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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 5/16

Meu pai queria o socialismo

Max Eluard – Agora, essa coisa política ficou muito em você, esse olhar pro mundo politicamente.
Lenine – Ah, sim, ah, sim, porque foi um exercício diário. O lado do almoço era com minha mãe. É mais sagrado e ele respeitava, mas a plenária era no jantar e gente conversava sobre tudo. Era um exercício bacana.
Max Eluard – Você lembra de alguma dessas discussões do jantar que te despertou, que te fez sacar uma coisa?
Lenine – Muitas! Eu não tenho nem como eu te (contar). Foram muitas porque meu pai queria o socialismo na sociedade. Não rolou, ele pregou em casa. Tadinho, o cara sofreu. A gente podia tê-lo poupado tanto. Mas talvez eu não tivesse, como tenho até hoje, dois grandes amigos, além do pai e da mãe, sabe? Ele com 90, a mãe com 87, uma lucidez danada… Mas ele tinha isso: no jantar a gente conversava de tudo. Eu me lembro quando ele me aplicou Augusto dos Anjos numa mesa. Ele era apaixonado por Augusto dos Anjos. [n.e. Poeta pré-modernista paraibano, 1884-1914] Aí ele falou: esse cara só fez uma (poesia), não-sei-o-quê. “Pô, mas eu quero ler isso!” Ele disse: “Ah, tá bom, tem que ler isso aí, mas tem que ler também João Cabral…”. Ele já desviou a atenção e deu dois destinos: “João Cabral é o meio do caminho entre Drummond e… [risos]
Natale – Pô, ligeiro…
Lenine – Ele tinha isso de cultivar a curiosidade nos filhos.
Natale  Que legal…
Max Eluard – De atiçar…
Lenine – É.
Tacioli – Mas antes desses escritores, quais eram os seus ídolos?
Lenine – Rapaz, é engraçado, porque eu não tinha ídolo. Nessa época a gente não tem ídolo. Tô falando de nove, dez anos, tudo é conversa. E a gente conversava sobre tudo. Ele é que, por ser um cara da literatura, da poesia, que estava sempre declamando alguma coisa. Eu me lembro do impacto dele declamando: “Eu, filho do carbono e do amoníaco, sofro desde…” [n.e. Trecho do soneto “Psicologia de um vencido”] Eu me lembro que Augusto dos Anjos impregnou, embora eu não dimensionasse o que era Augusto dos Anjos, nem aquelas palavras. Marcou minha vida aquele momento de reunião. Só vim entender Augusto dos Anjos muitos anos depois. Mas ele estava lá desde a infância, assim como [declama]: “Meu coração é um velho alpendre em que se escuta pela noite morta / Som de um passo e o gonzo de uma porta que a umidade dos tempos enferruja / Quem vai passando por essa estrada torta que leva ao alpendre / Dessa estrada, fuja! / Pois lá se encontra a fúnebre coruja e a dor que a prece o caminhante exorta / Mas se um dia, entrares no casarão sombrio, e um abrigo buscares contra o frio / Doce criatura lúgubre / Fugirias, tremendo, vendo ao lado a crença morta / O sonho estrangulado / E o cadáver do amor banhado em sangue.” [n.e. “Coração”, de Jonas Fontenele da Silva, 1880-1947] Pra uma criança ouvir isso é uma coisa dantesca. Aquelas palavras me tocavam sem a compreensão. Tanto era isso como era Patativa do Assaré, tanto era isso como era ver os maracatus. Eu morria de medo, porque aquilo era muito poderoso para uma criança. Me lembro de ver no domingo à noite, com meu pai, o Velho Faceta. [n.e. Personagem criado pelo pernambucano Constantino Leite Moisakis, 1925-1986] [canta] “Mamãe eu quero me casar…” Meu pai deu isso pra gente, deu estímulo pra cacete. Durante anos, a gente se correspondia por charada, olha que loucura! Então ele estimulou a nossa curiosidade, de não se satisfazer com a primeira. Isso é tão bacana!

Lenine e seus pais José Geraldo e Dayse Pimentel na Praça Vermelha, em Moscou. Foto: Acervo pessoal

Max Eluard – Como pai, ele conseguia se livrar de alimentar uma expectativa (profissional) em relação a vocês?
Lenine – Ouvi dele quando disse que estava pensando em ir pro Rio. Estava no terceiro ano de Engenharia Química. Ele olhou pra mim: “E por que está demorando tanto?” [risos] Em contrapartida, ele jogou toda a responsabilidade na minha mão. Pela confiança, né? Os dois são muitos especiais. Até porque, na época em que eu era adolescente, isso faz muitos anos – tô com 53 – todos os meus amigos queriam ir lá pra casa, bicho! Papai tinha uma ligação com a dialética… Se a gente estivesse num papo aqui, e alguém tivesse com um argumento mais frágil, ele colava (nessa pessoa). Aí começava a dizer, “Mas, veja bem, o que ele está falando” [risos] e começava a dar gás, o exercício (da dialética)…
Manoela Ziggiatti – Qual era a profissão dele?
Lenine – Olha que loucura! Queria ser padre e terminou contador da Bolsa de Valores. [risos]
Max Eluard – Socialista trabalhando na Bolsa de Valores.
Lenine – É muito bacana…
Max Eluard – O segredo é saber conviver com a contradição…
Lenine – É, equilibrar as coisas.
Tacioli – E sua mãe…
Lenine – Mamãe é que é a grande história. Levei anos para entender isso, porque é fácil a gente se inebriar com o carisma do meu pai. Mas quem segurou a peteca foi ela, bicho! [risos]
Natale – E você costumava ir pro sertão, Arcoverde, aquela região, ou a sua infância e a adolescência foram distantes do sertão?
Lenine – Fui depois, já com 16, 17 anos. Aí o rock já tinha acontecido e aquilo chacoalhou a minha vida. Mas a coisa era mais litorânea. Era bem mais litorânea! Depois fui ver Missa do Vaqueiro, Serra Talhada… Aí você tem a história de toda a zona canavieira, distrito da cana. Isso fez com que acontecessem outros tipos de expressões populares bem interessantes e bem mais misturadas, bem mais contemporâneas. E a gente ia atrás das coisas estivessem acontecendo. Mas continua fazendo parte dessa área do interesse, da curiosidade…

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