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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 8/19

Abri a TV para saber de onde saíam aquelas pessoas

Tacioli – Você tinha quantos anos quando seu pai faleceu?
Jards – Quinze.
Tacioli – Até essa idade, como era o ambiente na sua casa?
Jards – Um amor! Pessoas comuns com uma ternura entre todos. Agora, a minha avó era especial, porque era a minha madrinha também. Ela era secretária bilíngue da White Martins. Que eu me lembre nunca fui dormir sem um presente. Meu pai queria instaurar um quartel militar. Minha mãe seguia as ordens, tal. De vez em quando acochambrava. “Jards!” O nome do meu pai era Jards também. “São crianças!” De vez em quando ele se emputecia, vinha com o cinto… “Eba!” Tínhamos uma porradinha, mas nos amávamos.
Tacioli – E irmãos?
Jards – O Roberto, meu irmão mais novo, quatro anos mais novo que eu. Ele não era tão revoltado. Era mais manso, mais calmo, não fazia muita diabrura. Mas eu era um inferno.
Tacioli – Com o seu pai militar, o que você ouvia em casa?
Jards – Eu via os amigos do meu pai, da Marinha, lá em casa, combatendo a ditadura do Getúlio e, ao mesmo tempo, querendo salvar a Petrobras e a Cidade do Aço. Era uma conversa engraçadíssima. Menino ainda, eu não entendia direito aquilo, mas no fundo, que eu me lembre, eles queriam segurar a Cidade do Aço e a Petrobras, e derrubar o Getúlio. Tanto que depois o Juscelino entrou, meu pai foi ajudante de Ordens do Ministro da Marinha. Mas o que havia ali? Uma porção de brincadeiras… A primeira televisão foi a Marinha quem trouxe. Isso graças ao presidente Dutra, aquele velhinho louco, depravado. Pela primeira vez, os Estados Unidos estavam devendo ao Brasil. Devendo! Dívida externa para o Brasil! E não é que o Dutra trocou tudo por ferro velho?! Tudo por uma esquadra usada da Guerra, além de brinquedos de plástico. A dívida externa nossa foi pras cucuias. Aí começou tudo de novo, o FMI, o caralho; isso é uma loucura! Nessa época meu pai foi para os Estados Unidos, para a Filadélfia, e trouxe a esquadra, que não era uma esquadra, mas uns torpedeiros, uns contra-torpedeiros. E cada um daqueles marinheiros e oficiais trouxeram uma lembrancinha. Meu pai trouxe uma televisão RCA Victor, de armário. Quando vi a primeira experiência, fiquei assim… Um dia não havia ninguém em casa e fui abrir a televisão para saber de onde saíam aquelas figurinhas, aquelas pessoas. Aí eu não soube botar direito a porra, me perdi nas válvulas. Desvalvulei-me! Joguei tudo lá dentro e fechei. De noite não tinha televisão. Nada! E eu… “Puta que pariu, e agora?” Aí mexeram e mexeram, e acabaram chamando um técnico de televisão da Marinha. Lá veio o cara. Na hora em que ele abriu, disse: “Mas quem foi que tirou essas válvulas do lugar?”. Todo mundo olhou pra minha cara.

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