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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 2/19

Quem tem Barão não tem que lamber saco de Rolling Stones

Tacioli – Você falou que neste contato com o Itamar você se encontrava numa fase pouco criativa. Quando foi isso, Jards?
Jards – De vez em quando, pinta; de vez em quando, não pinta. De repente você tem muita coisa na cabeça, de repente você não tem nada na cabeça. Eu fico variando entre tudo e nada.
Tacioli – Agora você está variando entre?
Jards – Agora estou com tudo. [risos]
Zé Luiz – Ontem ele tinha quatro discos para vender, né?
Jards – Quatro discos. Tempo atrás não tinha nenhum. Graças à Lua, à Atração e, agora, à Biscoito Fino [n.e. Gravadoras que recentemente lançaram álbuns do cantor e compositor carioca], mas todas são primas-irmãs. Na Lua foram dois. E todos, acredito, saíram bacanas.
Dafne – Segunda-feira agora teve um show no Rio, nos Arcos da Lapa, o Fora de Ordem.
Jards – Isso.
Dafne – Como foi e como está essa história com a Ordem? [n.e. Ordem dos Músicos do Brasil que, segundo a Funarte, é o “órgão que fiscaliza, em nível nacional, o exercício da profissão de músico”, cabendo a entidade “emitir carteiras de registro profissional para compositores, regentes, instrumentistas, cantores, professoras, arranjadores e outros, tornando-os aptos ao exercício”.]
Jards – A Ordem foi um organismo criado em 1962, se não me engano. E colocaram lá um cara que é presidente até hoje, o Viana [n.e. Valme Lopes Viana], entre outros cupinchas.
Dafne – Isso lá no Rio, né?
Jards – No Rio.
Dafne – Tem o Sandoli também. [n.e. Wilson Sandoli, presidente da unidade paulista]
Jards – Esse também. Desde o Golpe de 64 estão no poder. Quero dizer, aquele tipo de poder. E um negócio absurdo porque a Ordem não faz nada de concreto pra você usar. Por exemplo: você paga uma anuidade para manter o número de registro de sua Ordem; o meu é 12.390. Todo anos tenho que pagar uma anuidade. Se eu não pagar essa anuidade eu não trabalho. Vai um fiscal lá e multa e faz o diabo a quatro. Agora, pagar somente pra ter um registro… Ninguém é obrigado a se associar à porra nenhuma, como diz a Constituição. Você não é obrigado a ser sindicalizado, você não é obrigado a entrar em Ordem, você não é obrigado a nada pra exercer o seu ofício. Você faz o que o seu talento mandar. Agora, cobrar uma taxa, me proibir de trabalhar se não pagar essa anuidade, é uma obrigação? É um absurdo! Inauguraram umas comissões permanentes – as câmaras setoriais – lá na Funarte [n.e. Fundação Nacional de Artes], uns estudos, umas reuniões que o próprio Governo pediu para que se discutisse a situação da música, do músico. E a Ana de Hollanda, que é musicista, cantora e diretora do Centro de Música de Funarte, disponibilizou as salas da Funarte pra essas discussões. Os músicos, que não são muito dessa história, são meio lelés da cuca, passaram o ano inteiro discutindo e fizeram um documento, um abaixo-assinado, pra que se tivesse novas eleições na Ordem. Mas a Ordem adianta e atrasa as eleições… Aí o Eduardo Camenietzki levou o manifesto lá. E saiu um bate-boca entre ele e o Viana. Aí, com essa mania de comissão de ética no Brasil, mania de cassação, fizeram uma comissão de ética pra julgar a expulsão do Eduardo e a cassação de seu registro. Ele é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele toca, é músico, grava, faz essas coisas todas, se cassar o registro do cara, acaba seu trabalho. E fizeram essa bobagem de querer cassá-lo. Está em processo. Finalmente os músicos tiveram uma luz nessa história. Aí nos reunimos e fizemos um show na segunda-feira, Fora de Ordem , com várias participações. Foi uma demonstração de força concreta dos músicos. Aquilo não foi brincadeira. Os próprios músicos produziram o show; tudo direitinho. Um show maravilhoso! Eu, por exemplo, me livrei do meu violão e toquei com o Frejat, com oBarão Vermelho. Não é a primeira vez que o Barão Vermelho me salva. É a segunda. Uma vez me salvou em Garanhuns. “Macalé, quer tocar com a gente?!” “Pô!” “Vamos lá com um ‘Satisfaction’!” Chegou lá e a gente tocou o “Vapor barato”. Era uma segunda-feira. Fiquei no meio daquele rock maravilhoso, quando pensei e falei para o Frejat: “Bicho, quem tem um Barão Vermelho não tem que ficar lambendo o saco de Rolling Stones. Tem que botar tapete vermelho também para o Barão Vermelho. Primeiro porque é barão, segundo porque é vermelho, e terceiro porque são tão bons quanto os Rolling Stones”. Mas essa subserviência nacional… Não se pode ver um estrangeiro para cair prum boquete. Desculpaí. [risos] [n.e. A sócia-proprietária do Villaggio Café, Rozana Lima, já estava à mesa] Aí fica esse negócio horroroso, entendeu?
Tacioli – Mas você está otimista…
Jards – Eu sou otimista-pessimista, pessimista-otimista. Quando está muito bom, começo a desconfiar que vai dar merda. Quando dá uma merda total, digo: “Vamos resolver esse problema! Vai ficar bom à beça!”.
Tacioli – Mas as entidades culturais poderiam ter uma força nessa história também…
Jards – Mas ninguém tentou, ninguém quer nada. Quero dizer, nunca ninguém quer nada, não, aí vem o meu pessimismo natural, “ninguém quer nada”. Não, acaba querendo, todo mundo quer tudo. Quem foi que disse aquela frase, desse negócio do brasileiro bater palma de braços cruzados?

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