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Entrevistas de música brasileira

Lenine

Lenine. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Lenine

parte 9/16

Falar sobre o que você faz é uma temeridade

Tacioli – Você falou de vários amigos que estavam com você nesse percurso. Quem tinha ficou pelo caminho que tinha talento…
Lenine – Não, ninguém ficou pelo caminho, vários…
Max Eluard – Tomaram outro caminho…
Lenine – Tomaram outro caminho, é isso aí, descobriram outros caminhos e sobreviveram de outras maneiras.
Tacioli – Quem você (destaca)?
Lenine – Por exemplo, Bráulio Tavares. Vocês não conhecerem o trabalho fonográfico de Bráulio é um débito emocional meu. Eu tenho certeza que Lula sente a mesma coisa, eu tenho certeza que Ivan sente a mesma coisa. Ivan já fez pelo menos dois discos. Lula Queiroga fez discos premiados e tudo, mas o Bráulio, não. E Bráulio é autor de umas pérolas como essa: “Pioneiro não é quem descobriu primeiro / Pioneiro é quem sempre soube”. [risos] Pérolas como essa: “Não existe ineditismo capaz de resistir a uma boa pesquisa bibliográfica”. [risos] Pérolas como essa: “Era um rapaz chamado Boris / Que não tinha um pau dos maiores / Um dia num livro de anatomia / Descobriu que não tinha pau / Tinha um clitóris”. [risos] Bráulio Tavares.
Tacioli – O que te chateia depois de tantos anos de profissão?
Lenine – Me chateia o despreparo, me chateia chegar numa roda para dar uma entrevista e o cara fazer uma pergunta que revela uma falta de preparo. Eu me preparo, cara! Pra fazer esse papo com vocês, eu sabia onde eu vinha, o que iria fazer. Eu cobro o mínimo. Isso é a única coisa que me tira do sério. E já me tirou algumas vezes.
Max Eluard – O cara tá ali cumprindo tabela.
Lenine – É, eu acho isso desrespeitoso, extremamente desrespeitoso.
Max Eluard – A rotina de entrevistas e ter que falar sobre você e sobre o seu trabalho te incomoda? Isso é tranquilo pra você?
Lenine – É, me incomoda. Me incomoda, sim, porque falar sobre o que você faz é uma temeridade. Eu preferiria não ter que falar. Mas eu sei que isso é impossível: na hora em que está lançando um disco, você tem que falar sobre ele. É a maneira de você chamar a atenção das pessoas, dizer “Olha, tô com um produto novo, ouçam! Ele foi feito assim, dessa maneira…”. Então, eu me preparo pra fazer isso. Nem sempre consigo me expressar bem ou ser lúcido o suficiente pra dar para as pessoas as pedras que eu uso pra fazer o que eu faço. Mas é muito ruim quando você está fazendo várias entrevistas num mesmo momento e você pega ali, numa sequência, uma, duas e aquela terceira o cara vai lá e manda aquela. Porra! Aí dói! Não que as pessoas tenham feito isso nesse sentido, mas o sentimento é de desrespeito.
Max Eluard – Porque você já está fazendo algo que você preferia não fazer…
Lenine – É.
Max Eluard – Você tem o esforço de se preparar pra aquilo e aí…
Lenine – Eu sou gentil, cara! Eu sou um cara generoso, eu ouço. Eu não sou de monologar, eu ouço. E aí tem uma coisa também: quando você olha no olho de alguém e sabe que aquilo não está acontecendo ali de fato. Quando eu percebo isso: “Ei, tu está aqui?”. O despreparo é uma coisa que me incomoda.

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