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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 10/16

(Com o Grupo Corpo) eu vi a música que faço

Tacioli – E no processo de criação, tem algum momento que se repete e você preferiria que aquilo não se repetisse?
Lenine – Não. O momento de criação é muito volátil. Eu não preciso de um ritual pra compor. É mais assim: vou fazer. Mas nem sempre você faz. É por isso que eu tô dizendo: todos grandes, ninguém conhece… Tu acha que Chico mostrou tudo que compôs? [risos] Não, senhor! [ri] Eu tenho certeza que ele tem um baú que ele vai tocar fogo, se não já tocou, pra não deixar caco pra ninguém! Mas outra coisa: poucos tiveram, como o Chico, independentemente da qualidade do que ele faz, a possibilidade de ser documentado desde os 21, 22, 23 anos de idade…
Max Eluard – Isso é impressionante.
Lenine – É outra época, é outra coisa, é outra história. Compor tem a ver com o objetivo que você tem, ainda mais eu que exercita a composição pra outros. E outros, não somente outros intérpretes, mas outros veículos mesmo. Agora eu tô fazendo a trilha no novo espetáculo do Grupo Corpo, que me chamou de novo. Eu fiz Breu e foi uma experiência maravilhosa lá com os Pederneiras! [n.e. O espetáculo Breu estreou em 2007 com trilha sonora de Lenine; Triz, o segundo espetáculo da companhia mineira de dança contemporânea musicada pelo artista foi apresentado em 2013] E agora eles me chamaram de novo. É um outro tipo de (trabalho). Eles primeiro esperam a trilha para criar a coreografia. É muita liberdade, é liberdade demais, cara! O cara diz assim: “Olha, são uns 50 minutos. Pensa na gente, quando achar que tu deve mostrar, tu mostra!”.
Tacioli – Esse é o briefing?
Lenine – Esse é o briefing.
Max Eluard – E você sempre fala que seu estímulo para compor é visual, né?
Lenine – É.
Max Eluard – Aí você vai fazer a trilha de uma coreografia, que é algo totalmente visual, antes de vê-la.
Lenine – Você agora abriu uma janela pra eu falar de uma coisa que foi um impacto. Quando eu entreguei a trilha do Breu, ele disse: “Quer ver o ensaio?”. “Não! (Vejo) quando você achar que eu devo ver!” [risos] E já estava ali nos 70%, 80% do espetáculo quando fui a BH pra ver (o ensaio). Levei um soco no estômago, cara!

Max Eluard – Não era a coreografia que você fez quando criou a música.
Lenine – Não, mas eu vi! Ele foi tão fiel ao relevo sonoro que a gente tinha criado, que eu vi os arranjos tridimensionalmente. As sucessões de ritmos, as pontes harmônicas! Ele fez tudo com os corpos! As polirritmias… Quando era em (terceira), “tcha”!; em primeira, “tcha, tcha, tcha, tcha, tcha, tcha”! E eu via tudo aquilo! Pela primeira vez eu vi a música que eu faço. Eu saí dali com essa certeza. Mudou a minha maneira de criar. A partir do Breu, eu nunca mais entrei no estúdio com música pronta. E me impus, pra ser fiel ao meu momento, (criar) a partir do nada. Vou fazer um disco: vai ser chão. [n.e. Referência ao disco lançado em 2011] Só tem o nome, porque eu gosto da palavra chão. E liguei pra Lula: “Vamos fazer uma música?” “Vamos!” “Chão, o chão que a gente pisa, o chão que…”, assim… O Labiata foi a mesma coisa. [n.e. Álbum de 2008]
Tacioli – Tiveram outros momentos na carreira como essa virada, esse cavalo de pau?

Capas dos discos Baque solto (1983) e Olho de peixe (1993). Fotos: reprodução

Lenine – Rapaz, eu acho que foram algumas viradas. Primeira: a virada que eu chamo espinha na bunda. Espinha na bunda é aquela coisa que só você sabe que tem, porque só você sente, ninguém vê, né? [risos] Eu fiz um disco espinha na bunda com Lula Queiroga chamado Baque solto. [risos] Foi na Polygram em 83. Isso foi uma virada. Perceber o invisível; eu estava invisível. Eu tinha feito um disco com o Lula e era invisível. Isso foi uma virada. Depois de dez anos eu fiz Olho de peixe. Foi outra virada… Foi uma virada fundamental, porque eu disse: “Ê, esperaí, eu não estava tão errado assim por um lado e nem estava tão certo assim por outro. Foram dez anos!”.
Natale – Mas é um disco que quando chegou, causou muito impacto.
Max Eluard – Causou, eu me lembro.
Natale – Esse disco é um disco que quem ouviu não esquece.
Lenine – Ali eu descobri que a minha música dialogava com o mundo. A partir dali eu passei a fazer turnês anuais. Foi ali uma grande virada.
Natale – Calculo que a mesma importância que teve pra você, teve pra Suzano, né? [n.e. O percussionista carioca Marcos Suzano, com quem Lenine dividiu a autoria do disco]
Lenine – Com certeza… E pra Denílson, que era o terceiro, era o quinto Beatle na história. [risos] [n.e. Denílson Campos, engenheiro de som responsável pela gravação do álbum] Mas, pô, aí eu faço O dia em que faremos contato. Ganhei todos os prêmios possíveis. Foi três anos depois. [n.e. Seu primeiro disco individual, de 1997, em que apresentou os sucessos “A ponte”, parceria com Lula Queiroga, e “Hoje eu quero sair só”, com Caxão e Mú Chebabi] Aí fiz Na pressão, primeiro Grammy. [n.e. Trabalho produzido por Tom Capone, lançado em 1999 e dono dos hits “Jacksoul brasileiro”, “Paciência”, “A rede” e “Relampiano”] Falange canibal, ganhei dois Grammy. [n.e. Com participação especial do grupo norte-americano Living Colour e de Eumir Deodato, este foi o segundo disco produzido por Tom Capone] Tenho cinco Grammy, cara! Ou seja, tô gramado faz tempo! [risos] Prêmio é muito bom quando a gente ganha. Porra, é muito bom porque reafirma a sua conduta.
Max Eluard – A gente sabe que não vale nada, mas quando a gente ganha é do caralho.
Lenine – É, mas vale tudo! É ruim quando você não ganha… [risos]
Cirino – Mas é o reconhecimento dessa insistência que você falava antes. Quero dizer, não teve nenhum super sucesso, mas foi galgando um espaço e um carreira muito…
Max Eluard – Sólida.
Cirino – Consistente.
Lenine – É, eu acho que foi uma sedimentação. E as pessoas passaram a associar: “Pô, aquela música da Elba (Ramalho) é dele! Ah, aquela música de fulano é dele! Aquela, pô, ah, aquele negócio!”. Foi realmente sedimentando. Já falei isso algumas vezes: eu achei a sacada do meu filho muito boa. Ele disse que eu não tenho fã, eu tenho seguidor e esses seguidores estão aumentando a partir do momento que eles estão se propagando.
Max Eluard – Se multiplicando, se procriando…
Lenine – É, é, é. Eu acho bacana.

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