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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 6/19

Só porque belisquei a bundinha de uma menininha...

Tacioli – Jards, parte da música nos anos 1960 se posicionava de alguma forma. E hoje, em um momento tão negativo quanto aquele, a música tem um papel?
Jards – Tem um papel higiênico de tanta merda que se ouve no rádio. Porra, desliguei o rádio! Eu, que gosto de música, desliguei o rádio. Eu só ando de táxi. Entro e digo assim: “Amigo, por favor, desligue esse rádio”. O cara, “Pô!”. “Desligue o rádio!” E depois… “Amigo, por favor, desligue esse ar-condicionado que faz mal para a garganta. Bactérias à vontade, tudo fechado. Já fui hospitalizado por causa de uma bactéria dessa no início do ano. Então, não quero mais andar com bactérias no bolso. Por favor, desligue.” Aí, mal-humorado, desliga. “Agora, ande a 40 km só pra eu sentir o ventinho.” O cara pira, enlouquece. Ele só não me expulsa do carro porque as distâncias são relativamente longas, porque ele vai perder um dinheirinho. Mas que ele fica muito puto, fica. Tem uns que dizem: “Não, tudo bem, seu Jards, pode, inclusive, fumar”.
Dafne – Mas você acha que a situação no Brasil está brava?
Jards – Não, a coisa não está brava no Brasil. Eu prefiro que essa lama toda esteja à tona e que a gente pise e olhe, “Que merda, hein?!” a acontecer tudo isso que está acontecendo por baixo do pano. Eu prefiro! Prefiro enfrentar a merda! Por isso o papel higiênico. Prefiro enfrentar a merda de frente, olho no olho, à merda ficar por baixo. Prefiro olhar e dizer: “Que merda, hein?! Vamos limpar essa merda ou vamos continuar assim mesmo?” E quem são os cagões? Quem cagou no meio da sala?
Dafne – Quem cagou no meio da sala?
Jards – O Congresso Nacional, aquele bando de bostas, de cagalhões! Fazem merda e ainda querem levar dinheiro.
Tacioli – Somente o Congresso, Jards?
Jards – Tem vício. O Congresso dá um exemplo péssimo para o brasileiro médio pra baixo, aquele que não tem nem a consciência das coisas. Ele começa a achar que aquilo ali é aquilo mesmo. Ele não entende que aquilo ali não é aquilo mesmo, que o Brasil não pode ser assim, não tem que ser assim, pode ser outro muito melhor. Para consertar um traficante, as coisas no morro, botam o Exército na rua… Eu já não gosto de botar, já que fui expulso de Colégio Militar. Meu pai era militar, capitão de fragata. Morreu. Minha mãe recebe pensão de vice-almirante. E fui para o Colégio Militar, de onde fui expulso. Aliás, fui expulso de várias coisas. Do Colégio Maria Soares, do Colégio Nossa Senhora da Paz, pertencente à Igreja, e só porque belisquei, de brincadeira, a bundinha de uma menininha que tava ali do meu lado. Eu tinha 10, 11 anos, no máximo. Aí a mãe da menina, histérica, interrompeu a missa pra falar mal de mim para o padre. [risos] Aí o padre foi lá de trás e me pegou pela orelha. Foi me puxando e me jogou no meio da rua. E ainda voltou pra rezar assim [n.e. Mostra como o padre batia as mãos]. “Bom, resolvido o problema.”

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