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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 4/16

Eu tinha dificuldade de lidar com o ser humano

Tacioli – Lenine, você falou que começou criança essa história de coleção. Tem alguma aventura desse período que você se lembra lá em Recife?
Lenine – Ah, várias, cara.
Tacioli – Uma inesquecível?
Lenine – A Recife que eu trago na memória é uma Recife repleta de infância… A história dos manguezais… Não é gratuito que alguns anos depois surgiu o Mangue (Beat). Recife é construído palafitado em cima disso, de um ambiente (de manguezais). Qualquer garoto de minha idade, quero dizer, garoto de minha idade [ri], mas naquela época, qualquer garoto tinha uma relação muito próxima com o mangue. Qualquer um com nove, dez anos, sabia que, quando trovejava, era a hora de correr pro mangue para a andada. A história é muito bacana: quando começa rebombar os trovões, ele ecoa por debaixo, que são dutos que os crustáceos constroem. Aí, o som fica pior (mais forte) e eles não entram no buraco. Então, a coisa melhor do mundo é pegar caranguejo de andada. É só lama e “uhuuu” [risos], agarrá-los. Tive uma infância de muita natureza, de muito mar, muito mar, muita praia. Praia e mangue.

Prontos para festa junina: Lenine é o terceiro da esq. p/ dir. Foto: Acervo pessoal

Tacioli – Tinha um parceiro?
Lenine – Muitos. Aí era de turma, era gangue, velho. Tinha aquela turma da rua, do bairro. Depois, com oito pra nove anos de idade, papai vai pra Boa Viagem. Boa Viagem naquela época ainda era um balneário da cidade de Recife. Aí começa a crescer exponencialmente. Eu já (curtia) pegar onda. Aí colei na moçada de pegar onda… Pegar onda, durante alguns anos, era descobrir praia. No Nordeste o que mais tem é praia e fui meio rato de praia. Era o cara que, além de pegar onda, tinha o violão, tocava e animava a história. Então foi uma infância e uma adolescência muito bacana.
Tacioli – Com o violão, você acaba se tornando a figura central nessa turma? Existia isso mesmo, Lenine?
Lenine – Eu era do violão porque tinha uma dificuldade muito grande de lidar como ser humano. O violão era o meu salvo-conduto, eu não podia explicar muito. Eu sou um cara muito tímido. Não tinha muitos amigos, não. Tinha uma incapacidade de lidar com as pessoas.
Giovanni Cirino – Você surfava?
Lenine – Surfava, mas eu era mais do jacaré. Gosto é do peito. Na época era madeirite. Pegava um compensado, dobrava. Eu tinha tanto o sonrisal, que era pra folha d’água, e a madeirite simulando uma tábua de passar. (Uma tábua) arredondado: você amarrava na ponta, no fogo, e ia dobrando. [ri] De vez em quando pegava na costela.
Max Eluard – Essa tendência antissocial durou até quando?
Lenine – Acho que todo adolescente é meio assim. A não ser o cara mais bonitão, mais gostosão, o cara do esporte tinha uma facilidade de lidar… Não foi o meu caso, não. Eu tinha uma certa dificuldade.
Max Eluard – Mas era uma timidez ou era uma falta de interesse nas pessoas?
Lenine – Não, tinha interesse e tudo. Eu estudei durante muitos anos num colégio salesiano, um colégio só de homem. Só segundo ano científico começou a ficar misto. E era um misto maluco: em cada sala, 30 homens e três meninas. Era uma loucura. Eu tinha uma incapacidade de lidar com sexo oposto naquele momento. [risos] Não quer dizer que eu resolvi isso, não! Até hoje eu tenho uma certa dificuldade. [risos] Mas quando descobri a música, ela facilitou muito a coisa da relação com as pessoas.
Natale – Como foi essa descoberta da música, do violão?
Lenine – Lá em casa todo mundo tocava um pouco. E uma história que eu já repeti pra cacete: meu pai acreditava que a música era a conexão com o divino. E a gente, aos domingos, ficava em casa ouvindo música. Era um ritual mesmo!
Max Eluard – Quase religioso…
Lenine – Era religioso! Não canso de falar: o ateísmo do meu pai vem pelo cristão. Ele chega ao socialismo pelo cristianismo. Ele está pra ser padre, bicho, e aí se apaixona pela minha mãe. Resultado: ele foi o primeiro cara que me chamou a atenção para a diferença entre o cristão e o socialista. É simplista, obviamente, mas é poético, é bonito. Ele diz que a diferença entre o cristão e o socialista é a morte. Como assim? Um batalha pra depois da morte ter o paraíso. O outro está querendo o paraíso antes de morrer. [risos] É poético.
Natale – Genial
Lenine  É poético. [ri] [n.e. A admiração do pai de Lenine, Seu José Geraldo, pela Revolução Russa de 1917 e por um de seus principais líderes, Vladimir Lenin (1870-1924), rendeu ao filho seu nome de batismo e artístico]

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