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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 5/19

Somos todos presos políticos

Tacioli – Você falou que antes o Brasil cultivava uma visão otimista, com muita coisa nova acontecendo. E hoje, o que você vê?
Jards – Olha, uma vez o Hélio Oiticica me disse: “O Brasil é o país dos dedos-duros. Todo mundo é dedo-duro, é um horror!”. E não mudou muito, tem tortura em prisão, mas não tem mais de preso político. Pra mim, somos todos presos políticos. Eu sou anarquista, não tenho nada a ver com essa política careta que se faz no Brasil. Agora, pra mim, o povo brasileiro é preso político de uma história que ele não conseguiu montar, não conseguiu montar o quebra-cabeça da história da democracia, de uma possível democracia. O Brasil ficou qualquer nota. E esse denuncismo atualmente… Você já deve ter ligado o canal da TV Senado e visto todo mundo caguetando todo mundo. Então o paraíso dos dedos-duros continua, mudou somente o sistema de se fazer as coisas. Antigamente a Polícia ia bater na casa da gente e te dar umas boas porradas. Hoje ela já bate na casa do Ministro Palocci, já bate na casa do Gushiken, do Thomas Jefferson. [risos] Vai batendo pra lá. Mas isso existia há muito tempo. Nos anos 1940 e 50, do Getúlio, o Barão de Itararé, nosso querido barão – esse era barão de verdade, apesar de ser de mentira, e hoje é dia 1º de abril, vamos dizer a verdade, o barão era o barão – depois de levar muita porrada da polícia do Getúlio, botou uma placa na porta: “Entre sem bater”. [risos] Aí neguinho abria a porta e “Barão?!”, ele pegava a malinha [risos] e ia lá pra perto do Vidas secas, do Graciliano, ia pra perto dos seus na prisão. Sempre é bom você levar uma escovinha de dente e uma pastinha de dente de avião no bolso. Você nunca sabe quando vai entrar em cana no Brasil. Nunca! Hoje mesmo mataram um brasileiro, um homem-bomba na Inglaterra, a dita polícia educada pra caralho! Na França, que beleza, aquilo lá explodiu de novo e por aí vai.
Tacioli – Mas há algum lugar em que exista uma realidade ou um projeto viável ou o ser humano é um projeto falido?
Jards – O ser humano não é um projeto falido, senão a gente não estaria aqui conversando sobre as outras coisas que o ser humano está entupido. É possível, sim! Eu queria sair o mais rápido possível do planeta. Porra, se esse babaca foi agora, por que a gente está aqui? Acho que uma caroninha vai bem. O homem devia perceber que não é porra nenhuma, que é um micróbio mínimo, sei lá, mínimo do universo, e parar de fazer essa putaria, viver feliz! Exerça a sua felicidade, não é só merda que existe. Tem aquela frase que não sei se é do Bakunin ou Malatesta, não interessa: “Todo homem que põe a mão no meu ombro e diz que me governa é um usurpador”. Eu não tenho ninguém pra mandar em mim, mando em mim e fim de papo. Isso não é ego, não é egocentrismo. Não, o mínimo que o cara pode fazer é comandar a si mesmo.
Max Eluard – Você é um anarquista.
Jards – Eu sou. Como ideologia. Sou anarquista-construtivista, não sou destruidor, não. Agora, se precisar, se me encher muito o saco, vou e tiro o cadarço do sapato do inimigo. Quero ver ele correr atrás de mim com sapato com um cadarço solto, tropeçando. [risos]

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