gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 4/19

Nas Dunas da Gal ficavam todos os doidos possíveis

Tacioli – Hoje faz 42 anos do golpe militar. Você lembra onde estava nesse 1º de abril?
Jards – Eu estava rindo da ditadura. Era 1º de abril e eu estava crente de que era tudo mentira, brincadeirinha da rapaziada pra dar porrada, mas no dia seguinte não havia riso nenhum. Eu estava vendo na televisão, pela TV Rio, os acontecimentos, tudo em preto-e-branco. Aí desce de um carro o general Montanha [n.e. O Coronel César Montanha de Sousa], que era um tampinha desse tamanho, e um sentinela, coitado, na porta do Forte de Copacabana. Aí o cara da TV narrava como um jogo de futebol. “General Montanha desce do carro. Seus seguranças em volta. General Montanha avança para os sentinelas. Os sentinelas não sabem o que fazer. Um deles barrou o general. O general deu um tapa na cara do segurança e arrancou-lhe o fuzil. Foi tomado o Forte de Copacabana!” Eu digo: “Porra!”. [risos] A risada parou na tomada do Forte de Copacabana e aí em diante fudeu.
Tacioli – Você estava com 21 anos?
Jards – Eu tenho 63.
Zé Luiz – Você nasceu em que ano?
Jards – Em 43.
Tacioli – Então tinha 21 recém-completados.
Jards – Porra, 21 aninhos, cheio de amor pra dar, quando veio aquela porradaria toda. Que horror!
Tacioli – Você lembra das expectativas que cultivava antes do golpe?
Jards – Eu tinha um pequeno grupo de músicos que se chamava Dois no Balanço. Eu e o filho do maestro Severino Araújo [n.e. Compositor e líder da Orquestra Tabajara], o Chiquinho. Ele na bateria e eu no violão. Aí entrou um outro, o Jota, meu grande amigo que me apresentou a Torquato Neto, piauiense. Jota veio também do Piauí. Com o Jota o grupo passou a ser o Três no Balanço. Depois entrou o saxofonista… É, o grupo ficava variando. O Jota era da PUC, como o Pedro Malan. A gente fazia festinhas pra arrecadar fundos para Ação Popular, a AP [n.e. Movimento político surgido em 1962 constituído, inicialmente, pelos militantes estudantis da Juventude Universitária Católica e grupos da Ação Católica. Figuras como Herbert José de Souza (o Betinho) e José Serra integraram a AP], que depois entrou na guerrilha. Essa AP era católica. Aí a gente fazia os bailezinhos para levantar fundos para a AP. Não sei porque, mas eu era uma espécie de líder, do conjunto pelo menos. Então, minha ação política começa levantando fundos pra a Ação Popular.
Tacioli – Em relação ao Brasil no início dos anos 1960, havia a percepção de que o país estava indo a lugar bacana?
Jards – Bossa nova, Teatro Novo, Cinema Novo, tudo novinho em folha. Artes plásticas, Oiticica. Glauber, Nelson Pereira. Aquele pessoal todo do cinema, Joaquim Pedro, Rogério Sganzerla. Havia um conflito também entre o Cinema Novo e o cinema que chamavam Udigrudi. Mas tudo numa perspectiva que indicava que o caminho da criação estava aberto. O Zé Celso e seu Teatro Oficina, o Teatro de Arena. Fiz direção musical e tocava no Arena conta Zumbi, que era uma mistura do Teatro de Arena com o Teatro Opinião, do Rio de Janeiro. E o Dori Caymmi me convidou pra substituí-lo, já que ele ia fazer um trabalho. Aí fiquei lá e conheci o Milton Gonçalves, o Augusto Boal, o Lima Duarte. Éramos todos revolucionários. Queríamos instaurar uma ética e uma estética novas. Ia tudo muito bem até que a porrada fudeu. Quando chegou o AI-5, não teve mais jeito. Treze de dezembro, eu me lembro bem.
Max Eluard – Qual foi seu sentimento nessa hora?
Jards – Chorar de indignação e de medo.
Max Eluard – Medo?
Jards – Claro, já sabia que a partir dali fudeu, já que tiraram todas as prerrogativas de cidadão. A partir dali era invasão, porrada, tortura. Era a radicalização do regime ditatorial.
Tacioli – Esse sentimento de medo era sentido pelos estudantes, pelos …
Jards – Pelos estudantes, sim, porque tinham mais informações. Agora o povo… O povo achava aquilo bom, acabar com essa bagunça, TFP pra cima e pra baixo, aquelas passeatas enormes contra a censura. Agora, no meio dessa confusão, tínhamos um pedaço de praia lá em Ipanema, no Posto 9. Eles sabiam, vigiavam aquilo, mas deixavam como válvula de escape. Então ia todo mundo pra praia, naquele mesmo lugar. Ficou conhecido como as Dunas da Gal Costa, as Dunas da Gal. Logo ela que não cheirava, não fumava, não fazia porra nenhuma. Mas eram nas Dunas da Gal onde ficavam todos os doidos possíveis. Lá você podia queimar um “charo” de maconha e ninguém te incomodava. Agora, se botasse o pé na calçada era grampeado imediatamente.
Max Eluard – Espaço de tolerância.
Jards – É. Há um exemplo horrível, que não foi na praia, mas em São Paulo. São Paulo era mais violenta, a repressão aqui, Doi-Codi [n.e. Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão de inteligência e repressão do Governo Brasileiro surgido com o golpe militar de 1964], esse negócio aí. Essa é a verdadeira história do “Vapor barato”. O Waly [n.e. O poeta e compositor baiano Waly Salomão, 1943-2003] veio pra São Paulo, cabeludo, como estava no disco. Aí foi preso com uma bagana no bolso. Levaram-no pra delegacia, depois o jogaram no Carandiru e o torturaram à vontade. Pau-de-arara, choque elétrico e o diabo-a-quatro. Quando o soltaram meses depois, ele estava um lixo. Foi se esconder em Niterói pra não ficar dando bandeira no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro todo mundo sabe onde você está, a toda hora. Você passa a mil metros, “Ah, eu vi fulano agora mesmo indo pra casa de sicrano, que viu beltrano”. É uma fofoca generalizada no Rio de Janeiro, como é em todo o Brasil, mas ali é foda. Aí ele veio de Niterói cantando “Morro da Cantareira”. Além de me fazer gravar o “Morro da Cantareira”, o Waly foi lá em casa e entregou a letra do “Vapor barato”, que tratava exatamente disso. [canta] “Estou tão cansado… não preciso de muito dinheiro, vou me picar porque a barra pesou.” E vapor barato, é vapor… barato… Entenderam? Tem várias leituras, e vapor barato é vapor barato.
Tacioli – Você também foi torturado?
Jards – Não, a tortura foi mental, porque viver aquele período foi uma tortura mental violentíssima.

 

Tags
Jards Macalé
de 19