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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 3/19

São os músicos quem bancam esse delírio

Zé Luiz – Somente para ilustrar o que o Tacioli perguntou. Eu, como contratante, como produtor de shows, estou do outro lado e sei o absurdo que é isso. Por exemplo: um programa de shows no SESC é fiscalizado pela Ordem. Aí exige-se dos produtores uma tal guia, um formulário em cinco vias, que é vendido na Ordem dos Músicos. Você compra aquele negócio, pega os dados de todos os músicos, os números das carteirinhas, e retorna à Ordem dos Músicos ali no Ipiranga (em São Paulo). Depois de atendido, eles te dão o protocolo e pesquisam se o músico está em dia com a anuidade. Se tiver um que não está em dia, eles rejeitam a guia. Aí você tem que ir em cima do músico e obrigá-lo a quitar a anuidade. Essa é a mecânica, é a maneira que eles têm de fazer os músicos pagarem. Aí o contratante entra em conflito com aquele músico. Se ele não quitar sai do projeto ou, muitas vezes, o próprio contratante é quem paga a anuidade e põe em ordem a papelada. Depois, deduz do cachê. Ou seja, todo mundo é aviltado. Um negócio horroroso!
Jards – A partir daí nós temos um problema: para onde vai esse dinheiro, atualmente eu não sei.
Dafne – Não há uma colônia de férias?
Jards – Tem uma colônia de férias. Propus enchermos três, quatro, cinco ônibus de músicos bem mal-educados e irmos visitar a nossa colônia de férias. [risos]
Zé Luiz – Boia, sunga.
Jards – Tudo. E levar os filhos, as crianças, que infernizam um pouco mais. Tem cavalos, cavalinhos; tem sauna, tem piscina, tem uma porrada de coisa, um luxo só! Nunca fui convidado. Soube desse patrimônio…
Zé Luiz – Você é não é da Ordem?
Jards – Mas ninguém sabia disso. Um dia, quando fui pagar a Ordem dos Músicos, eu me emputeci e dei três porradas na mesa. No Rio de Janeiro a Ordem não é informatizada. Aí fica na fichinha, vai procurar fichinha… Antes do sujeito procurar a fichinha, ele estava conversando com uma pessoa sobre firulas. E fica horas. “Eu estou com pressa! Tenho que ensaiar!” “Peraí! Pois é, fulana, imagina você… Sicrano, veja a ficha aí. Como é o seu nome mesmo?!” Dei três porradas na mesa. Aí sempre vem um cara. “Olha, vem cá Macalé, você precisa ver os melhoramentos que temos feito. Aqui o nosso estúdio…” E abriu a porta. Havia um nego instalando um monte de madeira no chão. “Estamos fazendo um estúdio para os nossos músicos. Temos o nosso sítio. Você não quer visitar o nosso sítio?” “Tenho o meu. Eu quero pagar essa porra e ir embora.” E o cara tentando me mostrar como a coisa funciona. “Eu não quero saber. Já sei, meu amigo. Eu quero ir embora. Pago ou não pago essa porra?!” “Não, tem que pagar!” “Ah, então deixa eu pagar. Agora pega esse funcionário aí e faz ele prestar atenção nas pessoas que estão aqui.” Havia uma fila. Quero saber quanto vale o nosso patrimônio. Aquele edifício velho no Rio de Janeiro… Os edifícios de Brasília, os edifícios em São Paulo, os apartamentos em Copacabana. É tudo em nome da OMB e quem usufrui são colegas-cupinchas e família. Isso é uma esculhambação! A gente passa noites e noites e noites, 48 horas pensando, tentando trabalhar, aí chegam esses caras e compram, fazem patrimônio com o nosso dinheiro e colocam no nome da OMB que, na verdade, somos nós quem compramos aquela porra. Isso é uma esculhambação!
Tacioli – Se houvesse uma mobilização de quem contrata e do contratado…
Jards – Não adianta muito se os músicos não se organizarem… São os músicos quem têm que se rebelar contra isso. Foi o que aconteceu segunda-feira, finalmente.
Zé Luiz – A coisa é tão escabrosa que um dia eu estava lá na Ordem e vi o Sandoli sair da sala dele. Ele estava indo embora. Eu não consegui entender aquilo: ao seu lado dois seguranças fortemente armados. “O que significa isso? Para que o presidente de uma associação de músicos com dois seguranças fortemente armados?” Algo está errado.
Tacioli – Eram duas clarinetas.
Zé Luiz – Eu vi, eram duas automáticas. Barra-pesada.
Jards – Eu vou destituir esses seguranças. Por quê? Porque são os músicos quem pagam esses seguranças. Todo o dinheiro que estiver sendo utilizado na Ordem dos Músicos do Brasil é nosso. Somos nós, por falta de consciência ou por preguiça, quem bancamos esse delírio.
Max Eluard – Qual seria a saída? Não existir Ordem dos Músicos?
Jards – Não. Por enquanto, com tudo isso que já tem, é reformular o estatuto, ter eleições democráticas. A ditadura botou o cara lá, a “ditamole” não tirou o cara de lá. E agora, nesse arremedo de democracia, o cara ainda continua lá.
Tacioli – Mesmo tendo um músico no Ministério da Cultura não…
Jards – O Gil deu depoimento e assinou como músico, não como ministro. Ele está sendo ministro, mas assinou como músico. A Ana de Hollanda, do Centro de Música da Funarte, um órgão federal, assinou como musicista. Tanto na área federal dos ministérios, como na área da classe, todo mundo assinou. O Chico foi lá e deu um depoimento… O Gil foi mais formal. “Precisamos discutir a situação paranormal da Ordem dos Músicos do Brasil. Por que será? Porque …” Então, tá. [risos]
Max Eluard – O problema não é a Ordem em si, e sim como ela é gerida.
Jards – Claro, como é gerida.
Max Eluard – No papel está tudo bem.
Jards – Mas a ação é uma merda.

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