejo de fazer. É ser honesto com orgulho e se sentir bem pra tocar alguém com aquilo que você faz. Sentir-se útil. Era sempre esse o objetivo da história.

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