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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 12/16

Eu acho que sou isso: cantautor

Tacioli – Lenine, você falou da carta branca e das gravadoras. Hoje ainda você não tem a carta branca quando fala “Tenho um trabalho novo”?
Lenine – Ah, mas não ofereço mais, não. Há muito tempo que eu não ofereço nada.
Tacioli – Mas tem essa procura? Hoje a indústria vive um momento totalmente contrário daquele dos anos 80.
Lenine – É, eles não sabem fazer o que eu durante anos fiz, que é trabalhar o micro. Mas eu não preciso dividir isso mais. Na verdade, está um momento de muita mudança, cara! Qualquer coisa que se diga, pode dar em nada. O fato é que tá tudo mudando e mudando muito rápido. Indústria? Que indústria, né?
Natale – Mas a música nunca esteve tão forte.
Lenine – Nunca se ouviu tanta música.
KK Mamoni – Mas é o que está em crise é a indústria, não a música.
Lenine – A música nunca!
Max Eluard – E nem é a indústria de música, é a indústria fonográfica como a gente conheceu.
Lenine – Justamente, por isso que eu boto o adjetivo aí: fonográfico.
Tacioli – Nunca se vendeu tanto instrumentos também, né?
Lenine – Nunca se vendeu tanto instrumento, nunca se tocou tanta música. E eu sempre tive a impressão que no Brasil não tem rádio nem televisão suficientes pra escoar o que se produz. E aí pega alguns nichos de rádios que se copiam e que só tocam a mesma programação, aí eu não entendo, realmente não entendo! Não entendo até hoje se é amostragem. Brincadeira!
Tacioli – Lenine, você falou no começo que, em 83, você estava invisível. E continuou invisível mesmo quando lançou o primeiro disco. Qual é o preço dessa superexposição que você tem? Você acha que você tem uma superexposição?
Lenine – Eu acho que não tenho, não!
Tacioli – Não?
Lenine – Não! Tanto é que não chegam malas junto a mim. Eu digo assim porque eu já estive em turnês com alguns amigos populares, extremamente populares. E eu sei que é difícil de lidar com esse tipo de assédio, de como as pessoas chegam até você. Mas talvez pela própria trajetória que eu fiz, não sei te dizer, mas é raro chegar alguém sem delicadeza, sem gentileza, sem medir o que fala, porque se chegar muito excêntrico, vou dizer: “O que foi que aconteceu?”. Aí já dá aquela: “Opa, espera aí!”. Eu não sei, acho que eu não tenho uma superexposição, não. E ela é meio diluída, porque tem a ver com o que eu componho, tem a ver com o que eu canto, tem a ver com o que eu produzo. Aí isso é meio diluído. A gente já queria fazer essa entrevista há muito tempo. Você viu quanto tempo eu relutei, porque eu tenho que ter um objetivo também… Eu só falo quando eu tô com um produto novo, porque realmente não acho que tenho muita coisa pra falar, não, nem quero ter essa incumbência. Quem trilhou esse caminho sofre até hoje uma superexposição. Aí tem que achar tudo sobre tudo. Não, comigo, não!
Natale – E essa coisa que você falou de produtor. Como você mira para produzir? Você procura um pouco o espírito do Lenine dos anos 80, alguém com aquela convicção da quase da invisibilidade, e você fala “Eu vou apostar nesse cara”. Você tem isso?
Lenine – Não. Eu só me sinto capaz de produzir se eu me apaixonar. Isso é uma condição sine qua non pra eu produzir. Pra eu produzir alguém, eu tenho que estar com uma relação emocional, passional…

Capa do CD Lonji, do artista cabo-verdiano Tcheka. Foto: reprodução

Natale – Então, você se apaixona primeiro pela música ou por aquilo que o cara tem (“Ele tem o que eu tinha…”)?
Lenine – Pela música primeiro. Na maioria das vezes, primeiro é pela música. Blick Bassy, Tcheka…, foi pela música primeiro. [n.e. O primeiro é cantor, compositor, guitarrista e percussionista camaronês. Lenine participou de seu álbum Hongo calling, dividindo a faixa “Fala português”. O segundo é cantor, compositor e violonista de Cabo Verde. Seu terceiro disco, Lonji, de 2007, foi produzido por Lenine] Eu primeiro ouvi a música dos caras. Mas a Maria Rita, não, pô! Um Pedro Luís, não, é meu irmão, porra! Mas o emocional está sempre envolvido. Não me sinto capaz de produzir qualquer coisa, não. Até porque o meu processo não foi acadêmico. Eu descobri uma maneira de produzir pra documentar o que eu fazia. Então, essas funções estão muito interligadas com o exercício da composição e do cantar. Cantautor, eu acho que eu sou isso, cantautor. É uma palavra que não existe muito na língua portuguesa, mas sim em todas as línguas latinas…
Max Eluard – Mais no Uruguai, na Argentina…
Lenine – É, cantautor…
Max Eluard – A tradição dos cantautores é muito forte.
Lenine – Século 11, Bernard Ventadour, Arnaut Daniel, os caras que inventaram a redondilha maior! Somos todos ecos disso. [n.e. Importantes trovadores franceses do século 12]

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