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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 16/16

Evito interpretar música dos outros

Tacioli – Lenine, a gente está quase encerrando… Só tem mais uma (pergunta)…
Lenine – Mas o papo foi bom pra caralho…
Tacioli – Lenine, de Lênin a Deus, do material ao espiritual, qual a sua relação com esses dois planos.
Natale – Pergunta bem simples.
Cirino – Só pra fechar.
Tacioli – Só pra fechar…
Lenine – Digamos que eu sou um cético tentando destruir meu ceticismo.
Tacioli – Está conseguindo?
Lenine – 
Eu tento. E me aprofundo cada vez mais. Continuo cético.
Max Eluard – Um cético sem convicção nenhuma.
Lenine – É.
Max Eluard – Ou com convicção, mas querendo que as convicções sejam rompidas.
Lenine – Com algumas convicções… É, justamente, louco pra destrui-las, louco pra destrui-las.
Tacioli – E uma outra coisa, Lenine, agora sobre divisão rítmica. Olhando para sua obra, noto a presença da divisão do ritmo na sua forma de interpretar, às vezes na condução do instrumental, como foi para Jackson do Pandeiro, Jorge Veiga, essa turma toda…
Lenine – Jorge Veiga, Miltinho… É de uma importância…
Tacioli – É um elemento que diferencia sua música?
Lenine – Talvez… Eu tenho um negócio: eu evito muito de interpretar músicas dos outros, mas isso porque eu esqueço as letras. E quando é minha, se esqueço, faço outra na hora e tudo certo, é minha obra. Quando você canta (a música do outro) é uma responsabilidade muito grande. Não é que eu evito, eu faço, participo. Agora mesmo a gente fez um projeto bacanérrimo com o Pedro Mariano que foi o Elis, por eles, em Curitiba. Ele reuniu um bocado de gente bacana. Eu me senti muito orgulhoso de estar ali no meio de intérpretes como Emílio Santiago. Sou compositor mas tem uma cadeira ali como cantor. Mas a minha coisa no cantar é muito intuitiva mesmo quando eu faço uma participação. Aí o cara diz: “Ah, vou te mandar a música pra você dar uma estudada”. Eu digo: “Não mande, não!”. Porque se eu ouço, prefiro preservar o impacto da primeira audição. Ou alguém me chama: “Ah, vamos fazer uma participação numa coisa assim? Vou te mandar a música”. Eu digo: “Não mande, não! Não quero ouvir”. O tom é mais ou menos esse, o registro é esse, esse e esse. Lá, sob esse impacto, a possibilidade d’eu chegar mais próximo da emoção é maior do que se eu estivesse sozinho em casa, construindo uma coisa unilateral. Então eu evito. Não é uma questão de não confiar no meu taco, mas por confiar nesse impacto que a música pode causa e ser fiel à esse impacto. Naquele momento você vai se pôr de uma maneira diferente. Então é assim que tem sido, eu opto muito pela intuição. E preservo essa coisa: não sou muito de cantar outros autores por incapacidade minha, por achar que não sou um intérprete, que sou cantautor, como reivindiquei aqui, mas eventualmente eu canto. Mas é difícil pra mim.
Tacioli – Lenine, tem um Lenine cover?
Lenine – Lenine cover? [ri]
Tacioli – Tem os fãs que te seguem?
Lenine – Tem, tem muitos, cara.
Tacioli – Tem?
Lenine – Tem, mas também não é Lenine cover. É engraçado porque a moçada fã termina se transformando de alguma maneira em amigos. Tem um cara, o Alexandre Pontes, que conhece a minha vida profundamente, mas ele é um cara casado, tem o trabalho dele. Não tem aquela coisa frenética. É um cara que gosta do que eu faço. Procura tudo que eu faço, tem tudo que eu jamais ousei fazer, ele tem tudo catalogado. Ele sabe de tudo e de todos. Então, tem algumas pessoas assim. Mas são pessoas muito bacanas, que têm sua vida, têm sua história pessoal, apenas têm (essa paixão) – como eu tenho por orquídeas. Alexandre é um cara assim, que terminou sendo um amigo nosso. Todo mundo conhece, ele chega finíssimo, sabe? Por isso que eu tô dizendo que sou mal acostumado até nessa moçada que se aproxima.
Cirino – Talvez a diferença entre o fã e o seguidor.
Lenine – Talvez, talvez. Tem um clima de “Eu sabia, sabe?”. Toda vez que se faz um disco novo, vem os comentários: “É, tá vendo? Eu sabia!” [risos] É muito bacana isso, né? Voltei a Bráulio: “Pioneiro não é quem descobriu primeiro / Pioneiro é que sempre soube”. [ri]
Tacioli – Lenine, acho que é isso, obrigado pela entrevista.
Max Eluard – Não sei se tem alguma coisa que a gente não perguntou?
Lenine – Porra, velho, a gente falou sobre tudo… [risos]
Max Eluard – O time do coração…
Natale – A escalação do Náutico, do Santa Cruz…
Lenine –Não, futebol gosto mais ou menos. Eu gosto das Olímpiadas; tô aí vibrando. Vocês viram o ouro nas argolas hoje? [n.e. Conquista do ginasta paulista Arthur Zanetti na Olímpiadas de Londres de 2012; é a primeira medalha olímpica da ginástica brasileira]
Natale – Então, eu li, mas não vi.
Max Eluard – O menino ganhou….
Lenine – Bicho, sem tradição nenhuma nas argolas!
KK Mamoni – A trajetória dele…
Lenine – Um ano, do zero a ser ouro.
Natale – Quero ver isso hoje.
Lenine – É uma redenção, né, velho?
Natale – E é novíssimo: o cara tem 18, 19 anos, não é isso?
Lenine – E o depoimento dele? Lindo, cara, de uma delicadeza! E a Adriana, a pugilista, vocês viram?
Max Eluard – Não, não… Hoje também?
Lenine – Pô, já garantiu o bronze. [risos]
Tacioli – Mas você tem alguma predileção por esporte, além da prancha?
Lenine – Não, gosto de tudo. E durante as Olimpíadas eu fico nos quatro SporTV. Fico zapeando tudo…
Max Eluard – E a vinheta que você fez para o SporTV?
Lenine – Na verdade não é uma vinheta, é uma canção: “Do it”.
Max Eluard – É, sim, sim…
Lenine – “Do it” gravei no inCité.
Tacioli – A primeira faixa…
Lenine – É, por isso eles vieram pedir: “A gente queria fazer ‘Do it’”. Eu digo: “Bicho, mas a gravação é ao vivo. Eu nunca gravei essa música”.
Max Eluard – Aí eles produziram…
Lenine – Aí, não, eu produzi. A gente foi parceiro. “Então deixa eu produzir, velho, que eu vou fazer diferente”. Chamei parte d’A Parede, do Pedro Luís e a Parede, juntei o JR (Tostoi) e Bruno e, porra, foi bacanérrimo! O projeto todo foi bacanérrimo! E aí ninguém aguenta mais, é só ouvir Brasileirão… [risos]
Max Eluard – Não para de passar.

Lenine – E é bacana porque a canção é toda no imperativo.
Max Eluard – É.
Lenine – “Tá cansada, senta / Se acredita, tenta.” Assim, tem algumas coisas mais subliminares, né? A história do “derreta”, que é Jules Rimet, né? [n.e. A taça Jules Rimet que ficou em poder definitivo da Seleção Brasileira de Futebol após conquistar sua terceira copa do mundo, em 1970. Exposta na sede da CBF, foi roubada no dia 20 de dezembro de 1983 e, posteriormente, derretida]
Max Eluard – É verdade, cara!
Lenine – Ninguém sacou, olha aí, dei essa bola. [risos]
Max Eluard – Derreta a taça.
Lenine – É, é.
Tacioli – Lenine, obrigado!
Lenine – Falou, cara! Obrigado a vocês, cara! Eu achei que ia doer. [risos]
Tacioli – Dói depois.
Lenine – Não, bicho, não dói, não, dói, não! Quando é assim, não dói, não tem possibilidade. Mas eu falei de orquídea pra caralho! [ri] Que bom, velho!

[Enquanto Lenine se levanta e a equipe recolhe os equipamentos]

Max Eluard – Lenine, sabe qual foi a coisa que mais me surpreendeu sobre você durante a pesquisa: que você era dos Trapa heavis. [n.e. Na verdade, o nome da banda era Heavy Trap’s]
Lenine – [risos] Você se lembra disso?!
Max Eluard – Pô, eu vi os Trapa heavis!
Lenine – Os Trapalhões mesmo.
Max Eluard – E clareou você lá.

Lenine – Era, bicho, entre outras coisas. Tá vendo como era?
Natale – Que doideira!
Lenine – A gente nem falou.
Tacioli – Ficamos no Xarada! [risos]
Lenine – Ó, mas é seis por meia dúzia.
Max Eluard – Mas o Xarada tinha os dois na frente.
Lenine – Tinha os dois na frente, porque no Xarada também são os filhos de Renato (Aragão): Duda e Caxa.
Max Eluard  Ah, cara…
Lenine – Que são amigos! Bom, eu frequentei o grupo familiar, fiz duas trilhas de filmes do Renato, trabalhei com eles, trabalhei como roteirista do Renato. Então, tenho uma relação com a família.
Natale – Muito bom! 
Lenine – Com certeza, velho, muito bom.

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