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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 3/16

Catalogar as coisas vem de criança

Tacioli – Lenine, você falou que não brinca de Deus…
Lenine – Não, eu não gosto, eu gosto das espécies. Isso não quer dizer que, se você quiser me dar (uma orquídea)… Eu levo tudinho. [ri]
Max Eluard – Você não é um purista. Em seu orquidário não tem só…
Lenine – Não, tem tudo, mas eu tenho uma predileção…
KK Mamoni – Pergunta quantas plantas ele tem lá.
Max Eluard – Seiscentas, não?
Lenine – Seiscentas espécies! Eu tenho de cinco a seis mil plantas.
Tacioli – E quem é o zelador?
Lenine – Ninguém, sou eu!
KK Mamoni – Ele tranca tudo, ninguém entra…
Lenine – É trancada. Eu construí uma coisa meio que inteligente… Foi fácil perceber que, como durante muito tempo essa coisa estava associada à hobby de rico, porque estava mesmo – ou o cara tinha que ser um cientista ou muito rico pra ter isso –, a maioria dos orquidários foram importados de britânicos, alemães ou franceses. Os caras inventaram o termo estufa, que é um ambiente fechado, pra tentar simular o que acontece de graça aqui pra gente. Os caras importaram isso e acabaram com as plantas. Aí tem fungo, dá todo tipo de bicho, porque tá tudo fechado, não tem ventilação. Percebi isso. E percebi outra coisa também: pelo fato delas serem aéreas, o eixo da planta tem uma importância fundamental. Eu não entendo como ninguém sacou isso. Você pega uma planta, se ela tá na natureza, ela tá agarrada numa árvore, ela não muda posição. Por exemplo: se você tá cuidando dela e a tira daqui e bota ali, ela vai passar um ano adormecida tentando entender o que aconteceu, porque pra ela a árvore caiu. Simples assim! Então, o eixo da planta é uma coisa fundamental. Eu saquei isso. Aí fiz um espaço pra cuidar das minhas plantas levando em consideração algumas coisas, como a hidratação. Você tem que equilibrar três elementos: um é o sol – ela adora o sol não direto, então você tem que ter um redutor; uso um de 50% –; a outra é a água – ela adora água, mas tem horror à umidade. É quase paradoxal. Ela tem que lavar mesmo. Aí, digo: “Porra, tem evaporar o tempo todo”. E aí depois eu explico porque essa sacada foi bacana. E a terceira é o vento. Ela precisa da ventilação, mas ela tem horror à vento direto. Aí fiz uma piscina hexagonal, dez centímetros (de profundidade), cobri de pedra, brita, a sete centímetros do ladrão, e a partir daí eu construí um lugar. Um metro e meio de grade, poro fino pra não deixar entrar muito bicho, em cima duas cúpulas de vidro com o hexágono. Essa foi a grande sacada! O mesmo um metro e meio de grade, tenho isso em vidro. Então o ar quente passou a circular ali. Fiz prateleiras e trilhos circulares. E aí tem uma evaporação de baixo pra cima. Todas as minhas plantas abriram duas, três frentes. Foi uma sacada! E tudo com um risco no cultivo, seja no jarro ou na pet: boto um risco que está tem sempre voltado para o sol nascente. Aí posso pegar (a planta), manuseá-la, mostrá-la pra quem quiser, e na hora em que eu vou colocá-la (de volta)…
Max Eluard – (…) Você sabe pra onde ela tem que estar virada.
Lenine – Simples assim! Não uso nada químico, nada! Não uso nem um tipo de nutriente a mais nas plantas. A floração não dá aquelas 12 flores estimuladas, não! A minha floração dá seis, sete flores.

O criador e a criatura: Lenine e suas orquídeas. Foto: acervo pessoal

Max Eluard – E como nasceu essa paixão, Lenine?
Lenine – Quando a gente comprou um sítio e os meninos começaram a crescer… E tem um momento que ter que ter um lugar pra você, sei lá… Eu sempre fui muito litorâneo. A minha história foi sempre com o mar. Essa era uma possibilidade de descobrir o outro lado. Tem até a ver com um grande embate cultural que existe no Brasil entre uma cultura litorânea e solar e uma cultura mais interiorana e lunar, né? Então, foi uma descoberta. Quando a gente achou o sítio, a primeira coisa que eu quis fazer foi um pomar, para ter fruta o tempo todo. Fui ver o que é que tinha na região e pra minha sorte tinha uma planta muito estranha agarrada numa árvore. O que é aquilo? O caseiro, disse: “é uma parasita”. Ele errou, mas naquele momento eu não sabia do que se tratava. Ali já tinha começado a Internet; uns 15 anos atrás. Eu cutuquei, tirei a planta e aí fui descobrir o que que era aquilo. Aí o vírus já tinha me pegado.
KK Mamoni – Já tinha sido polinizado…
Lenine – Já, já, já…
Natale – Pô, eu fiz Agronomia por dois anos. Essa conversa podia render do meu lado, mas saí correndo da universidade… [risos]
Lenine – É um universo inebriante. Quando você tem noção do ecossistema onde ela ocorre… Ela ocorre em qualquer lugar, até no deserto. Tem uma planta que é o desejo de todo orquidófilo: uma planta subterrânea, australiana, que a floração se dá debaixo da terra, porque o agente polinizador é uma formiga. O aborígene sabe (onde ela está) porque a superfície fica escura ali. E aí ele vai, “humn, humn” e come aquilo. Tem uso medicinal e tudo. Ela ocorre no Tibete, a qualquer altitude. São plantas muito evoluídas, hermafroditas; cada flor tem os dois sexos. Imagina que sinal de evolução! [ri] É brincadeira, né, bicho? Sempre fui meio colecionador de coisas.
Tacioli – Qual foi a primeira coleção, Lenine?
Lenine – Rapaz, eu paguei um mico quando vim pela primeira vez pro Rio de Janeiro. Eu lá com meus 22 anos, paguei uma grana só de excesso de pedra que eu trazia. Eu fazia um curso de Geologia e fiquei catalogando durante muito tempo… pedras. Depois foi a época dos fósseis. E aí eu fui fazer pesquisa, Serra do Araripe e toda aquela região. Eu tinha muito (material). Então, paguei… Eram caixas e caixas. [ri] No final da conta era caixa de pedras. Mas eu também tenho um desapego com essas coleções. Eu vou doando para os sobrinhos, os filhos, os amigos. Digo assim: “Não tô conseguindo.”
Max Eluard  As pedras você não tem mais?
Lenine – Tenho.
Max Eluard – “Tenho?!”
Lenine – Tenho principalmente todas as drusas, que é como ocorrem as semipreciosas. Tenho os fósseis.
Max Eluard – Mas essa coleção está aumentando?
Lenine – Não, parou! Tem uma hora que dá uma estagnada. Por isso que eu falei que as orquídeas corriam o risco de, como outras coleções, encher o saco, sabe? Mas não é o que acontece, não, cara…
Tacioli – Qual coleção você passou pra frente e falou “foi ótimo ter me livrado dela”?
Lenine – Várias, várias. A de chaveiro que eu dei pra um sobrinho. [risos] Era muito bacana! (O meu sobrinho) tinha muitas coisas. Uma coleção de moedas bem bacana, que começava do Império, com aquelas primeiras patacas de prata e tudo… Eu já passei. A coleção de selo passei pro Fabiano, que eu também tinha muitos. Enfim, eu saio passando pra família, mas algumas eu não consigo me desfazer.
Max Eluard – Isso vem de menino?
Lenine – Isso vem de garoto, cara! Catalogar as coisas, inventariar, sabe?
Max Eluard – Tentar colher o mundo?
Lenine – É, tentar ter o mundo junto de você, é mais louco…
Natale – Como artista, você tem essa coisa de organizar o seu acervo pessoal? É tudo organizado: a produção, a primeira letra, o primeiro…?
Lenine – Não, é um caos redondo. É a Aninha, a minha parceria, que faz assim: parece caótico, mas é redondo. Eu sei onde é que estão as coisas. Ou, pelo menos, acho que sei. [risos]

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