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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 1/19

Ficava surpreso como o Itamar conseguia fazer tanta música

Enquanto aguarda Jards Macalé e José Luiz Soares Jr., a equipe consome algumas cervejas, ouve a rádio sintonizada pelo dono do bar (Alpha FM) e prepara o equipamento para a entrevista. Mais tarde, surge a dupla.

José Luiz Soares Jr. – E aí, Tacioli, cortou a juba?
Ricardo Tacioli – Ah, faz tempo. E faz tempo que a gente não se vê.
Daniel Almeida – E aí, vai de cervejinha?
Jards Macalé – Água, água, sem gás e sem gelo. [responde olhando o fascículo da série História da Música Popular Brasileira, editada pela Abril nos anos 1970] Uma das poucas fotos do Gotham City é esta aqui.
Dafne Sampaio – É da apresentação do Gotham City, né?
Jards – É, é. Uma das poucas. [silencia e observa]
Dafne – Como foi ontem? [n.e. Referência ao show-solo realizado na noite anterior no Villaggio Café, em São Paulo ]
Jards – Foi ótimo. Pergunte ao proprietário. [risos] [n.e. O produtor Zé Luiz Soares]
Zé Luiz – Foi maravilhoso.
Dafne – Vou lá hoje.
Zé Luiz – Do meio para o fim fica uma atmosfera… Eu já havia percebido quando fizemos um show no Supremo, há uns dois ou três anos. O show começa bem, mas do meio para o fim vira um clima, as pessoas não querem deixá-lo…
Dafne – Fui a um show em que havia vários convidados…
Zé Luiz – Foi uma série de shows da Lua. [n.e. A gravadora Lua Music] Chamava-se Lua no Supremo.
Dafne – Ah, então não foi esse, não.
Zé Luiz – Foi o Jards sozinho. Mas, no final, as pessoas não queriam deixá-lo sair. E é aí que ele quer sair mesmo, cansado.
Jards – Tem uma hora que cansa, né?!
Max Eluard – Foi um show em que o Itamar [n.e. O músico paulista Itamar Assumpção, 1949-2003] surgiu como uma entidade, não?
Zé Luiz – Foi esse mesmo. O engraçado que eu estava sentado numa mesa do fundo e eu tinha que apresentar o show. Aí subi e apresentei. Quando voltei a minha cadeira já estava ocupada. E pelo Itamar. Daí peguei uma outra e fiquei assistindo o show ao lado do Itamar. Dei sorte. Foi essa noite mesma.
Jards – O Itamar falou muito nesse dia?
Zé Luiz – Não falou muito. Acho que ele já estava meio doente…
Tacioli – Como era a sua relação com o Itamar , Jards?
Jards – Ótima, ele era meu amigão. Uma figura! Meu amigo, porra! E eu ficava surpreso como ele conseguia fazer tanta música. Eu não tenho dificuldade para fazer música, mas eu estava num momento muito bloqueado. E eu o via fazendo música sem parar. Tanto é que o Caetano me deu três letras para eu fazer a música, acabei não fazendo e ele fez uma delas. Aliás, de vez em quando ele me dá umas letras, mas estou em outra lua e acabo não fazendo. Caetano me deu uma música em Londres, aquela assim: [canta] “Ah! Que esse cara tem… Ele é quem quer / Ele é o homem / Eu sou apenas uma mulheerrr!”. [n.e. Referência à música “Esse cara”, lançada em 1972 no LP Drama  Anjo exterminado, de Maria Bethânia] Aí levei para o quarto e fiquei três meses olhando para a cara dele. Não bateu! E um dia ele foi ao meu quarto e pegou a letra. “Cê não vai fazer, não, vai?!” “Tô aqui pensando uma porrada de coisas…” Aí ele escreveu no livro dele, como é que se chama, “Mentira…” [risos]
Max Eluard – Verdade tropical. [n.e. Livro autobiográfico de Caetano Veloso, lançado em 1997 pela Companhia das Letras]
Jards – Ah, é, Verdade tropical. Ele diz que eu não fiz porque não quis bancar o veado, não-sei-o-quê. Eu não tenho esse problema, não, não sou veado. E não tenho nada contra os veados, muito pelo contrário. Enfim, têm vezes que não pinta, têm vezes que pinta.

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