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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 2/16

Tenho todas as turnês em forma de planta

Max Eluard – Qual é o nome científico daquela ali [apontado para uma orquídea do jardim do Espaço Revista Cult]? [ri]
Lenine – Essa aí é uma Faleanópolis, mas é hibrida, misturada… Ela é mais fácil de hibridar… Eu posso falar disso? [ri]
Max Eluard – Pode, claro!
Lenine – [rindo] Porque quem está do meu lado não aguenta mais… Eu tenho umas quatro horas? [risos] Ninguém aguenta mais. Isso é um universo…
Tacioli – A gente tem uma revista sobre orquídeas… [risos]
Lenine – Tem editor? [risos] Essa eu encaro. É um universo muito inebriante. Ela é uma Faleanópolis, uma planta que não é daqui do Brasil, é do Oceano Índico, mas ela tem um metabolismo muito rápido e é fácil de hibridar. Neguinho gosta de brincar de Deus, porque isso é um bando de Frankenstein, né? Eu não gosto, não.
Tacioli – Você brinca também de Deus?
Lenine – Não! Engraçado que na história das orquídeas o que me fascinou foi – antes da gente começar a gravar, você falou de amplitude – justamente é o que mais me fascina nas orquídeas, essa diversidade. Pra você ter uma ideia, só no Brasil são duas mil e seiscentas (espécies) catalogadas, mais ou menos. A cada ano descobrem entre quarenta e oitenta novas espécies.
Natale – Você chegou a conversar com o Itamar Assumpção a respeito de orquídeas?
Lenine – Sim, visitei Itamar, eu vi as orquideazinhas dele.
Natale – Olha que legal…
Lenine – E a gente tinha isso em comum. É um universo muito inebriante, muito fascinante. São memórias vivas. Eu fui mapeando… Tenho desde o Falange canibal [n.e. Disco lançado em 2002] todas as turnês em forma de planta. Porque a cada lugar que eu vou, faço antes uma pesquisa, um endemismo; eu gosto da coisa endêmica. E elas têm uma peculiaridade: têm plantas que só ocorrem ali naquele quilômetro quadrado. Saiu dali não existe em canto nenhum. E cada uma com sua peculiaridade, cada uma com sua característica. E isso ficou associado aos shows. Os shows também ficaram associados aos “orquidoidos”, porque faço uma pesquisa – “São Google”, né, véio?! – para encontrar os orquidólatras. E pra uns, evidentemente, tenho que vomitar no início um bocado de conhecimento. Os caras desconfiam: chego assim meio cabeludo, com brinco, não sei que lá, e digo “Eu gosto de orquídea”… Para quase 70% (dos orquidólatras) é um hobby em um determinado momento na vida. Tive a sorte disso começar muito cedo. Então o cara desconfia quando eu chego. Muitos deles nem me reconhecem, porque é uma moçada que não gosta muito de televisão. [risos]
Max Eluard – Que não ouve música…
Lenine – É, é. E é até melhor que assim seja, porque é mais rápido.
Max Eluard – A conexão se dá pelo ponto certo…
Lenine – Em comum, a paixão. Porque quando um descobre no outro essa paixão, aí você entrega tudo, você troca, vira uma irmandade. Isso passou a se associar às minhas viagens. Cada planta, quando entra no meu orquidário, ganha uma etiqueta com a espécie, o tipo de substrato onde ela ocorre, a última floração, família, espécie e o show que fiz. Por isso que eu falei que é uma memória, que eu tenho um banco de memórias. Eu tô num universo de muitas plantas. Hoje eu tenho muitas, muitas plantas. Só de plantas brasileiras, tenho mais de 600 espécies. Isso é bem significativo. E eu tenho a qualquer hora, a qualquer momento, 40, 60, 80, cem flores diferentes, porque elas são de períodos também diferentes. Então, a cada momento que eu tô lá: “Ah, essa Sofronite peguei na Serra do Cipó, no show que eu fiz…”. É uma coisa muito bacana. E em decorrência dessa paixão, da coisa da taxonomia [n.e. Ramo da Biologia e da Botânica que descreve, identifica e classifica os seres vivos], eu virei um sebeiro pra achar tudo que tinha a ver com descrição de planta. E, pô, a busca é muito generosa, me leva pra todo canto, todo canto tem sebo, cara! Em todo canto tô pegando muito material de descrição. Então, fiz uma biblioteca muito bacana. E outra: por causa dessa amplitude, dessa diversidade de ocorrências e de substratos em que elas podem nascer, fui testando umas coisas, cara! Então, hoje, quase 60% do meu lixo industrial – não tô falando do orgânico, não, que faço compostagem, mas do lixo industrial –, não existe o lixo. Eu já resolvi isso com pet, isopor, vassoura velha. Eu misturo tudo, cara! E não pego lixo de ninguém, não! É só o meu! Cada um que cuide do seu.

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