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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 19/19

A gente não vai comer, não?

Tacioli – Será que existe uma supervalorização do que foi produzido naquele período e não do que foi feito dez anos pra cá? Ou será que a obra, se é que dá pra dizer isso da sua própria obra, teve uma conotação muito mais forte do que o trabalho mais recente tem hoje?
Jards – Cada momento é um momento. Por exemplo: há músicas que são atemporais, há música que marcou muito um tempo, como “Vapor barato”. Passam-se anos, anos e anos e, de repente, por uma interpretação X, você entra com aquela música dando outra dimensão a ela, e ela retorna.
Renato – Uma nova leitura.
Jards – Uma nova leitura de uma música. Eu estava cantando Billy Blanco: “Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco / Afinal todo mundo é igual. Todo tombo termina por terra, por cima e na horizontal”. Se morre ou não morre, fica ou não fica, vai ou não vai. Então, tem coisa na música brasileira filosófica, cara. É filosofia! E não essa chateação, esse pula-pula chato pra caralho. Quando começa assim [ergue os braços e movimento como se fosse uma onda]… Proibi o meu público! Eu não sou ditatorial, sou um democrata, mas eu proibi o meu público de fazer isso. [repete o gesto] O primeiro que levanta a mão já dá vontade de dar uma porrada. Digo: “Baixa a mão, aí, porra!”. O cara não entende porque sou contra isso. Não sei, é feio. É um gesto simples, mas que carrega tanta burrice, tanta ignorância, tanta idiotice. O cara levanta o braço e já começa a me matar. Esse cara está misturando minha música com essa sacanagem toda que está aí. Estou fazendo justamente o oposto. Parece uma coisa esquisita, mas eu não gosto. Afinal de contas, a gente não vai comer, não?
Tacioli – Jards, obrigado pela…
Jards – Obrigado, é? [risos]
Dafne – Eu quero a minha parte.
Zé Luiz – A primeira parte do pagamento.
Jards – Obrigado a vocês pela atenção dispensada e cuidado com o Brasil! Ele tanto pode fazê-los felizes, como enfiá-los num buraco do cacete. Vamos torcer pela felicidade.
Dafne – Jards, uma coisa rápida…
Jards – Eu não tiro fotografia nu!
Dafne – Nada de nu! Vamos tirar um retrato ali junto à parede da Igreja, ali do lado.
Jards – Não vai aparecer um padre louco, não?
Dafne – Você gosta de padre que expulsa, né?
Jards – Eu gosto de padre.
Dafne – Não, sem padre. Já falei com eles. Eles vão entender…

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