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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 15/16

Nunca me senti tão exposto quanto nesse espetáculo

Max Eluard – Tem uma coisa dele [do cineasta Stanley Kubrick] que é totalmente diferente de você: pelo que eu li, você gosta de trabalhar sempre com as mesmas pessoas, tem um núcleo que você sabe que é fiel.
Lenine – É, é.
Max Eluard – Já o Kubrick, ele desmanchava a equipe inteira…
Lenine – Ele mudava tudo. Mas ele tinha uma dificuldade de lidar com o ser humano.
Max Eluard – Tanto que o Malcolm Mcdowell, que fez o Laranja mecânica, é super grilado com ele até hoje.
Lenine – É, todos que passaram…
Max Eluard – “Como que ele nunca mais me chamou pra fazer um filme?” Ele nunca chamou ninguém pra fazer dois filmes.
Lenine – Ele não tinha uma coisa que eu tenho, que é a relação humana. Pra mim é muito importante essa coisa meio familiar, de núcleo, de segurança…
Max Eluard – A casa, né?
Lenine – Eu sou, eu sou, não sei se é bom ou mal, mas é assim que eu trabalho. E preservo muito isso, esse tipo de fidelidade.
Natale – Quando eu falei dos artistas em que você aposta, você citou o Tcheka. Não sei de qual país do África ele é?
Lenine – É de Madeira.
Natale – Agora você está fazendo uma parceria com o Stewart Sukuma, de Moçambique, não? [n.e. Um dos mais populares músicos moçambicanos. Nascido em 1963, lançou o primeiro disco em 1983]
Lenine – É, a gente está vendo a possibilidade de…
KK Mamoni – Tá no namoro ainda…
Lenine – É.
Natale – Entendi.
Lenine – O fato é que eu tô – não tô reclamando, não –, mas eu tô trabalhando como um doido, rapaz. Eu nunca trabalhei tanto na minha vida. E isso é bom, não é ruim, não, isso é bom acontecer… A gente tem que priorizar algumas coisas e eu tenho algumas muito importantes pra fazer. Tô no meio de um processo muito bacana que é o Chão. A gente está viajando quadrifônico. Eu fui fazer isso em todo o Brasil, cara, eu rodei pra fora…
Max Eluard – Você fez o disco no fim do ano passado…
Lenine – Fiz em outubro.
Max Eluard – Mas somente agora o show está saindo…
Lenine – A gente estreou em março. Levei um tempo até porque a gente foi estudar como fazer.
Max Eluard – Fala um pouco do processo, então?
Lenine – Deixa então eu situar o Chão. Chão surge com esse meu desejo de fazer um projeto novo. Era um projeto que desde o início ia se chamar Chão. E teriam algumas peculiaridades. A primeira: não ter bateria nem percussão. Eu me impus isso. Nada contra Pantico (Rocha). Pantico é meu baterista há mais de 20 anos e ele sabe disso. (…) Voltamos aos estímulos…
Tacioli – Sair do confortável…
Lenine – É, de sair do conforto e de procurar outros caminhos para ficar atraente a história. Aí teve uma intervenção divina: eu tinha feito as primeiras duas músicas, na verdade, eram três, mas uma delas caiu depois, e fui gravá-las pra ouvir numa versão diet: violão e voz, boto um beat e vou ali, faço umas coisas e tal. Aí a primeira música é “Amor é pra quem ama”. É uma homenagem, porque a frase “Qualquer amor já é um pouquinho de loucura” é do Guimarães Rosa. É uma fala de Diadorim. [n.e. Ao lado de Riobaldo, é uma das protagonistas do livro Grande sertão: veredas (1956), clássico de João Guimarães Rosa] E eu fui trabalhar essa música. A porta do estúdio estava entreaberta e, como vocês sabem, vazou o (som do) passarinho, o Frederico VI. O Bruno (Giorgi) me chamou a atenção: estava no tom e ele (o passarinho) estava evoluindo com o arranjo. Aquilo foi tão importante e impactante na gente. E ele disse: “Pai, a gente tem que assumir isso! Vamos assumir?” “Bora assumir. Pede silêncio na casa, bota com um puta microfone valvulado na gaiola, silêncio total! Deixa o áudio bem baixinho pra gente quase não ouvir e grava olhando pra tela o tempo da música. Está lá a onda (de frequência), você sabe quando vai terminar. [Imita o Frederico VI] E ele trinava e rodava e tudo, lindo maravilhoso. Terminou a música, bota pra ouvir, e é o que vocês ouvem, não teve edição.
Max Eluard – Não mexeu em nada?
Lenine – Não. Essa é uma peculiaridade que passou despercebida para a maioria das pessoas. É que difere o Chão de qualquer disco eletrônico: nada foi manipulado! Nada dos sons ambientes foram manipulados. As músicas foram construídas em cima dos áudios de ambientação. Então, foi uma diversão esse “fazer” pra gente que estava envolvida ali. É impossível as pessoas perceberem o grau de profundidade que foi esse negócio. Até a gente chegar a esse tom…
Max Eluard – Aí volta para o orquidário.
Lenine – Tanto é que Chão começa em volta do meu orquidário. Aqueles passos que você ouve…
Max Eluard – Ah, os passos à noite, né?
Lenine – Por isso que é circular. Dividi em quatro pontos cardeais dentro do meu orquidário. E você ouve aquilo “tcho, tcho, tcho, tcho” em volta de você. Então tudo foi a partir do Frederico. Os sons do meu cotidiano vão cumprir as funções rítmicas das canções.
Tacioli – Mas esse sons do cotidiano têm a ver com os sons da sua…
Lenine – Da minha vida diária.
Tacioli – Da sua vida?
Lenine – É a chaleira! Eu vivo a café com leite, cara! Café com leite o dia inteiro e eu mesmo que coo o meu café. Então, eu boto a água no fogo, a chaleira, e fico esperando. “Siiiii”, quando o tom dá ali, eu já sei se tá na hora. Então na música “Uma canção e só” é o Bruno tentando chegar no tom com a abertura do gás. Ali não tem edição, cara! É tudo “siiii”. [Imitando o som da chaleira] Tudo teve essa não manipulação dos áudios. E aí foi um tiro certeiro descobrir – já no processo do disco – “o show tem que ser surround!”. Nasceu pra ser assim. Nasceu pra ser uma experiência sensorial diferente, porque descolava essa ambientação das músicas. As canções ficaram totalmente despidas. Eu nunca me senti tão exposto na vida quanto nesse espetáculo, porque é uma harmonia, uma voz e ambiência. No verão, as cigarras no Rio são ensurdecedoras. É a máquina de lavar em casa, na centrifugação, e os seres estranhos, “tcho tcho”. Não foi editado: não existe o looping, é a máquina, “tchan tchan tchan”.
Max Eluard – No tempo dela.
Lenine – No tempo dela, no tempo dela.
Tacioli – Você acha que esse trabalho influencia os próximos?
Lenine – Ah, não sei. Eu sei que esse trabalho foi influenciado pelos outros. Isso eu digo e explico o porquê: porque o tempo sempre foi fundamental. Se você ouvir todos os meus discos, desde o Olho de peixe, a pausa entre a primeira música e a sequente é o mesmo beat da música que precede. Isso é uma norma que eu não mudo desde então.
Max Eluard – Um toque.
Tacioli – É um toque.
Lenine – É um beat, é um beat. O beat não pode perder, todos os meus discos são assim. São fusões. Talvez em Chão seja mais evidente, porque além disso eu não repeti uma letra, não tem um refrão dobrado e foi todo concebido pra ser uma música só. Aí eu fui mais intransigente.

Bruno Giorgi (esq.), Lenine e JR Tolstoi: o disco e o show Chão, do estúdio para o palco. Foto: Divulgação/Daniel Chiacos

Max Eluard – Um álbum mesmo.
Lenine – De conceber o disco como uma suíte até, eu diria. Quase uma suíte, as músicas se sucedem e tem um porquê, eu tô contando uma história ali que é importante pra mim, não precisa ser compreendida por todos. Mas é uma história e essa história foi construída com esse tipo de “não aqui”, “entra aqui”… O som da derrubada da árvore em “Me vergo, mas não quebro” está intencionalmente três DBs mais alto do que todo o disco. E o texto está dizendo: “Envergo, mas não quebro / Mas o que isso significa diante de uma motosserra”. Então eu conto com esses pequenos links; eu não dou tudo mastigado, cara! Eu quero ousar acreditar que as pessoas, numa primeira audição, entendem uma coisa. Na segunda entendem outra, na terceira elas podem entender outras coisas. Os elementos estão lá: eu os coloquei e tudo tem um porquê. Eu sou chato nisso, realmente! Tem um porquê, foi tudo muito alinhavadozinho assim, sabe?! E tem os produtores que são chatos pra cacete: JR (Tostoi), que há muitos anos está comigo, e Bruno. Pra você ter uma ideia do que é trabalhar com filho. [risos] Teve um momento em que ele (Bruno) chegou pra mim: “Pai, essa aqui não tem nada a ver com o disco que a gente está fazendo. Essa aqui parece irmãzinha daquela…”. Cortou seis. Estava com 12 ou 13 músicas. “Porra, vai fazer outras músicas!” [risos] Assim! E eu fui fazer. A primeira que eu fiz foi “De onde vem a canção?”. [ri] Todas as canções que vieram em sequência, foram canções que eu fiz sozinho letra e música. Também eu me impus um tempo. Eu não queria depender de ninguém. Então, a ponto do meu garoto dizer: “Vai fazer outras, velho!” [risos] Muito bom, cara!
Max Eluard – E o som quadrifônico está funcionando nos shows?
Lenine – Porra!
Max Eluard – E não dá pra deixar de lembrar do Quadrophenia, do The Who.
Lenine – É, cara, mas não precisa ser Pink Floyd pra fazer um quadrifônico, sabe? O que foi muito bacana e foi surpreendente, e foi uma novidade também, não somente pra mim, mas pra todos da equipe, foi brincar com essa espacialidade de todas as maneiras. A gente faz pra cada música um desenho. Ora de fundo pra frente, ora de lado pra lado, ora em cruz. Agora, e o mais louco, está sendo fazer isso no Sesc Pompeia, porque é aberto dos dois lados. Então, são dois quadrifônicos espelhados. Isso quer dizer, um oito deitado, é infinito. [n.e. Projetado no fim dos anos 1970 pela arquiteta Lina Bo Bardi e com capacidade para 800 lugares, o teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, é diferente dos convencionais: o palco é cercado por duas frentes de plateia. O público vê tanto os artistas, como também a outra metade dos espectadores]
Max Eluard – Que é o símbolo do infinito…
Lenine – É. As três primeiras músicas dá uma certa… fica todo mundo sem saber o que fazer até entender. [ri] Quando a ficha cai: “Não, bicho, a gente está mergulhado no som!”. E continua… Aí os caras esquecem de prestar atenção nos passos que estão por ali e focam. Por isso que eu falo sempre que o Chão talvez tenha mudado a ordem da conjugação dos verbos do espetáculo, que tinha se transformado em “ver, ouvir”. Chão é “ouvir e ver”. Fecha o olhinho, velho, ouça! [ri] Tanto é que o Paulo Pederneiras fez uma luz e um cenário que ilumina o suficiente pra mostrar como a gente está fazendo a música, só.
Tacioli – Você viu que a gente trouxe a nossa corte também, né? [n.e. Referência ao canto dos pássaros próximo ao local da entrevista]
Lenine – Eu ouvi, tô ouvindo. [ri] Tá foda, bicho, som da porra!
Tacioli – É o Henrique V.
Lenine – Vou contratá-lo! [risos]

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