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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 7/19

Briguei com um dos maiores torturadores

Tacioli – O que você fez pra ser expulso do Colégio Militar?
Jards – Briguei com um dos maiores torturadores da lista do Tortura Nunca Mais!, que era capitão da minha companhia, o Capitão Zaniti. Ele é o terceiro da lista de torturadores. Ele era o capitão da companhia, eu era interno da IV Companhia. Eu vivia tocando violão, brincando. Eu, o Castrinho, o Agildo Ribeiro. Só tinha filho-da-puta lá dentro. E eles não foram expulsos, muito pelo contrário. O Exercito não queria botar o Agildo Ribeiro lá dentro porque era filho do Agildo Barata. A família dele entrou com um processo e ele acabou ingressando no Colégio. Mas o único expulso daquela tropa fui eu. Uns entraram antes, outros entraram depois. O Ivan Lins também, mas o Ivan Lins era caretinha. [risos ] Enfim, o cara chamou a minha mãe pra se queixar. Minha mãe, uma viúva nova, coitada, via ali um bom lugar, porque era um belo colégio, professores ótimos, roupa lavada, cama, comida, disciplina. Era tudo que ela imaginava que era bom. Passei dois anos vagabundeando lá dentro. E preso. Eu não era desse sistema: marchava pra acordar, marchava pra tomar café, marchava pra ir pra sala de aula, marchava pra almoçar, marchava pra ir jantar, marchava pra marchar. De noite, quando deitava na cama, as perninhas ficavam assim. Sonhava que estava marchando pelo mundo afora em quinhentos mil dias. Um negócio maluco! E todo fim de semana, sábado, domingo, os internos iam pra casa. Mas aí havia um negócio: quem se comportasse mal durante a semana e tirasse nota não sei das quantas, ficava com estudos obrigatórios aos sábados e aos domingos. Bom, sábado, domingo, rarará! A gente saía pela janela, pulava o muro junto ao morro da Babilônia, atravessava uma trilha do morro que acabava na praça Nossa Senhora da Paz e íamos paquerar as meninas do Instituto de Educação. Curtinhas, sempre curtinhas, todas. “Ah, calcinha branca! Aquela é vermelhinha! E a rosinha tá ali!” Aí paquerava a menina e levava pra o Metro pra ver um filme. Eu lembro que o meu primeiro namoro no cinema foi com Pillow talk [n.e. Comédia romântica de 1959, dirigida por Michael Gordon, e estrelada por Rock Hudson e Doris Day. No Brasil o filme recebeu o nome de Confidências à meia-noite] Aquilo pra mim foi um filme de sacanagem. A Doris Day no banheiro e o Rock Hudson com os pezinhos assim, somente roçando e falando sacanagem pelo telefone. Pra mim é Hot sex [n.e. Referência a um dos programas eróticos exibidos pela TV por assinatura, o Sexy hot], Playboy pra caralho! E a gente voltava à noite, quando havia um guarda. Em colégios militares o sentinela não pode ter bala na agulha. A gente sabia disso; era somente bala de festim. Aí quando voltávamos o guardinha dizia: “Quem vem lá?”. “Vai tomar no cu, babaca! Enfia esse fuzil no rabo!”. E o cara, “Porra, mas você querem me sacanear?”. “Queremos, sim!” “Vou contar!” “Vai contar? Como você vai contar que deixou a gente sair e agora a gente já está voltando?” “Porra, cara, é mesmo!” Bom, aí o capitão chamou a minha mãe e a deixou no gabinete dele. Eu cheguei junto à porta e ele… “Sentido!”. Pum! Fiquei em posição de sentido. Aí ele bateu a porta na minha cara. Fiquei a uns quatro dedos da porta, com ela fechada na minha cara, em posição de sentido. Já não gostei. Houve uma hora, muito tempo depois, ele abriu a porta e a minha mãe estava chorando, toda triscada e tal. Aí falou: “Veja o que você fez com a sua mãe!”. “Eu fiz com a minha mãe, não, seu filho-da-puta! O que você fez com a minha mãe?!” “Você não pode me tratar assim. Sou seu superior!” “Uma pessoa que faz isso é superior? Seu inferior!” “Só não acabo com você”, disse ele, “porque estamos fardados”. E eu disse: “Não seja por isso”. E fiquei nu no corredor; tirei tudo. Fiquei nu e parti pra cima dele. Foi uma merda! Todas as companhias aproveitaram e tiraram casquinha uns dos outros. O ódio que havia por baixo brotou. Foi uma bosta!

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Aí, separa daqui, separa dali, e o comandante, o General Magela, um bom sujeito, me chamou à sala de comando. “Jards, todo mundo gosta de você aqui no Colégio. Há esse negócio de teatro, música, cinema. Agora, você fez a única coisa que não podia ter feito, que é quebrar a hierarquia. Você é um aluno e ele é o comandante da sua companhia.” Não o cagüetei, não, porque não sou dedo-duro. Deixei rolar, estava louco pra sair… Aí ele: “Não vai constar expulsão na sua ficha para não atrapalhar a sua vida civil”. Eu nem pensei nisso… “Vida civil?!” Eu nem sabia de vida militar, quanto mais vida civil. Aí, pronto, botou “Jubilado” que, na verdade, é “Expulso”, essa é a palavra certa. Depois da tortura, minha mãe começou achar que aquilo não era pra mim mesmo. Se eles a sacanearam tanto, imagine a mim, um menino, um garoto cheio de energia. Resultado: você vai à Internet e procure pelos ex-alunos do Colégio Militar, ex-alunos famosos. Vou estar lá, eu como músico, entre um brigadeiro-do-ar e um general-de-brigada. Jards Macalé, músico.

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