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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 14/16

Kubrick é uma puta inspiração

Cirino – Nessa história com o violão, você compõe usando somente o instrumento, sem a voz?
Lenine – Sim, sim, muito. Todo o Breu foi instrumental. Aí uso só o instrumento. Mas acontece também das canções “psicofonadas”. Parece que elas já existiam em algum lugar, num limbo…
Natale – Você foi somente o cavalo…
Lenine – E que você, num momento propício, foi só o cavalo. Você foi só a antena. E essas canções independem do instrumento. [Canta] “Ninguém me contou / Foi o meu mano que viu na marujada / Meu amor botou meu nome no pano da jangada.” [n.e. “No pano da jangada”, parceria de Lenine com Paulo César Pinheiro, faixa do CD Falange canibal, 2002]. Não precisa de instrumento. Já nasce meio como grito de guerra. São formas diferentes. Mas, em contrapartida, sempre quando eu falo em composição, falo do outro lado também, da procura. Tem músicas que ficam pra serem terminadas durante meses. E você não acha aquela ponte que está procurando; ela está aqui e você não conseguiu expressar, ou aquela melodiazinha que…, que não tocou aquela corda que a gente falou, sabe? E você fica persistindo até aquilo, de alguma maneira, aparecer, eclodir, mas nem sempre a gente acerta.
Max Eluard – Você acredita muito na intuição? O processo racional está à serviço da intuição.
Lenine – É, depois. O racional vem depois. Primeiro, deixa o negócio ir, cara, deixa o negócio ir.
Max Eluard – Já vi você falar algumas vezes que não consegue trabalhar e fazer as coisas se não for a partir de uma motivação, de um tesão.
Lenine – É.
Max Eluard – E o que provoca essa motivação, que dá esse impulso?
Lenine – É você se impor, simples assim. Lógico que têm alguns mecanismos pra você poder mergulhar de cabeça. Tô em casa de bobeira e “Ah, vou fazer uma música que vai fazer assim…!”. Não, não é assim. É assim como eu falei: daqui a três dias vou ter que começar gravar a trilha do Grupo Corpo. Simples assim. Então, o calendário, o taxímetro tá rolando, a contagem tá rolando, e é uma luta entre descobrir a tempo essas coisas. Aliás, como é pra vocês também, bicho. Vocês têm prazo pra entregar o texto. Você tem aquele tempo.
Max Eluard – Claro.
Lenine – Tem uma hora em que você tem que abandonar. Se fosse pela gente, ficaríamos ali martelando até descobrir, mas não tem mais tempo. Aí você abandona, você nunca termina nada, a gente abandona as coisas…
Tacioli – Lenine, a sua obra está sempre em paralelo com outras manifestações artísticas contemporâneas?
Lenine – Porra, sim, eu sempre achei que fazia cinema musical. Aí eu me reconheço… Pode soar maluco o que eu tô dizendo aqui, mas tem algumas coisas de expressão no cinema em que eu me reconheço a ponto de achar que eu poderia transitar ali se fizesse cinema.

O cineasta norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999), diretor de filmes clássicos, como Spartacus (1960), Dr. Fantástico (1964), 2001 - Uma odisseia no espaço (1968), Laranja mecânica (1971), O iluminado (1980) e De olhos bem fechados (1999). Foto: reprodução

Max Eluard – O que, por exemplo?
Lenine – Ah, vai soar pretensioso, vou dizer não… [ri]
Max Eluard – Somente pra materializar, não pra dizer que era isso.
Lenine – Mas, sabe uma coisa: quando eu olho pra minha discografia, eu acho bacana ver as coisas pontuais terem atirado para coisas díspares, distantes. E aí eu me recordo: o maior olhar da humanidade que eu tenho conhecimento foi o do Kubrick…
Max Eluard – O cara fez dez filmes e todos…
Lenine – Espionagem, Lolita. Ficção, 2001… Terror: O iluminado. Violência urbana: Laranja mecânica. Ele é uma inspiração, digamos assim pra não soar capcioso. Ele é uma puta inspiração! Tenho os filmes dele e eventualmente os vejo de novo; sabe aquela história “já podia ter me desfeito?”. Mas eu tenho isso também com A guerra do fim do mundo, do Mario Vargas Llosa. Tenho isso com O Aleph, do Jorge Luis Borges. Eu tenho algumas coisas que é como…
Natale – Um poço em que você vai pegar…
Lenine – É, eu preciso ter materialmente, eu não consigo me desfazer, tem que estar ali pertinho.
Max Eluard – Essa relação com o Kubrick tem a ver com você. Era um cara que, em todos os filmes, tem um quê de estranhamento, mas todos dialogaram com o público, todos fizeram grande público. Foram dez, né?! O cara fazia um filme a cada cinco, dez anos…
Lenine – Essa periodicidade é outra coisa que eu me impus. Tem muita gente que é muito capaz e faz um disco por ano. Eu, não, faço a cada dois, três anos, mais ou menos…

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