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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 11/16

O que faço é política, não é partidarismo

Natale – E com essa consolidação de sua carreira, algumas pessoas te assediam para (ingressar na política)? O Chico César agora é secretário de Estado…
Lenine – Comigo não cola, não!
Natale – Mas não chegam…?
Lenine – Cola, não!
Natale – Você tem uma visão política…
Lenine – Chegam algumas vezes, mas não cola, não.
Natale – Você rejeita?
Lenine – Eu rejeito porque eu estou aqui por causa da minha isenção. O que eu faço é política, não é partidarismo. Tenho que fazer o que eu sei fazer. E o que sei fazer é música, música, cara! Não tenho competência pra isso.
Max Eluard – E o que você achou do Gil como ministro? [n.e. O músico Gilberto Gil foi ministro da Cultura do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva de janeiro de 2003 a julho de 2008]
Lenine – Ah, eu acho maravilhoso. Mas ele tem a competência de fazer isso ou não. Ele tem essa aptidão de lidar com a coisa. Não é o meu caso. A minha área de atuação é muito ali. Eu, apartidariamente, tenho meus trabalhos de fundo social, de fundo ambiental; tenho grandes parceiros: (Projeto) Tamar, WWF, S.O.S. Mata Atlântica. E aí eu tenho uma atitude política como civil que sou, como cidadão que sou.
Natale – Não pra apoiar a sua carreira, né?
Lenine – Não, ao contrário.
Max Eluard – Não faz propaganda disso.
Lenine – Não, não, não! Mas eu me sinto incapaz de atuar em outra área que não seja a do entretenimento.
Max Eluard – Lenine, eu queria te fazer uma pergunta sobre um assunto… Tá falhando o microfone de novo?
Lenine – Sou eu? Ah, encostou aqui, espera aí, agora vai melhorar. Opa, fritou…
Max Eluard – Queria que você falasse do Ramiro Musotto, como o conheceu e o que ele trouxe para a sua música. [n.e. Percussionista, compositor e produtor argentino radicado em Salvador e Rio de Janeiro desde a década de 1980; trabalhou com importantes nomes da mpb e pop. Destacou-se também ao unir percussão e música eletrônica. Morreu em 2009, aos 45 anos, vítima de câncer]
Lenine – A gente aprende o tempo todo, né, velho. A música pra mim sempre foi coletiva. A música que eu faço é um somatório de pessoas; sempre foi assim. Nunca fiz um disco sozinho, um egodisco. Na verdade, eu convidei o Ramiro porque em 99 eu tinha sido convidado pelo Caetano que, na época, tinha recebido o “Carte Blanche”, que o Cité de La Musique, em Paris, uma vez por ano pega um artista popular – porque é um universo acadêmico – e o convida pra fazer um show inédito. E aí abre uma carta branca (“carte blanche”) para esse artista. Caetano estendeu o convite a mim e a Haroldo de Campos. E fomos participar do show de Caetano. Três anos depois, o Cité de La Musique me convida pra fazer um “Carte Blanche”. Mas o quê que que vou fazer? Eu estava com uma banda azeitada, a gente estava no meio (de uma história), enfim, eu digo: “Bicho, fazer um projeto novo? Tá bom, vou fazer um projeto novo!”. Eu tinha ido em 2000 pra Cuba pelo Festival do Cinema de Havana, quando fui homenageado por uma turma lá. Robertico Carcassés fez uma big band, uma puta orquestra pra tocar a minha obra. [n.e. Pianista e compositor de jazz cubano nascido em 1972, filho do célebre músico Bobby Carcassés, é o bandleader da Orquestra Interactivo] Foi uma das maiores experiências que eu tive. E naquela orquestra tinha uma baixista, a Yusa. No primeiro ensaio em que eu estive lá na ilha, ela me chamou num cantinho e disse: “É assim que tu toca ‘Jacksoul’?”. Aí tocou muito melhor do que eu. Eu disse: “Não, não é assim que eu toco, não!” [risos] “É de outra maneira que eu toco”, mas eu fiquei impressionado. E ela, na verdade, não era baixista, ela era pianista formada, uma compositora. Bom, voltei aí à história do “Carte Blanche”. Sempre falei da história do isolamento, da culpa do famigerado Tratado de Tordesilhas no isolamento cultural que a gente teve. São gerações que fazem uma certa ligação: o rock teve muito isso, Paralamas faz com Fito (Paez), teve Caetano, João Gilberto na Argentina. Tem esses intercâmbios que são muito bacanas. Digo: “Vou fazer um trio panamericano”. O Ramiro estava acabando de fazer Sudaka [n.e. Primeiro dos dois álbuns autorais de Ramiro Musotto, lançado em 2001], um disco belíssimo, a gente tinha tocado junto em algumas gigs, eu fazendo uma participação com o Lulu (Santos), com o Kid Abelha… A gente se encontrou duas ou três vezes. Eu tinha ouvido o disco dele. “Porra, que coisa linda!” E quando disse: “Vou fazer um show inédito?! Então vou criar um repertório!”. Para o inCité o repertório é todo novo, criei para ali, nunca mais eu gravei aquele repertório. E chamei esses dois pra fazer um encontro panamericano. Por um lado a Yusa, vindo de Cuba. Deu dificuldade pra trazê-la, muito difícil. Eles ficam com medo. Então, ela não podia ganhar nada. Eu não pude remunerá-la. Não pude remunerá-la. Tiveram essas coisas, enfim. Mas a gente conseguiu. E o Ramiro. E o engraçado foi que, quando eu o chamei, no primeiro dia, ele chegou com DVD, com os eletrônicos todos. Ele vinha do Sudaka e eu estava pensando outra coisa. Nada daquilo, velho! Ele chegou e foi descarregando. Digo: “Ê, ê, ê, pare, pare! Nada de eletrônico! Não quero nada plugado, meu irmão!”
Max Eluard – Quero só seu berimbau…
Lenine – “Quero seu berimbau, seus braços, suas pernas!” “Por quê?” “Porque a gente vai botar vários tipos de sons pra eu ter os beats com você fazendo, e suas mãos soltas pra você ora tocar um não-sei-o-quê, ora…” “É mesmo?” “É!” Então, pra ele também foi um estímulo maluco, porque ele vinha com todos os presets prontinhos. “Ê, não quero nada disso, não!” E foi muito bacana e muito intenso também, porque quando começou a se delinear, eu me perguntei: “Por que eu não vou gravar isso?”. Eu não ia gravar, cara! Ia ser somente um show. “Por que não gravar?” Ninguém quis. O sorriso amarelo de novo. Ninguém quis. [ri] “Ah é? Tá bom, eu faço!” Como sempre, todos os meus discos foram feitos assim, alguns no final eu cheguei até a vender a master, outros, não, eu só licenciei. Mas todos foram feitos assim e foi assim que eu fiz o inCité. Mas a gente já sabia desde o início que não ia ter prossiga. Eu não abri essa possibilidade. Digo: “Olhe, não é inédito, é inédito e vai ficar inédito”. Teve muita procura pra gente reunir o trio, mas eu não queria.
Max Eluard – Por que?
Lenine – Porque a ideia não era aquela, eu estava no meio de um processo. A maneira que eu pude exorcizar aquilo, conseguir realizar e não prejudicar os outros planos…
Max Eluard – Foi um parênteses.
Lenine – Foram umas aspas ali.
Natale – Começo, meio e fim.
KK Mamoni – Mas fez o DVD e o CD…
Lenine – Aí fiz o DVD, fiz o CD. Evidentemente gerou um show chamado inCité, mas a formação era rock and roll, o repertório migrou de tal maneira que virou outro projeto. E ele tinha essa coisa maravilhosa do “el juego de cintura”, porque era…
Max Eluard – “Yo soy brasilero!”
Lenine – Porque era duplamente baiano, que é de Bahía Blanca e da Bahia, “entonces isso é increíble!”. [risos] Era uma pessoa muito querida.

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